Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A Bertrand Livreiros teve uma ideia genial e comovente que exprime bem o grande desafio da cultura actual e como nos podemos preparar melhor para viver intensamente este período de advento que antecede o Natal.

A coragem das famílias que partilharam algo de íntimo é notável e faz-nos pensar na qualidade do nosso tempo, sobretudo, a qualidade da nossa presença em família.

Queixamo-nos muito de estar sempre ocupados e com muito trabalho para fazer. Os prazos apertam, o trabalho acumula, mas depois dizemos que temos de relaxar e os nossos ecrãs tornaram-se um escape. O preço a pagar por este escape, como o trabalho feito pela Bertrand bem ilustra, é a presença.

Tempo de estar presente

Estar presente não envolve apenas o nosso corpo ou disponibilidade, mas também a nossa mente, espírito e a atenção. Quando experimentamos a falta de tempo, na prática, referimo-nos ao cronológico que acontece, independentemente das nossas escolhas, mas existe outro tempo, o kairológico;. Esse é o tempo onde a presença faz diferença.

Quando o chronos domina sobre o kairos, a busca por motivos de escape é grande e exerce uma forte influência sobre a nossa vida. Precisamos de um estímulo e, sem nos darmos conta, voltamo-nos para nós mesmos e para os nossos ecrãs. Esses ecrãs contemplam mais tempo o nosso rosto do que os nossos filhos, familiares e amigos. Pensamos estar a eles conectados pela partilha de mensagens, fotos, mas nada substitui a força transformativa da presença. Mas há quem comente que é ”sol de pouca dura.”

Realmente, em muitos casos, estes vídeos tocam-nos, partilhamos, reagimos, e talvez funcione por uma semana, duas, mas depois voltamos ao mesmo. De facto, o grande desafio da ausência da nossa atenção, apesar da presença física, está nos hábitos que criamos. Na prática, o excesso de tempo que passamos diante de um ecrã é um mau hábito. E do mesmo modo que um hábito se cria, também se remove.

Quebrar um mau hábito

Em primeiro lugar, para quebrar um mau hábito é preciso entender a sua causa. E as duas mais frequentes são o stress e o tédio. Ainda que o tédio possa servir a criatividade, precisa de treino até dele se extrair algum benefício;. Para já, importa perceber qual o momento, sentimento, acto, ou seja, qual o ”gatilho” que nos impulsiona na direcção do hábito de estar sempre diante de um ecrã.

Será por uma necessidade biológica de dopamina por estarmos desentusiasmados com alguma coisa? Será por uma necessidade emocional de reconhecimento, quando isso não acontece no trabalho ou até na própria família? Será a necessidade de estar conectado porque não queremos estar desactualizados da vida dos outros, usando um “Gosto” ou reagindo com um comentário?

É importante reconhecer que os maus hábitos não se eliminam. Esse é um ponto presente nos comentários ao vídeo da Bertrand, havendo pessoas que criticassem como após uns dias tudo volta ao que era antes. Os maus hábitos substituem-se com bons hábitos.

Se não extraíssemos qualquer benefício de um mau hábito, não o teríamos. Por isso, um modo de substituir por um bom hábito significa optar por um hábito com um benefício semelhante. Esses benefícios afectam o nosso comportamento, pelo que a substituição deve, também, afectar o nosso comportamento.

Baseando-me no livro ”Hábitos Atómicos” do autor James Clear, penso existirem quatro fases na quebra de um mau hábito:

  1. Escolher um substituto para o mau hábito. É importante ter planear, antecipadamente, o que podemos fazer quando sentimos o impulso a pegar no smartphone, em vez de dedicar algum tempo aos nossos filhos, familiares ou amigos. Por exemplo, deixá-lo à entrada de casa, em vez de o ter sempre connosco. Assim, de cada vez que queremos fazer alguma coisa nele, ou outros sabem onde estamos e qual o seu lugar.
  2. Cortar com os “gatilhos”. Se a primeira coisa que fazemos quando nos sentamos no sofá é pegar no comando e começar a ver o episódio de uma série, peçam a alguém para esconder o comando (se bem que no caso das crianças, talvez sejamos nós a esconder). A ideia desta fase é tornar difícil o “gatilho” que nos leva a retomar um mau hábito.
  3. Juntar forças com alguém. Quando procuramos fazer algo sozinhos podemos desmotivar, mas se partilharmos a decisão de quebrar um mau hábito com outros, ajudamo-nos mutuamente. Por exemplo, no caso de deixar o telemóvel à entrada, convide o cônjuge a fazer o mesmo.
  4. Pensar no efeito positivo do sucesso. Reduzindo e controlando melhor a gestão que fazemos do nosso tempo de ecrã permite dar mais espaço aos relacionamentos que realmente importam na nossa vida. Quando pensamos no efeito positivo de quebrar um mau hábito, vemos como a nossa identidade se constrói na direcção da pessoa que podemos ser. Por isso, podemos sempre recomeçar quando falhamos, pois, um mau hábito, não faz de nós más pessoas, mas humanos.

Errar é humano, mas recomeçar faz-nos ainda mais humanos e damos um testemunho vital aos filhos, familiares e amigos. No final, independentemente de tudo, o melhor presente será sempre estar presente.

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