Oficinas no Concelho da Trofa estão ligadas a trabalhos de vários mestres, como José Ferreira Thedim (1891-1971), autor da imagem venerada na Capelinha das Aparições

Lisboa, 15 jul 2020 (Ecclesia) – Os Santeiros de São Mamede do Coronado, no Concelho da Trofa, são uma referência para produção de imaginária religiosa em Portugal, com destaque para mestres como José Ferreira Thedim (1891-1971), autor da imagem venerada na Capelinha das Aparições.

Napoleão Ribeiro, antropólogo e técnico da Câmara Municipal da Trofa, conversa com a Agência ECCLESIA no ciclo dedicado a ‘O Sagrado e as Gentes’, neste mês de julho, sobre as oficinas que se dedicaram e dedicam à produção de imagens de vulto, devocionais, muito conhecidas das comunidades católicas.

“Santeiro é a designação popular para os imaginários, as pessoas que produzem imagens em madeira, de arte sacra”, precisa o especialista.

O entrevistado destaca o “saber fazer único” de São Mamede do Coronado e o valor patrimonial, cultural e histórico de um ofício que “em pleno século XX, tinha usos muito parecidos aos que se praticavam no Barroco ou até na Idade Média”.

As oficinas funcionavam, essencialmente, nos mesmos moldes que se encontram nos regimentos dos imaginários e entalhadores dos séculos XVI-XVIII, marcadas por grande relação de parentesco e de vizinhança.

“Quem fosse estranho, para entrar no ofício, tinha de pagar uma propina para aprender”, indica Napoleão Ribeiro.

As famílias de artífices que produzem imagens religiosas em madeira estão no Vale do Coronado desde o séc. XIX, mas o momento de maior destaque está ligado ao trabalho do mestre José Ferreira Thedim (1891-1971), responsável pela imagem venerada há 100 anos na Capelinha das Aparições, no Santuário de Fátima.

“Foi o nome maior que São Mamede do Coronado teve”, sublinha Napoleão Ribeiro, explicando que o mestre aprendeu a trabalhar com o pai e o avô, de quem herdou a oficina.

A ligação a Fátima deu-se através da Casa Fânzeres, junto à Sé de Braga, com quem trabalhava e onde recebeu a encomenda

A imagem foi oferecida por Gilberto Fernandes dos Santos, um devoto de Torres Novas, e benzida na igreja paroquial de Fátima a 13 de maio de 1920, sendo entronizada na Capelinha das Aparições, um mês depois.

“Foi um sucesso”, assinala Napoleão Ribeiro, destacando o reconhecimento mundial da imagem.

Tal como os Thedim, na localidade existiam famílias antigas de imaginários com oficinas-escola, onde o saber se transmitia entre as diversas gerações de aprendizes; outros artífices mantiveram-se numa escala mais reduzida.

Depois dos anos 70 do séc. XX, as encomendas abrandaram e muitas oficinas encerraram; atualmente, estes profissionais trabalham isoladamente, na sua maioria, em casa.

Para preservar esta memória, inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, a Câmara Municipal da Trofa publicou em 2017, o livro “A produção de Arte Sacra do Vale do Coronado” e adquiriu as coleções da oficina Stúdio Nossa Senhora de Fátima e de José Ferreira Thedim.

Este trabalho ajudou a mudar a perceção coletiva sobre os Santeiros, vistos como “mais um ofício”.

“Só hoje, com o reconhecimento por parte da autarquia, o trabalho de desenvolvimento sustentável, as próprias pessoas estão a ganhar mais sentimentos de pertença em relação a esse ofício”, observa Napoleão Ribeiro.

Neste trabalho foram recolhidas histórias dos artífices e associadas às encomendas, registando-se o património “material e imaterial”.

“Há aqui um grande património imaterial. Até mais do que as imagens, este conjunto de pessoas e o seu saber fazer é rico e diverso”, conclui o entrevistado.

OC

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