A ECCLESIA e a Renascença conversam com o bispo de Lamego a propósito do livro ‘Do lado de cá da meia-noite – atravessar a crise’, recentemente publicado pela Paulus Editora. A obra reúne seis ensaios para “ajudar a viver com esperança, e com esperança superar a crise pandémica que atravessamos e nos aperta o peito e a garganta”

Entrevista conduzida por Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

D. António Couto

Foto: Diocese de Lamego

É urgente devolver a esperança às pessoas? De que forma?

Essa é a introdução que vem nas páginas iniciais desse pequeno livro, que já foi terminado no decurso dos últimos meses do ano passado, já em plena pandemia e crise. Era um livro que eu gostaria que saísse por altura do Natal e que, também devido à pandemia e a todas as circunstâncias que retardam estas coisas, acabou por sair já nos primeiros meses de 2021.

É uma tentativa, uma maneira de ajudar as pessoas, e a mim próprio, a sentir que no meio desta pandemia e desta crise nós não estamos sozinhos. Quase sempre pensamos que estamos sozinhos, abandonados, quando muito temos do nosso lado as vacinas que nos poderão ajudar, mas que não há ninguém a quem possamos dar a mão, ou que possa pegar na nossa mão. O que pretendo dizer em todos estes ensaios é que há alguém que pega na minha mão e esse alguém é Deus.

O grande ausente deste mundo, no meio desta pandemia, é Deus. E foi isso que me fez avançar um bocadinho. É tudo possível, mesmo na nossa linguagem mais habitual, da Igreja, quando há pessoas enlutadas nós próprios enviamos psicólogos, parece que não temos nada de substancial a dizer às pessoas, e temos. E esse é o meu problema, e foi também por isso que quis mostrar que as figuras bíblicas e o povo bíblico que atravessa dramas imensos, nunca se sentiu abandonado, e sentiu sempre a mão de Deus por perto.

 

Quer transmitir às pessoas que há esperança. O que o levou a escrever este livro foi observar que há, de facto, falta de esperança nas pessoas neste momento, no contexto em que vivemos?

Penso que é notório. Basta ver à nossa volta e vemos sempre que sobretudo quando a dor e o sofrimento chega à nossa casa – o que às vezes também acontece, não chega só à casa dos outros -, aí é notório que as pessoas se sentem abandonadas. E aí é que nós temos de aparecer, não apenas para estarmos próximos das pessoas e para lhes dizer duas palavras de circunstância, que são as habituais, mas para lhes dizermos que há solução para essas lágrimas e para essa dor, para essas circunstâncias trágicas em que às vezes as pessoas caem, como seja a morte. Há solução, biblicamente falando, é isso que pretendo dizer ao longo destes ensaios.

 

O pensamento bíblico, aliás, não foge do tempo das tragédias, das crises. O D. António fala num “pensamento traumático” para falar da linguagem bíblica. É possível vislumbrar neste tempo de tragédias, como o que vivemos, as sementes de um novo princípio?

Sim, penso que é possível. De facto o pensamento bíblico não é teorético, isto é, quem pensa na Bíblia não funciona na busca do conceito. O nosso pensamento deriva do pensamento grego, é esse que temos e que anda por aí, mas, de facto, é um pensamento que vive das tragédias.

O povo bíblico aprendeu a superar as tragédias, não tanto pela sua força. É curioso vermos que todas as grandes tragédias que atravessam a Escritura, nomeadamente o Êxodo, o Exílio, o tempo de Antíoco IV Epifânio, em pleno século II a.C. – em que se dá também a primeira perseguição religiosa da História – o povo sai dessas tragédias, não pela sua força e organização, não pela política e pela estratégia urbanizada, mas sai pela mão de Deus. Sempre aprendeu isso e sempre foi isso. E citaria aqui o pensamento de Blaise Pascal que diz que os rios, as montanhas, as coisas que existem não provam a existência de Deus, nem nós provamos a existência de Deus, mas rezamos, escutamos, obedecemos, cantamos Deus. Então, para além de Blaise Pascal e do seu pensamento, se nós cantamos Deus e se rezamos a Deus, temos de pensar e ver melhor, que por trás disto tudo também andará Deus, seguramente.

 

O “lado de cá da meia-noite”, que dá nome ao livro, é o lado de quem já caminha para a aurora, para a terra prometida, como diz Jeremias – que aliás é quem o inspira nesse título -, sem deixar ninguém para trás. É a mensagem de que o mundo precisa, uma visão profética sobre esta crise?

É uma visão profética. De facto, o lado de cá da meia-noite é o lado da aurora, já é de quem desce desde a meia-noite a caminho da aurora, e não é o lado de quem ainda está a subir em direção à meia-noite. Essa autora que já se pode vislumbrar é sempre aquilo que Jeremias vê ao longo de toda a sua existência. E não é que essa aurora seja por nós incendiada ou erguida, essa aurora é sempre trazida do lado de Deus. E essa narrativa de Jeremias, capitulo 31, diz que as pessoas vão a caminho do Exílio e que é uma tragédia, mas Jeremias sobrepôe a ida para o Exílio ao regresso do Exílio, de tal maneira que as lágrimas com que a gente parte são as lágrimas com que a gente regressa. Mas é Deus que nos diz “deixa essas lágrimas, porque há futuro, há consolação para ti” – está a falar para Raquel, a mãe que chora os seus filhos, como todas as mães do nosso tempo que choram a perda dos seus filhos ou dos familiares. Há consolação, porque é Deus que fala, não somos nós.

Num livro anterior, que escrevi há um ano, chamado ‘Leitura do tempo em que vamos’, há um capítulo que diz “Pai, a narrativa está vazia”. As nossas narrativas às vezes são formas, palavras, frases, parágrafos, mas são subjetivas, é aquilo que eu penso e que ponho no texto. É preciso encontrar o sentido objetivo, que é o sentido de quem põe as coisas em andamento. Esse é o sentido de Deus, esse é o sentido que Jeremias vê, o sentido que vem de Deus. Jeremias não põe na página o seu próprio sentido, subjetivo ou transubjetivo, que seria o sentido cultural. É o sentido objetivo, que vem de Deus, ele não consegue pensar a sua vida sem Deus.

Se calhar Jeremias não prova Deus, mas se Jeremias escuta Deus, se vê Deus, se fala de Deus e se fala com Deus nos seus diálogos, então temos de saber ir mais longe e mostrar a este mundo não apenas que são necessários psicólogos e fotógrafos para verem as situações, mas que é preciso quem fale de Deus hoje, quem fale com Deus hoje, neste mundo e nestas circunstâncias.

 

A pandemia abriu a porta a muitas crises. Falou do recurso a psicólogos, tão necessários. A crise de alma pode ser das mais graves que estamos a atravessar?

Tudo somado, as crises exteriores, das coisas, dos dinheiros, as crises económicas, enfim… eu costumo dizer que em política o pensamento chama-se contabilidade – infelizmente é quase sempre assim -, e passa por aí aquilo que vemos à primeira vista, passa por essas realidades palpáveis. Mas, no fundo, no fundo, vamos sempre lá ter e não temos, infelizmente, no nosso mundo gente que escreva e que pense ao nível, por exemplo, dos grandes pensadores russos antigos, como Fiódor Dostoiévski, Leon Tolstoi, ou como, no século passado ainda, Wassili Grossman, que são notáveis escritores e pensadores, e colocam sentido nas páginas que escrevem. Nós apenas descrevemos os factos e os episódios.

Penso que será necessário ir mais longe e não deixar isto apenas na mão dos sociólogos e dos psicólogos, como vamos vendo. Dá a impressão de que, de facto, como dizem alguns pensadores judeus atuais, Deus está exilado. Nós exilámos Deus deste mundo, e vivemos como São Paulo diz aos Efésios, no capítulo 2: “antes de Jesus Cristo vir ao vosso encontro, vós vivíeis sem esperança e sem Deus no mundo”.

Sem Jesus vivemos sem esperança, porque sem Deus no mundo. Não é só sem Deus, é sem Deus no mundo. É importante trazer Deus de volta a este mundo, ao nosso mundo, ao nosso quotidiano, ao nosso viver, de tal modo que eu, com a minha maneira de dizer, de fazer e de ser, seja uma testemunha que aponte para Deus. Não que eu possa provar ou demonstrar Deus, mas posso mostrar Deus. É isso que cada um de nós tem de fazer, e que a Igreja tem de fazer neste tempo, neste mundo e neste modo.

 

Uma das questões que aborda é a “falta que um rosto faz”. O rosto, como princípio ético fundamental, é uma provocação neste tempo de máscaras?

Sim, a ética de Levinas é sobretudo para opor à chamada ontologia, a ciência filosófica que tem controlado todo o pensamento. E a ontologia é sobretudo aquilo que separa, isto é, eu sou eu, tu és tu, eu tenho o meu mundo, as minhas coisas, tu tens as tuas. Nós podemos olhar uns para os outros, mas não nos tocamos.

Isso depois passa para a frase “a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro”, é um mundo aos quadradinhos, a vida aos quadradinhos, mas eles não se tocam. Ora, nós hoje estamos num mundo interativo, em que o fraseado deveria ser “a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro”. Nós devemos ser interativos, implicar-nos um com os outros, isso é que é a ética. Mais do que isso ainda: o mundo não começa com este “eu penso, eu decido, eu escolho”, que é a base da vida que vemos por aí, no mundo moderno e pós-moderno, em que tudo é absolutamente relativo.

O que passa é o rosto, o rosto do outro que me visita e me diz “bom dia”. O “bom dia”, hoje, precede o “cogito”: quem me diz bom dia não me está a pedir para decidir nada, nem para escolher, está a pedir-me para responder.

 

No início pensou-se que a pandemia pudesse transformar o homem num ser mais solidário. Um ano depois, qual é o balanço que faz?

Ainda é cedo para se fazer um balanço desta pandemia, ainda estamos nela, vão ser necessário anos, décadas, para vermos melhor o resultado. Eu sinto que quando estamos com problemas, procuramos fugir deles, de todas as maneiras e feitios. Passados os problemas, regressamos facilmente à estaca anterior…

Espero bem que este tempo – que nos força a estar mais tempo em casa, porventura, sozinhos – nos obrigue, nos force a refletir e a ver as coisas de forma diferente. Não asseguro que, terminada a pandemia, o mundo seja um paraíso. E seguramente não o será, mas se for um mundo em que o rosto do outro me apareça sem que eu o tematize, o englobe no meu mundo, mas que o veja como outro rosto que me interpela, que me diz “bom dia” – uma enxurrada de bondade que vem ao meu encontro, para cruzarmos estes mundos e percebermos que nós os dois, três, cem, mil, podemos construi um mundo melhor, de forma interativa, que nos implique, em que a bondade esteja presente. É isso que eu gostaria de ver mais presente no meio de nós.

 

Isso leva-me a uma questão, um pouco diferente, que é a da solidão. Falamos com o bispo de Lamego, uma diocese do Interior e envelhecida. A pandemia trouxe dificuldades acrescidas a quem aí vive?

A pandemia trouxe mais algumas dificuldades do que aquelas que já havia. Por exemplo, estou dentro das paredes do Paço Episcopal de Lamego há mais de um ano, tenho tido muito poucas saídas, não posso ir ao encontro das pessoas, porque este estado de coisas não o permite. E recordo a alegria com que as pessoas nos veem chegar, com que me veem chegar, com que nós nos abraçávamos, com que conversávamos, sentíamos as coisas do dia a dia e falávamos disso. E falávamos de Deus, era uma alegria imensa. Hoje sinto que as pessoas não chegam tão facilmente a essa alegria.

É evidente que a pandemia veio isolar ainda mais este Interior, que já está bastante despovoado – muito despovoado, muito envelhecido – e em que as pessoas estão muito sozinhas. Qualquer rosto que apareça junto delas é uma riqueza e uma surpresa imensa.

 

Foi difícil, para a Igreja em Lamego, conseguiu acompanhar a dor e as necessidades das pessoas?

Fez-se tudo o que era possível fazer, penso, houve movimentações, houve contactos, mas também houve muitas barreiras, como é óbvio, para não criar ainda mais problemas.

Houve também mortes, continua a haver isolamentos forçados, mas teremos de levar luzes, que possam mostrar às pessoas que, mesmo quando estão sós, não estão sós, estão acompanhadas de muitas maneiras.

 

Os meios digitais foram uma boa ajuda?

Foram importantes e aí está uma descoberta: sem a pandemia não chegaríamos lá, pelo menos tão rapidamente. Descobrimos que havia alguma maneira de, afinal, podermos contactar, de nos podermos ver, de podermos sorrir, dizer bom dia à pessoa que está do outro lado, online, em qualquer parte. Ainda que eu note que no nosso Interior não foi tão cultivado esse aspeto como noutras regiões onde tenho participado, mas alguma coisa se fez nesse sentido, também.

 

Neste domingo de Páscoa, que mensagem é possível deixar a quem anseia por viver uma “grande passagem” para o pós-pandemia?

A Páscoa é um tempo grande, um tempo belo, um tempo da notícia que vem de Deus. Se repararmos bem, a Paixão de Jesus e a nossa paixão – na mensagem de Quaresma do Papa, ele colocou, como epígrafe, o texto de Mateus, ‘Vamos para Jerusalém’, isto é, estamos envolvidos, estamos implicados – é uma luta, entre a vida e a morte. É um relato. E toda a Bíblia é quase um relato dessa luta entre a vida e a morte. A Ressurreição, a Páscoa, é uma notícia, é a notícia de quem vence esta luta: quem vence é a vida.

Aí está o ressuscitado com uma vida nova, que o Novo Testamento – e o Antigo, por algumas vezes – chama “zoe”, que não é a “bios” – a nossa vida biológica, que já sabemos que começa e acaba. É a vida de Deus, o modo de viver de Deus, que chega ao meu mundo e que transforma a minha vida. Isso tem de ser dito e nós apenas nos limitamos a bater nas costas das pessoas e a darmos as nossas condolências. É preciso dizer que vivemos já na vida de Deus que não termina: a Palavra de Deus é Espírito e Vida, nós comungamos o Pão da Vida, Jesus Cristo, que é essa vida nova, a vida eterna, a vida de Deus, a vida que há em Deus e que já explodiu no nosso mundo. Isso temos de ensinar, voltar a dizer: aí está a Páscoa, aí está a alegria, a palavra nova, a vida nova, explosiva, que deve transformar a nossa “bios”, a nossa vida habitual.

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