Celebração a São Gonçalo, a 10 de janeiro, fortalece a comunidade e agradece «os frutos da terra»

Bragança, 07 jul 2020 (Ecclesia) – O cónego João Gomes, pároco in solidum de Outeiro, na Diocese de Bragança-Miranda, indica a Festa do Charolo, como um exemplo da “alma portuguesa” unindo uma celebração religiosa à festividade profana.

“Ajuda a explicar as gentes de Outeiro: Portugal foi criado à sombra da fé cristã e as tradições continuam a ser mantidas”, afirma à Agência ECCLESIA o sacerdote de 75 anos, que se encontra naquela comunidade há mais de quatro décadas.

A festa do Charolo de Outeiro, da diocese de Bragança-Miranda, celebrada a 10 de janeiro, é uma das concorrentes das 7 Maravilhas da Cultura Popular, e convida à celebração numa aldeia que, apesar de desertificada teima em não deixar cair a tradição.

O Charolo é um “tronco que os mordomos enfeitam com roscas doces” dedicadas a São Gonçalo, onde o andor do santo e o Charolo saem pelas ruas da aldeia.

“Depois do almoço o povo junta-se e faz-se a «dança da rosca», onde os mordomos, geralmente sete, que fabricaram roscas do Charolo mais pequenas, repartem em fatias por toda a população que se junta a assistir. Terminada a cerimónia, realiza-se o leilão do Charolo, cujas receitas revertem para a paróquia”, indica o responsável.

As primeiras recordações remontam a 1975, quando “ainda sem conhecer a tradição”, começou a tomar conhecimento da Festa do Charolo.

“Fui-me informando com os mais antigos, e com o antigo sacristão, Senhor Bento, uma enciclopédia a contar o que era antigo. Já são 45 anos em que estou lá e de ano para ano, procuramos melhorar para que as pessoas possam celebrar”, reconhece.

Com o passar dos anos a aldeia foi perdendo população: “ Tinha 674 habitantes, de todas as idades, tinha duas professoras primárias, uma educadora de infância que, para o nosso meio era grande. Passados estes anos, entre os que faleceram e os que emigraram, a população desceu muito. E hoje, posso dizer, que a festa de São Gonçalo não tem a grandeza que antes tinha. Onde não há gente não há vida”, lamenta o sacerdote.

Nos últimos anos a festa ganhou uma dimensão extraparoquial e convida pessoas da cidade de Bragança e aldeias vizinhas a participar.

As roscas são feitas com o “melhor trigo”, “uvas passas e nozes”, numa forma de o povo agradecer os frutos da terra e, confirma o padre, “na sua confeção, não se utilizam produtos que não sejam feitos em Outeiro”.

A festa tem uma forte dimensão comunitária, apresenta o padre, uma vez que são “repartidas por todos os que nela participam”.

“Enquanto conseguirmos unir o povo podemos dizer que a alma nacional continua. A primeira fase das festas é sempre religiosa, com missa cantada e o povo pede sempre um sermão que se ouça. Tudo isto entra na alma das pessoas e conservam as tradições”, afirma o cónego João Gomes.

Ao longo do mês de julho, a Agência ECCLESIA apresenta tradições, festas e eventos culturais com a marca religiosa que acontecem por todas as dioceses nacionais.

LS

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