O presépio medieval em escadaria e com o Menino no trono, os cantares natalícios, as tradições, a doçaria, os grupos de charolas, as joldras e os grupos janeireiros fazem parte da celebração do Natal na região mais a sul de Portugal continental. O presépio tradicional do Algarve pouco tem a ver com o cenário da gruta de Belém, o presépio “serrenho” apresenta-se simples e sóbrio, armado em escadaria, com o menino Jesus em pé no alto. O interior algarvio e o Baixo Alentejo, devido à sua condição geográfica, mantiveram a devoção a um Menino Jesus “Glorioso, Rei e Senhor do universo” colocado num trono, com coroa, ceptro e com o mundo na mão. O Pe. José da Cunha Duarte dedicou 20 anos a uma pesquisa que se traduziu no livro “Natal no Algarve – Raízes Medievais”. Por ele ficámos a saber que o presépio consistia numa imagem de Nossa Senhora e do menino, em cima de um altar, como Senhor e rei do mundo. Nos séc. XVI-XVII juntou-se a este oratório as “searinhas”, para que o menino abençoasse o trigo, e as laranjas, um fruto sinal de riqueza, para que fossem abençoadas as árvores de fruto. Nas casas mais abastadas, os degraus são cobertos com toalhas de linho rendadas e bordadas à mão, mas também nas mais humildes se arma um altar modesto – “Armar o menino” -, sobre uma cómoda coberta com uma toalha de renda branca, com o menino ao centro rodeado de searinhas, laranjas e flores. As searinhas são semeadas a 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, colocando alguns grãos de trigo, milho, centeio ou alpista em pequenos pires de louça ou de barro. Mal germinam, são cuidadosamente mantidas até ao Natal e usadas para decorar o presépio. Além do presépio tradicional, os presépios de origem franciscana estão também muito difundidos na região e dão lugar a diferentes encenações. Utilizando os materiais que a natureza oferece, o engenho popular cria presépios de cortiça, com as searinhas colocadas por cima da gruta. A presença das “searinhas” é entendida pelo povo como uma bênção, elas são colocadas para que o menino Jesus abençoe as colheitas do ano que se aproxima. Charolas e Balaios Na quadra natalícia, o povo dançava e cantava ao Deus Menino – isto é a charola. Os cantares natalícios tradicionais da região algarvia aparecem associados aos grupos de cantadores – charolas e joldras. Entre o dia de Natal e o dia de Reis, as pessoas vão de casa em casa entoando cantares frente a cada presépio e levam consigo um balaio (cesta rasa de verga) com o Menino Jesus, para as pessoas beijarem e contribuírem com uma esmola. Em São Brás de Alportel, Faro, Loulé e Olhão ainda se encontram as crianças a transportarem o menino dentro de um balaio, perfumado, enfeitado com folhas de nespereira. “Queri bêjar o menino?”, perguntam, e cada pessoa dá a esmola. Quanto às charolas, estas perderam hoje em dia a vertente da dança e, em muitos casos, os grupos já não levam o menino Jesus. Um principiador levanta o canto e todos respondem em coro. Apresentam um canto obre um mistério da infância de Jesus: nascimento, anunciação, fuga para o Egipto e a vinda dos magos. Além do “canto velho”, já vindo de remotos tempos, todos os anos se estreiam outras músicas: “canto novo”, marchas e valsas. Peixe em Olhão Em Olhão, a tradição ainda manda: na Noite de Natal o litão, um peixe da família do tubarão e típico desta zona do Algarve, continua a fazer as delícias de muitas famílias na noite da consoada, em alternativa ao bacalhau. Outrora era considerado “o prato dos mais pobres”, mas hoje já ninguém o dispensa, apesar do preço elevado que atingiu. O litão tem de secar ao sol antes de ser confeccionado à moda de cada um, com cebola e alho, entre outros ingredientes, sendo acompanhado por batatas cozidas. No dia 26 é a vez de o galo de cabidela encher as mesas dos olhanenses. Ao nível da doçaria, os pastéis de batata-doce, típicos de Aljezur, e bolos caseiros são dos mais apreciados. De resto, a batata-doce serve de ingrediente para muitas especialidades algarvias na quadra natalícia.

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