Nota Pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã para a Semana Nacional da Educação Cristã (07 – 14 de Outubro de 2007) Uma reflexão sobre a relação entre a educação e as comunicações sociais 1. Os meios de comunicação social, na crescente vastidão das suas modalidades e das sofisticadas tecnologias que lhes estão associadas, constituem uma singular revelação do génio inventivo da humanidade. Em particular, os meios mais modernos são “autênticas maravilhas saídas do género humano” (1). Os acontecimentos, as ideias e as imagens que constantemente transmitem, as descobertas científicas e técnicas que divulgam e as culturas que difundem dotam as pessoas de novos meios de percepção do mundo, contribuem para estreitar os laços de união da humanidade, despertam atitudes de solidariedade e estimulam o progresso material e espiritual. Podemos reconhecer que, dadas as características de expansão quase universal e de profunda influência dos meios de comunicação social, não existe lugar onde não seja sentido o seu impacto no comportamento religioso e moral, nos sistemas políticos e sociais e na educação (2). Tal influência reveste-se também, frequentemente, de aspectos negativos, que afectam o desenvolvimento pessoal, social e espiritual das pessoas, particularmente das mais jovens, e comprometem o progresso autêntico da humanidade. São fruto do domínio de lóbis económicos e ideológicos, que dissimulam a verdade e condicionam a liberdade. Traduzem-se na divulgação de modelos culturais que fomentam o individualismo e o relativismo moral, na criação de necessidades artificiais, na promoção de programas e de redes de contactos que ferem a dignidade humana, no uso e abuso das pessoas para fins predominantemente utilitaristas e economicistas. Disso se ressente, também, a visão desvirtuada e tendenciosa da religião e da Igreja, que frequentemente divulgam. 2. A Igreja tem o maior apreço pela comunicação social e por quantos a ela se dedicam. Na complexidade das estruturas e dos códigos de linguagem dos meios de comunicação, na beleza e na harmonia com que unem a palavra e a imagem, nas imensas capacidades de aproximar pessoas e povos, na perfeição tecnológica e nas admiráveis possibilidades que se anunciam de simular mundos virtuais de aventura e de projecção de ideais sociais, em tudo isto a Igreja vê o poder criador de Deus, de que o ser humano, feito à sua imagem e semelhança, participa. Os meios de comunicação são dons que Deus põe ao serviço dos homens e “constituem um dos mais valiosos recursos de que o homem pode usar para fomentar o amor, fonte de união” (3). Orientados nesta direcção, colocam-se ao serviço da vontade salvífica de Deus e seguramente contribuirão para o desenvolvimento pleno da pessoa e das sociedades, em ordem à construção da “civilização do amor”. E, na perspectiva cristã, esta comunhão de amor “encontra o seu fundamento e figura no mistério primordial da inter-comunicação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que vivem uma única vida divina” (4). 3. Cristo é o “perfeito Comunicador” (5). Deus incarnado e plenitude da revelação, Cristo comunicou a sua mensagem pela palavra e o dom da sua vida, de forma compreensível e iluminadora das situações de vida das pessoas do seu tempo. A Igreja tem por missão anunciar Cristo e a sua mensagem. Enraizada no mundo e comprometida com o presente e o futuro da humanidade, assume a comunicação como constitutiva da sua própria essência (6). Através dos seus próprios meios de comunicação social, ou daqueles que a sociedade coloca ao seu dispor, a Igreja não só divulga a mensagem e a vivência do Evangelho, contribuindo assim para a educação da fé dos cristãos, como, pela divulgação das suas perspectivas sobre a vida e a história da humanidade, abre-se ao diálogo com a sociedade, dando o seu contributo específico para a construção de uma cultura que integre os valores humanos e cristãos, e, desse modo, concorra para a formação integral do ser humano. 4. “Os complexos desafios que se apresentam para a educação nos dias de hoje estão frequentemente vinculados à ampla influência dos meios de comunicação social no nosso mundo” (7). São questões que afectam a sociedade, no seu todo, e, particularmente, as instituições educativas. Por isso, afectam também a Igreja, comprometida, pela sua própria natureza, na missão educativa. Nesta Semana Nacional da Educação Cristã, propomos aos educadores cristãos – pais, professores de Educação Moral e Religiosa Católica ou de outras disciplinas, párocos, catequistas e outros educadores – e a quantos se lhes queiram associar, a reflexão e o debate sobre alguns desafios que os meios de comunicação social lançam à educação das crianças e dos jovens, a saber: a formação das crianças e dos jovens para a correcta utilização dos meios de comunicação social; a preparação dos educadores para o conhecimento e o uso de novas tecnologias de comunicação; a capacitação humana e material das estruturas de coordenação educativa para melhor responderem às novas exigências de formação, com meios adequados. Não é nosso objectivo dar respostas definitivas a estas questões. Queremos, apenas, lançar algumas pistas de reflexão e sugestões, como seguem. 5. Educar as crianças para o uso correcto dos meios de comunicação social é uma responsabilidade irrenunciável dos pais, da escola e da Igreja. O crescimento acelerado de novas formas de comunicação social – que assume o seu expoente na internet – e o acesso cada vez mais facilitado aos instrumentos tecnológicos, sobretudo a televisão, o computador e o telemóvel, conduzem a uma situação de concorrência entre a influência formativa dos meios de comunicação social e a da família, da escola e da Igreja, por vezes geradora de conflitos (8). Efectivamente, essa desarmonia pode alterar a qualidade das relações humanas, tão necessária ao desenvolvimento equilibrado das personalidades. Não raro, pais, professores, catequistas e outros educadores, sentem-se ultrapassados pelos seus filhos e educandos, sobretudo por três factores: a vastidão de informações e de conhecimentos que adquirem através das novas tecnologias, que dominam de forma quase mecânica; os programas de entretenimento, que facilmente os isolam dos contactos interpessoais, privando-os, entre outras coisas, do diálogo familiar; e as vastas relações que estabelecem, não isentas de formas dissimuladas de manipulação. Para essa corrida sedutora aos meios de comunicação contribui muito a influência dos grupos de idades afins em que jovens e crianças estão inseridos. Há que enfrentar e responder a este desafio colocado a todos os educadores, procurando que se formem adequadamente no conhecimento e na utilização das novas tecnologias, descobrindo as riquezas e os riscos a ela associados. Esta é uma condição essencial para poderem orientar as crianças e os jovens para um uso crítico dos meios de comunicação social, em que se deixem guiar por critérios e valores que lhes permitam fazer escolhas enriquecedoras, crescendo, desse modo, no exercício de uma liberdade responsável. O papel que os pais devem assumir neste ponto é de importância primordial, pois são os primeiros responsáveis pela formação dos filhos para o uso prudente dos mecanismos oferecidos pelas novas tecnologias. 6. No campo da educação, há que estabelecer o equilíbrio entre a formação adquirida pela imagem, predominante nas mensagens televisivas e que mobiliza, especialmente, emoções, sentimentos e afectos, e a formação veiculada pelos processos que valorizam a leitura, mais apta a estimular uma racionalidade e uma reflexão fundamentais num crescimento humanamente integral. Estabelecer esse equilíbrio, que garante o desenvolvimento integral das capacidades da criança e do jovem, é um desafio a todas as instâncias educativas, de modo especial à Catequese e à Educação Moral e Religiosa Católica, numa fase de preparação e lançamento de novos catecismos, manuais e outros materais didáctico-pedagógicos. 7. Finalmente, apelamos aos órgãos de coordenação da Catequese e do Ensino Religioso Escolar, em planos diocesano e nacional, aos responsáveis das escolas católicas e aos párocos para que progridam na utilização de recursos educativos, investindo em equipamentos e em formação, criando páginas electrónicas que veiculem propostas próprias ou resultantes das suas pesquisas. 8. Educar é uma tarefa sempre complexa e difícil. Ser educador é um dom e uma responsabilidade. Nas circunstâncias actuais, adensam-se as problemáticas e impõem-se novas exigências formativas para os educadores. Unidos a Cristo, que disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28), estaremos seguros de poder experimentar “o suave peso de educar”. Nossa Senhora da Assunção, estrela que nos guia, para Ele nos conduza. Lisboa, 15 de Agosto de 2007 A Comissão Episcopal da Educação Cristã ___________ 1 – Conferência Episcopal Portuguesa (2002). Carta Pastoral Na era da comunicação social, n. 1. 2 – Cf. Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais (1992). Instrução Pastoral Aetatis Novae, sobre as comunicações sociais, no vigésimo aniversário de Communio et Progressio, n. 1. 3 – Instrução Pastoral Communio et progressio, sobre os meios de comunicação social, publicada por mandato do Concílio Ecuménico II do Vaticano, n. 12. (Aprovada e mandada publicar por Paulo VI, em 23 de Maio de 1971) 4 – Ibid., n. 8. 5 – Ibid., n. 11. 6 – Cf. Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais (2002). A Igreja e a Internet, n. 3. 7 – Bento XVI (2007). As Crianças e os meios de comunicação social. Mensagem para o 41º Dia Mundial das Comunicações Sociais, n. 1. 8 – Cf. Ibid.

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