Cardeal Bertone tomou posse como Secretário de Estado do Vaticano A crise que, ao longo de 34 dias, opôs Israel ao Hezbollah, no Líbano, sacudindo a comunidade internacional, foi a primeira grande crise diplomática que Bento XVI teve de enfrentar desde o início do pontificado. As suas posições e a maneira como procurou abordar o conflito pode ajudar a perceber qual o caminho para a nova diplomacia da Santa Sé. O Papa lançou vários apelos à paz, privilegiando na sua acção uma mensagem mais espiritual do que com implicações geopolíticas. No drama vivido na Terra Santa, local de encontro das três grandes religiões monoteístas do mundo, a Santa Sé esperou sempre que os dirigentes mundiais assumissem a sua responsabilidade na busca de uma solução negociada, respeitando Israel, a Palestina e o Líbano. A Igreja, na sua missão, não se quis sobrepor ao papel dos políticos, a quem competia encontrar os caminhos que pudessem levar ao cessar-fogo e a uma paz duradoura. A rede diplomática da Santa Sé optou por uma maior discrição, sobretudo se tivermos como ponto de comparação a crise da Guerra do Iraque, em 2003 – quando João Paulo II multiplicou consultas e encontros, transformando o Vaticano numa verdadeira antecâmara da diplomacia mundial. O papel da Igreja Católica não foi, por isso, menos respeitado, bastando lembrar o convite endereçado à Santa Sé para que marcasse presença na Cimeira de Roma, com o estatuto de observadora. Quando Bento XVI decidiu enviar ao Líbano o Cardeal Roger Etchegaray, o conflito já caminhava para o seu fim e seria mesmo assinado um cessar-fogo, por força da resolução 1701 da ONU. Nesta altura, o Cardeal francês optou por lembrar que “o verdadeiro caminho para a paz é mais espiritual do que político”, em plena consonância com as orientações do Papa. Como referem alguns comentadores, “mais Evangelho e menos diplomacia” poderia ser a fórmula certa para perceber esta nova fase na vida da Santa Sé. Na prática, essa atitude não resulta como uma fraqueza, porque afirma de forma clara a vocação única da Igreja. De Sodano a Bertone Hoje, dia 15 de setembro, o Cardeal Tarcisio Bertone assumiu o cargo de Secretário de Estado do Vaticano, substituindo o Cardeal Angelo Sodano. A escolha do Papa recaiu num homem da sua confiança, mas sem experiência diplomática, o que poderia indicar algumas mudanças na rede “política” do Vaticano. O Cardeal Bertone já deixou claro que quer ser um Secretário da “Igreja”, com uma missão global e que tem como referência absoluta a actuação de Bento XVI. Com uma das diplomacias mais antigas e respeitadas do mundo, a Santa Sé tem exercido uma influência social e política em várias partes do mundo, muito por força da representação objectiva de mais de mil milhões de pessoas. Este âmbito de acção, contudo, não esgota a missão da Igreja, presente sobretudo através das figuras dos Bispos e das Conferências Episcopais. Sobre o seu futuro papel, o Cardeal Bertone afirmou que o Secretário de Estado é um “homem fiel ao Papa”, devendo ser “porta-voz das suas mensagens”, e “ajudá-lo a concretizar os seus projectos”. O Secretário de Estado deve ser “um colaborador que liga e coordena todos os Dicastérios da Cúria Romana, que mantém os contactos com todos os representantes da Santa Sé no mundo”. Em síntese, “é um homem de relações, ponte de transmissão da vontade do Papa”, disse. Menos política é, outra vez, a ideia que emerge da análise das declarações do Cardeal Bertone, disposto a fazer da sua nova função na Santa Sé uma oportunidade privilegiada para um testemunho pastoral e espiritual. Uma espécie de “persuasão moral”, como já foi classificada, baseada não em poderes tradicionais, mas numa credibilidade mais profunda. Talvez por isso, em declarações à revista Corriere della Sera, o futuro Secretário de Estado tenha dito, curiosamente, que “o Vaticano não é um Estado”. Assim se percebe que os organismos que funcionaram noutra lógica, ao longo das últimas décadas, sejam remodelados e a Cúria Romana venha a ser redimensionada. Depois da Guerra Fria, o mundo é mais complexo e policêntrico, pelo que a resposta pode passar mais pelo carácter moral e espiritual do Papado, com uma Santa Sé aligeirada no seu carácter político.

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