Novo bispo do Funchal toma posse este domingo, na Sé, e diz em entrevista à Agência ECCLESIA que chega à Madeira “sem agenda”, para dialogar e conhecer a diocese sem ficar “à espera” na sua residência

Foto Agência ECCLESIA / MC

Entrevista conduzida por Paulo Rocha

Agência Ecclesia – D. Nuno Brás, é bispo com uma diocese com 500 anos de história: que património é este e que responsabilidade assume a partir deste domingo?

D. Nuno Brás – Tem 500 anos de história, mas muito mais do que o peso dos séculos – que é importante e não devemos ter medo do peso dos séculos e, apesar de tudo, a Igreja tem muito mais…

 

AE – Na História de Portugal é muito significativo…

DNB – Claro e era isso que ia dizer: é o primeiro fruto da expansão atlântica portuguesa. A Igreja do Funchal é pioneira! Representou e representa tudo aquilo que é o rasgar de horizontes de um Portugal que estava confinado a um cantinho da Europa, para um Portugal que se lança Atlântico fora, Índico Pacífico depois. Um Portugal que rasga horizontes para si próprio, para o mundo e para a Igreja.

Há uma segunda marca que é importante: vemos muitas vezes as ilhas como algo de longínquo, de distante, separado. Mas o mar também une! É importante olhar o mar como traço de união e não de separação, olhando a diocese que faz pontes entre um Portugal continental e um Portugal que se lançou porta fora!

 

AE – De que forma o rasgar de horizontes, que está na história da Diocese do Funchal, se pode levar por diante na atualidade?

DNB – É interessante perceber que uma Ilha com 280 mil habitantes tem neste momento cinco bispos vivos e um deles é bispo de Madagáscar! Significa a importância da Madeira para a Igreja.

A Madeira é terra de missionários. Recordo os padres dehonianos, os salesianos e os franciscanos que sempre estiveram ligados à Madeira. É uma terra onde a Igreja está, mas como missionária.

Os horizontes missionários são muito importantes.

A Diocese do Funchal foi mãe de muitas dioceses pelo mundo, na Expansão Marítima Portuguesa (não deixa de ter interessante o facto de ter recebido uma saudação do cardeal do Rio de Janeiro, que me recordava que a diocese do Rio de Janeiro saiu de São Salvador da Baía, mas São Salvador da Baía saiu do Funchal).

Creio que a Diocese poderá ainda ser um traço de união com Açores, Canárias, Cabo Verde, São Tomé, com todas as Ilhas Atlânticas. Não me parece de todo despropositado que a Diocese do Funchal possa ter um papel real no sentido de nos encontrarmos, os bispos destas dioceses, e refletirmos sobre o que significa ser uma Igreja numa ilha, num arquipélago.

 

AE – Está a tencionar avançar com projetos entre as dioceses atlânticas?

DNB – Penso que sim, seria interessante. Para um encontro é preciso que as outras partes o queiram também…

 

Ao encontro de turistas

AE – Não será por certo uma diocese de onde partem missionários como há décadas, mas é uma região onde chegam muitas pessoas, muitos turistas. Que desafio está aí, no traçar novos horizontes com novos públicos e novos projetos?

DNB – Ser uma terra de turismo, significa que é uma terra de acolhimento. Várias pessoas já me disseram que foram à Sé, à Missa, e sei que as celebrações, nomeadamente da Páscoa e do Natal, têm sempre a participação dos turistas. Mas existem muitos outros turistas que não vão à missa, que não contactaram, provavelmente, com a fé. Isto significa que é uma oportunidade clara para poderem conhecer o rosto de Jesus Cristo.

 

AE – Através de roteiros, da arte…?

DNB – Por exemplo… Mas estou a pensar de uma forma muito mais simples: os funcionários dos hotéis são católicos, pelo menos a grande maioria, são batizados. O seu rosto é o de Jesus Cristo. Isso significa que neste contacto com o cristianismo, que está presente neste laicado, acaba por ser um primeiro contacto com a pessoa de Jesus Cristo e há sempre a possibilidade de dar um testemunho cristão com toda a naturalidade e simplicidade, sem estar a fazer proselitismo, mas propondo sempre a fé.

 

AE – Não há a necessidade de criar produtos para os turistas?

DNB – A Diocese do Funchal tem o Museu de Arte Sacra, um museu único, com pintoras flamengas. Depois, as igrejas, sobretudo as mais antigas, obviamente!

Depois existe todo o conjunto de oportunidades. É questão de puxarmos pela imaginação! A começar pela bandeira, que tem a Cruz de Cristo, lá no centro.

Creio que não podemos passar nenhuma oportunidade para podermos evangelizar. Este o grande apelo do Papa Francisco

 

Sem programa de secretária

AE – Esse é o seu programa para a Diocese do Funchal?

DNB – Ainda não tenho programa! Não vale a pena estar atrás da secretária a fazer um programa muito bem desenhado e depois chegar e tentar aplica-lo. Estaria a perder tempo…!

 

AE – Estaria a forçar a realidade?

DNB – Exatamente. Não seria produtivo. Não vale a pena estarmos a fazer programas atrás da secretária, muito bem feitos e desenhados, mas que não têm nada a ver com a realidade.

A evangelização não pode deixar de ser o programa da Igreja no século XXI. Porque foi o apelo do Concílio Vaticano II, foi do Papa São Paulo VI, São João Paulo II, Bento XVI e do Papa Francisco.

 

AE – Mas em sintonia com cada realidade de cada região…

DNB – Claro! Por isso temos os turistas, por exemplo, são uma oportunidade de evangelização. Mas não podemos esquecer todos os missionários ad gentesque deixam a sua terra e vão para outras partes do mundo.

A Madeira foi um lugar de vocações missionárias, porque não continuar a sê-lo?

 

AE – Também entre os sacerdotes diocesanos?

DNB – O bispo não é só cuidador dos sacerdotes diocesanos, do clero secular… Do presbitério do Funchal fazem parte todos os sacerdotes, diocesanos ou religiosos, que estão a trabalhar nas ilhas. O bispo cuida também deles e das suas vocações!

 

AE – Está em curso o Ano Missionário, na Igreja Católica em Portugal. Que redinamização do espírito missionário é necessário na Diocese do Funchal?

DNB – Temos de ver! Não vale a pena estar a dizer coisas que estejam ao lado da realidade. Creio que é importante dizer que, no geral, Portugal tem esquecido não tento em discurso, mas a efetiva dimensão missionária. Somos uma Igreja que dá oportunidades e convida à participação dos leigos nas obras da catequese, de caridade, mas temos esquecido o papel de evangelização no trabalho, no divertimento. Fazemos uma certa separação: aqui está a pasta da Igreja e somos religiosos; procuramos ser excelentes profissionais, mas a religião fica à parte. Não fica!

 

Início do episcopado em ano de eleições

AE – Nota-se no distrito do Funchal a emergência de figuras independentes no assumir de cargos políticos. Que sinal é esse no dinamismo da política, que vemos na Região Autónoma da Madeira e também noutras regiões do país?

DNB – Faz parte do ser cristão estar no mundo, na política, na economia, na saúde, nas mais várias áreas. Onde está o ser humano, aí está o cristão e a Igreja. E, neste sentido, a Igreja faz política, na medida em que se preocupa com o que é comum. Ser cristão não é esquecer o mundo e viver uma pretensa espiritualidade que depois espiritualidade, pelo menos cristã, não é. Neste sentido, é importante que concretamente o bispo tenha uma boa relação com as várias autoridades políticas, quaisquer que elas sejam. A partir do momento em que sejam eleitas, e de acordo com uma tradição que já aparece no Novo Testamento, o cristão não pode deixar de rezar pelos governantes e estar bem relacionado com as diversas autoridades.

 

AE – E quando existem distâncias de objetivos, nomeadamente através de propostas políticas que provocam distâncias entre a Igreja Católica e os governantes?

DNB – Esta participação na política e este respeito e cordialidade não pode nunca amordaçar a Igreja naquilo que é a sua dimensão profética. Cabe à Igreja ter uma palavra de denuncia e de chamada de atenção para as diferentes situações em que a dignidade humana é ofendida, em que a vida humana é posta em causa, em que a dignidade do trabalho é esquecida. A Igreja não pode deixar de ter uma voz profética de denúncia e de condenação.

 

AE – Mesmo que isso gere confrontos?

DNB – Com certeza! Isso faz parte da própria comunidade política. O facto de sermos todos responsáveis por aquilo que é de todos significa que, concretamente nós cristãos, temos uma palavra a dizer naquilo que é de todos. E esta palavra há de ser clara, profética, de acordo com os critérios do Evangelho.

Em relação aos independentes. Não sei concretamente o que significa. É uma tendência nacional…

 

AE – Pode indicar um relativismo?

DNB – Pode indicar um certo enfado com aquilo que é uma política partidária demasiado centrada no próprio partido e não no bem comum. Estou a dizer isto no geral do país e não estou a falar para o concreto da Madeira. Pode ser que sim, pode ser que não. Não quero que este meu comentário seja entendido como apoio a um ou desapoio a outro. Absolutamente não! A Igreja não faz política partidária.

 

AE – É um ano de eleições…

DNB – É um ano de eleições e isso significa um apelo claro a que os cristãos participem e significa também um respeito muito claro pelo aquilo que serão os resultados das eleições.

 

AE – Será esse o papel do bispo da Diocese do Funchal, neste ano?

DNB – Será o papel do bispo em relação à atualidade política, em relação ao momento eleitoral.

 

AE – Chegar ao Funchal neste momento é desafiante?

DNB – Obviamente é um momento sensível. Se me perguntasse se gostaria de entrar num ano em que não houvesse eleições, responderia logo que sim!

 

AE – Porquê?

DNB – Vamos ter eleições europeias em maio, regionais em setembro e parlamentares em outubro. E isto significa uma crispação entre os vários atores da vida política. O bispo começar o seu ministério com gente crispada, todos contra todos, não é propriamente o ambiente mais favorável.

 

AE – Mas pode ser uma oportunidade de fazer pontes?

DNB – É o que é… Sim, certamente. E todos sabemos que estas crispações, fora do anos eleitorais, são menores…

 

AE – Da parte do bispo do Funchal existirá esse apelo à participação?

DNB – Apelo à participação na vida política e no voto. Isso claramente.

 

AE – Na Diocese do Funchal – aconteceu em anos passados – a utilização de espaços limítrofes ao culto para campanha eleitoral…

DNB – Na Diocese do Funchal, como nas várias dioceses do continente…

 

AE – Não há uma apropriação desses espaços?

DNB – Dentro dos locais de culto, absolutamente não! Fora, são espaços públicos… Não se pode impedir. Se as pessoas saem da missa e lhes aparece o partido A ou B, no domingo seguinte aparece o partido C.

 

Casos por resolver, na Diocese Funchal

AE – Falemos de assuntos mais relacionados com a Diocese do Funchal e casos que provocam “dores de cabeça” ao bispo diocesano. Nomeadamente os relacionados com alguns sacerdotes que estão mal resolvidos, seja a nível político ou ético. Qual será a atitude do bispo diocesano, sem falarmos de casos em específico                ?

DNB – Essa é a primeira resposta. E eu quero ser muito claro em relação a isso: casos particulares não serão nunca tratados na comunicação social por mim. Qualquer comentário ao caso do padre A, B ou C, que fez isto e aquilo ou não fez isto nem aquilo, serão tratados entre mim e o sacerdote, nunca na praça pública. Creio que isso é um princípio básico de respeito pela dignidade das pessoas. Não podemos cair naquele erro de condenar na praça pública as pessoas. Não me parece ser função da comunicação social o de ser juiz.

Existem casos mais ou menos polémicos, dentro do que são as normas do direito canónico, claro que existem! Existem casos sensíveis…

 

AE – São dossiers que vai reabrir? Ou que não pode passar ao lado?

DNB – Exatamente! Não se trata de reabrir, até porque nunca foram fechados, eventualmente. Trata-se de os procurar resolver naquilo que é a caridade pastoral, a vida eclesial, com toda a simplicidade, sem a pretensão de chegar e resolver tudo. Seria uma pretensão tola! Só um milagre do espírito santo faria isso! E não me parece que vá acontecer, infelizmente…

 

AE – Estão a chegar cada vez mais lusodescendentes à Madeira…

DNB – Claro que a situação na Venezuela me preocupa pessoalmente. Se me preocupa como cidadão português, desde que fui eleito bispo do Funchal me preocupa muito mais, porque grande parte da comunidade portuguesa na Venezuela é de origem madeirense. O que significa que é necessário acolher aqueles que vieram e é necessário também, e muito, ajudar a Cáritas da Venezuela ou as cáritas dos países à volta, para ajudar os madeirenses que lá estão e estão a passar um momento muito difícil na sua vida.

 

 

Um bispo sem agenda

AE – Depois de tomar posse, neste domingo, como será a sua agenda nos primeiros dias na Diocese do Funchal?

DNB – Não tenho agenda, ainda! A que tenho é a celebração de uma Eucaristia na Igreja de Nossa Senhora do Monte, seja porque é a padroeira secundária do Funchal, mas por quem os madeirenses têm uma paixão muito grande – e que bem, Nossa Senhora central na nossa vida de cristãos -, seja pelo imperador Carlos de Áustria, o beato Carlos de Áustria, que lá está sepultado. Quero ir lá em peregrinação. Sendo bispo do Funchal, celebrarei lá Eucaristia para todos os que me quiserem acompanhar.

 

AE – Disse quando foi nomeado que ainda não conhecia o Porto Santo. Será uma das primeiras visitas que vai fazer?

DNB – Absolutamente, sim! Irei ao Porto Santo nas primeiras semanas, se Deus quiser.

 

AE – Por onde vai começar a dialogar, a ouvir?

Terei de cumprimentar as autoridades. Não posso deixar de o fazer e devo fazê-lo porque os que foram escolhidos são representantes dos madeirenses e o bispo não pode deixar de apresentar cumprimentos, estar com eles e escutá-los.

Está marcado para princípio de março um Conselho Presbiteral, que reúne sacerdotes representantes dos vários sacerdotes que trabalham na Ilha. E quero ouvi-los! Vale também muito a pena estar nas encontros dos arciprestados, em diferentes reuniões da Ilhal, porque é uma forma de estar presente com os sacerdotes e, em princípio, estarei nas primeiras reuniões dos arciprestados. Depois há as reuniões para tomar pulso à Diocese, como o Conselho Episcopal, Conselho Económico…

 

AE – E de que forma vai auscultar os leigos?

DNB – Já vários movimentos mostraram o interesse e necessidade de se encontrarem com o bispo, a quem disse que sim, obviamente. Estar com os movimentos laicais… E depois, passear pelo Funchal! Não tenho intenções de ficar fechado na Casa Episcopal à espera que as pessoas venham ter comigo! Hei de passear pelo Funchal, procurando a proximidade. E as visitas às paróquias, formais e menos formais, para crismas e outras celebrações. Não faço nenhuma intenção de passar os dias fechado na Casa Episcopal.

 

AE – Que sinal pode ser esse dos movimentos laicais se quererem encontrar com o bispo diocesano?

DNB – É um sinal de que querem conhecer o bispo…

 

AE – Não é um sinal de necessidade de relançamento do dinamismo laical?

DNB – Seria deselegância minha estar agora a referir-me assim… Não creio… É essencialmente a necessidade de uma apresentação ao novo bispo. E, nesse sentido, quero dizer que podem contar comigo! Porque os movimentos laicais são um dom que Espírito Santo fez à Igreja durante a segunda metade do século XX e neste século XXI. São um lugar onde encontramos a Igreja claramente viva, empenhada, não apenas no seu interior, mas também fora dela. E aí é necessário que o bispo esteja, apoie e favoreça todas as iniciativas. Por isso, todo o movimento laical reconhecido pela Igreja, poderá contar comigo e com o meu apoio.

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