Maria Carlos Ramos, Coordenadora do processo sinodal na Diocese de Santarém

Foto Agência ECCLESIA/HM

Gostava de começar por afirmar que a leitura do Relatório de Portugal, enviado pela Conferencia Episcopal ao Sínodo 2021/2023, me enche de gratidão para com a equipa de redação do documento, toca-me particularmente o gigantesco trabalho de atenção e cuidado, que se adivinha por detrás deste documento.

Não é de mais recordar o processo em si, a proposta, lançada pelo Papa, de uma auscultação do Povo de Deus como parte da preparação para o Sínodo dos Bispo sobre a Sinodalidade, em Outubro de 2023. A princípio era simples. Tão simples que houve dificuldade em nos sintonizarmos. Parecia, tão só, o exercício de: Tomar a Palavra e Escutar. Evocar o Espírito Santo e, de coração, dizermos e escutarmos a Sinodadlidade na Igreja, hoje, na nossa comunidade!

Tomar a Palavra e dizer a Igreja a partir do nosso lugar (cultural, social, linguístico, etário…), revelou ser um exercício muito difícil, desconfortável para muitos. Mas tomar a palavra, ouvir a nossa própria voz e saber que se é escutado sem pré-juízo, é de uma imensa responsabilidade. Saber, que mesmo mal dita, deslocada ou imprecisa a nossa palavra conta, é um acto de humildade e de coragem. Depois, Escutar, escutar todas as palavras, as de dentro e as de fora da Igreja, as iguais e as diferentes, as de perto e as de longe, as que estamos cansados de ouvir e as que nunca quisemos ouvir. É o imperativo da humildade e da coragem.

Na fase diocesana, em cada encontro, a cada temática proposta, o exercício de Tomar a Palavra e Escutar, havia de repetir-se, pelo menos três vezes. No final, o redator, tentaria a síntese … Talvez falhassem as palavras, as ideias não estivessem completas, talvez a própria palavra ou opinião se esfumasse face à palavra do outro que abriu horizonte… No final uma palavra sóbria, comum, nascia da oração e do desejo profundo de ser mais ao jeito do Evangelho.  Num exercício de introspeção e conversão, no colectivo.

Uma só proposta, um mesmo exercício para as três fase de preparação para o Sínodo.

Neste relatório, temos as Diocese, Movimentos, Congregações, … a Tomar a Palavra a partir do que Escutaram às paroquias e aos grupos locais. Numa breve introdução, damo-nos conta da imaginação e da criatividade, nas formas e nos meios, que foram postas ao serviço deste processo, para alcançar o maior número de participantes, chamar a atenção aos mais distraídos, aos de dentro e de fora.

Depois, a apresentação dos resultados de ‘uma caminhada sinodal que foi acolhida com entusiasmo e espectativa’. Em vinte parágrafos são sintetizados, de modo englobante e claro, as fragilidades e desafios do nosso tempo, identificados pelo Povo de Deus em Portugal.  Quem acompanhou de perto o trabalho dos pequenos grupos nas comunidades não pode deixar de reconhecer que a equipa de redação deste documento captou e foi, tanto quanto lhe foi possível, de uma grande fidelidade às inquietações e adversidades, às questões, às perplexidades e complexidades do nosso tempo identificadas pelos participantes… mas também à sinceridade e à transparência, ao desejo de crescer em corresponsabilidade na Igreja, também às esperanças e à solidez da fé do Povo de Deus.

Gosto deste relatório, até pelo incómodo que me causa.

Fomos capazes de nos desnudarmos!?

Parece-me que este relatório pode mapear os caminhos da nossa conversão, hoje.

 

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