Patriarca de Lisboa lembrou que os sete homens enfrentaram mar «agreste», «perigoso» e capaz de levar a vida, em prol da «comunidade»

Peniche, 12 out 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, benzeu este domingo, em Peniche, o memorial de homenagem às vítimas do naufrágio da embarcação ‘Benito’, em 1977, valorizando o contributo que os pescadores deram à comunidade.
“Eles construíram em vida o Céu aqui na terra”, afirmou o responsável católico, citado pelo Patriarcado de Lisboa, na homilia da celebração, no Santuário de Nossa Senhora dos Remédios.
A Eucaristia antecedeu a bênção do memorial, instalado no Revelim dos Remédios, 49 anos após a tragédia, que homenageia Vicente Pedro Cativo, António Serpa, Laureano Henriques Serpa, Joaquim Martins Borrego, António Madeira Batista, Félix Encarnação Azevedo e Américo José Pedro, os sete homens que perderam a vida no naufrágio.
O acidente ocorreu a 30 de setembro de 1977, pelas 23h10, junto à costa dos Remédios, quando a traineira ‘Benito’ foi despedaçada contra as rochas, numa noite de nevoeiro cerrado, informa o Patriarcado de Lisboa.
D. Rui Valério lembrou que os pescadores enfrentaram aquele mar “tantas vezes agreste”, “perigoso” e que, destacou, “é capaz de levar tudo a um homem, inclusivamente a própria vida”.
Mas nunca o fizeram para eles. Foi sempre pela comunidade. Foi sempre para garantir alimento à humanidade, às pessoas”, frisou.
Para D. Rui Valério, o testemunho destes pescadores permanece como uma mensagem para a comunidade.
“É um dia de memória, de saudade, mas é um dia de esperança”, assinalou ainda.
Na reflexão, o patriarca de Lisboa lembrou a esperança cristã na vida eterna e a comunhão entre os que permanecem na terra e aqueles que já partiram.
“Quando nós celebramos a Eucaristia, quando nós recordamos os nossos entes queridos numa celebração eucarística, não estamos só a rezar pelos nossos entes queridos, a pedir pelos entes queridos, mas a oração da Eucaristia é uma oração não só pelos entes queridos, mas também com eles”, referiu.
O responsável católico realçou ainda que a memória dos sete pescadores permanece presente nas comunidades e nas famílias, ressaltando que a passagem do tempo não apagou os laços de afeto.
“Se é verdade que eles nunca foram esquecidos, não obstante os 49 anos que já passaram, também é verdade o inverso. Eles também nunca nos esqueceram. E por isso são nossos intercessores junto de Deus”, declarou.
A relação de Jesus com os pescadores foi também mencionada por D. Rui Valério, recordando que vários dos primeiros discípulos eram homens ligados ao mar.
É por isso que ser pescador é uma profissão que para a Igreja é sempre, sempre abençoada. É enfrentar o perigo pelos outros. É enfrentar o perigo para que na mesa dos portugueses, na mesa das famílias, não falte alimento”, evidenciou.
Na cerimónia de inauguração, após diversos testemunhos, o presidente da Câmara Municipal de Peniche, Filipe Sales, destacou a importância da criação do memorial e o significado da participação do patriarca de Lisboa naquele momento.
“A sua presença junto das famílias e da nossa comunidade é para nós um sinal de proximidade, solidariedade, e de respeito pela sua memória”, expressou.
O autarca indicou que que o monumento pretende ser “um lugar de respeito, de oração, de memória e de encontro”, evocando o significado do naufrágio para a história local.
“Hoje, Peniche diz-lhes, de forma simples e para sempre: ‘Não vos esquecemos’”, disse Filipe Sales, dirigindo também uma palavra de solidariedade às famílias e aos sobreviventes.
A cerimónia de bênção do memorial contou com a presença de familiares dos pescadores falecidos e de “numerosos populares”, registou o Patriarcado de Lisboa.
A iniciativa foi promovida pelo Município de Peniche e pela Comissão Pró-Memorial do Naufrágio do Benito, com o objetivo de perpetuar a memória das vítimas e prestar homenagem às suas famílias, aos sobreviventes e à comunidade piscatória.
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