Cónego Manuel Maria Madureira, Arquidiocese de Évora

Não posso perder a esperança de ver, algum dia, a coerência, a autenticidade, a honra e a generosidade como as principais características da sociedade. Difícil? Sim, porque, numa lógica de egoísmo e de egocentrismo, é custoso desapegarmo-nos dos atrativos deste mundo! e de tudo o que nos dá gosto e prazer! e das facilidades que a nossa civilização rica e supérflua criou! Tudo isso, porque gostamos de assumir como boa a nossa inclinação para o que é terreno, e como menos boa a preocupação com outras realidades. Para quê perder o pássaro que temos na mão se é difícil apanhar os dois que continuam a voar? Os antigos hebreus chamavam “mamona” a essa inclinação para os bens terrenos e usavam-na quando se referiam à Beleza, ao Dinheiro, à Família, à Fama – e nunca às Boas Obras. No tempo de Jesus – que veio ensinar que a inclinação para os bens terrenos deve submeter-se à dimensão espiritual – formou-se o seguinte ditado: “Vós não podeis servir a Deus e a Mamona (adágio traduzido por “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”). De facto, qualquer teoria que faça do lucro (do dinheiro, dos bens) a regra exclusiva e o fim último da vida humana é, moralmente, inaceitável. O apetite desordenado às riquezas não deixa de produzir os seus efeitos perversos e é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social. Perguntemo-nos então: vale a pena aceitar a recomendação de Jesus de que se não pode servir a Deus e ao dinheiro? Ganha-se alguma coisa com isso? E damos a resposta em tom de reflexão. Quando somos novos, dizemos que não nos importa morrer. Pudera! A morte vemo-la tão longe! ou melhor, nem a vemos. Um dia, tudo vai acontecer e, então, teremos oportunidade de nos despedirmos dos cinco amores da vida. Virá a Beleza e dirá: «tu sabias que eu não era um amor definitivo. Tudo o que é bom, acaba. Deste modo, agora deves resignar-te. Adeus». Aproxima-se o Dinheiro e pronuncia estas palavras de consolo: «já sabes que vou estar contigo até ao fim. Terás um enterro solene. Depois, acenderei uma grande vela pelo descanso da tua alma». Logo a seguir surge a Esposa chorosa a acariciá-lo dizendo: «quis-te sempre e sempre te recordarei. Acompanhar-te-ei até à sepultura. Conservar-te-ei nessa foto e no coração. Prometo que te levarei frequentemente flores». Em quarto lugar vem a Fama e, em voz alta para ser notada, diz-lhe: «alegra-te, poucos morrem com tanta fama. Haverá muita gente no teu enterro. A imprensa e a televisão falarão de ti durante alguns dias». Por último aproximam-se as Boas Ações e, com muito carinho e serenidade, dizem-lhe ao ouvido: «nada temas, alegra-te. Nós não nos despedimos nem choramos nem fazemos juras de amor. Nós, para além do consolo, damos-te alegria. Duramos muito mais que a fama e a beleza e lembramos o dinheiro que tu soubeste distribuir. Somos tão eternas como tu. A tua eternidade será feliz graças a nós».

 

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