Rui Ferreira, Arquidiocese de Braga

1 – A Igreja experimenta agora este Grande Domingo, como refere Santo Atanásio, que designa o tempo largo de júbilo pascal que se estende até à solenidade de Pentecostes. Na Arquidiocese de Braga a extensão do tempo pascal adquire especial significado. A tradição do Compasso, bastante enraizada no seu território, não se limita ao domingo festivo, mas estende-se frequentemente à Segunda-Feira de Páscoa e ao Domingo seguinte conhecido como Pascoela. Segundo o rito bracarense é precisamente na segunda-feira de Pascoela que se assinala a Festa de Nossa Senhora da Alegria, ou das Alegrias de Nossa Senhora, também referenciada como de Nossa Senhora dos Prazeres. Com o objetivo de assinalar o gozo de Maria após percecionar a ressurreição do seu filho em contraponto com a dor sentida aos pés da cruz, esta celebração litúrgica terá sido introduzida por iniciativa do Arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires em 1566. Quando foi introduzida na Igreja de Braga esta celebração já era assinalada em Lisboa e Évora, dioceses onde ainda hoje mantém uma singular popularidade.

2 – Apesar de não ser uma festa exclusiva do costume bracarense, esta ocorrência confirma o pendor mariano que é atribuído ao rito bracarense. Convém recordar que na celebração da ressurreição são significativas as alusões marianas. Durante a recitação do precónio pascal é efetuada um elogio à abelha, que produz a cera, seguindo-se uma alusão à pureza de Maria. Outra das referências marianas na celebração pascal acontece aquando da realização da Procissão da Ressurreição. Segundo o rito bracarense, a mesma deve efetuar-se acompanhada pelo cântico “Regina Coeli” (Rainha do Céu), que celebra a alegria de Maria após a ressurreição de Jesus Cristo.

3 – Apesar dos Evangelhos não confirmarem a aparição de Jesus Cristo a Maria após a ressurreição, é um facto que esta presumível aparição de Jesus Cristo a sua mãe já era usual na tradição cristã oriental, de onde aliás provém a inclinação mariana do cristianismo. No século VI, já São Romano, o melodista (?-c. 560), comenta no seu “Hino 25” um putativo diálogo de Cristo com Maria aos pés da cruz no qual refere: «Descansa, Mãe, serás tu a primeira a ver-Me sair do túmulo». Também Santo Inácio de Loiola, no seu livro dos Exercícios Espirituais, na primeira contemplação na semana em que propõe a meditação de Cristo ressuscitado é precisamente a Maria, concedendo-lhe um protagonismo que as próprias narrativas evangélicas não lhe concedem: «Apareceu à Virgem Maria; o quem ainda que se não diga na Escritura, se tem como dito, ao dizer que apareceu a tantos outros».

4- Também o Papa João Paulo II o sublinha, afirmando que é “legítimo pensar que, de modo semelhante a Mãe tenha sido a primeira pessoa a quem Jesus ressuscitado apareceu”. Aliás, a ausência de Maria do grupo das mulheres que ao alvorecer se dirige ao sepulcro (cf. Mc. 16, 1; Mt. 28, 1), não poderia talvez constituir um indício do facto de Ela já se ter encontrado com Jesus?” Esta dedução encontraria confirmação no dado que as primeiras testemunhas da ressurreição, por vontade de Jesus, foram as mulheres, que tinham permanecido fiéis ao pé da Cruz, e, portanto, mais firmes na fé. (…) Sendo imagem e modelo da Igreja, que espera o Ressuscitado e que no grupo dos discípulos O encontra durante as aparições pascais, parece razoável pensar que Maria tenha tido um contacto pessoal com o Filho ressuscitado, para gozar também ela da plenitude da alegria pascal[1]. Como refere Von Balthasar, Maria é “porta do céu”, afirmando-se muito mais relevante do que Pedro o “porteiro celeste” ou qualquer outro discípulo de Jesus. É ela que nos permite entrar na presença do seu Filho[2]. Por isso mesmo, torna-se clarividente para os místicos a aparição de Cristo ressuscitado a sua mãe. Se apareceu para tantos outros, como não se revelar para Maria?

5 – O aparecimento desta celebração na tradição bracarense poderá estar vinculado à chegada dos Jesuítas à cidade de Braga em 1560, ou seja, seis anos antes da sua introdução. A ‘inclinação’ jesuítica na atribuição de um lugar privilegiado a Maria nas dinâmicas devocionais confirma a intuição de que a introdução desta festa na Igreja bracarense possa ter ocorrido por sua influência. Além desta especial evocação de Maria junto do ressuscitado, a Companhia de Jesus foi pioneira na introdução do culto à dormição de Maria, mais conhecida por Nossa Senhora da Boa Morte. O facto do único vestígio da evocação de Nossa Senhora dos Prazeres na cidade de Braga se encontrar no templo do Colégio de São Paulo, entregue à Companhia de Jesus entre 1560 e 1759, é um argumento portentoso na fundamentação desta celebração litúrgica.

6 – Apesar da celebração dos Prazeres de Maria se ter enraizado no cultual bracarense, é rara a existência de exemplares desta iconografia, ou mesmo de Cristo ressuscitado. Uma das mais peculiares representações desta evocação de Maria na Arquidiocese de Braga é a Nossa Senhora da Alegria, que encontramos em Aboim da Nóbrega, que apresenta a mãe de Jesus com vestes e expressão rejubilante a tocar uma viola ou cavaquinho. Na cidade de Braga decorre ainda uma outra celebração de enorme significado neste âmbito. Na Basílica dos Congregados, onde em 1761 se fundou a Irmandade de Nossa Senhora das Dores que propagou esta devoção em todo o país, realiza-se no final da Vigília Pascal uma prática que evoca a alegria de Maria após a ressurreição. A imagem de Nossa Senhora das Dores aí venerada é coroada solenemente após lhe serem retiradas cada uma das sete espadas. A cerimónia finda com a coroação da imagem, retirando-se o resplendor e colocando-se uma coroa real. Os sinos repicam e vivencia-se a alegria da ressurreição. A imagem permanece sem as suas “dores” durante todo o período pascal.

7 – A imagem de Maria despindo-se das suas dores e experimentando a alegria do Cristo ressuscitado durante o tempo pascal deveria ser um convite vigoroso a uma vivência mais intensa deste especial tempo proposto aos cristãos e ainda experimentado na Arquidiocese de Braga e em algumas outras comunidades em Portugal. A devoção de Nossa Senhora da Alegria é um contraponto muito oportuno à evocação das Dores de Maria, que certamente justificaria uma popularidade mais assinalável nas práticas devocionais e na própria liturgia.

 

Rui Ferreira

[1] JOÃO PAULO II, “Maria e a ressurreição de Cristo” in Audiência de 21 de Maio de 1997. (disponível em www.vatican.va)

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[2] https://le-citazioni.it/frasi/141513-hans-urs-von-balthasar-su-maria-ella-e-porta-del-cielo-e-assai-piu-d/ (visto em 18/04/2021)

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