Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O COVID-19 é o assunto mais falado do mundo, mas tem apenas 50-200 nanómetros [1], isto é 0.00000005 a 0.0000002 metros. Como pode algo tão minúsculo ter um efeito civilizacional tão grande? A lição que tiramos é a de não desprezar as pequenas coisas, ou minúsculas, que podem fazer uma grande diferença.”

COVID-19

COVID-19

Na versão original deste artigo publicado na segunda-feira, fiz uma sugestão de um gesto pequeno de consumir bebidas quentes com base numa afirmação de que o COVID-19 não resiste a temperaturas acima dos 26ºC a 27ºC. É falso. Essas recomendações estiveram também associadas a um comunicado da UNICEF que desmentiu pouco tempo depois [2]. A melhor recomendação é estar atento, pois, aparentemente, em tempos de incerteza as mais pequenas falsidades podem assumir ritmos de propagação elevados.

O que me leva a pensar em como algo tão pequeno está a produzir um impacto ao nível global.

O cientista James Lovelock formulou há anos a hipótese Gaia que interpreta o planeta como um organismo vivo. E a melhor forma de compreender o efeito que um aumento de 1.5°C na temperatura média do planeta pode ter em relação às alterações climáticas seja a de pensarmos no efeito que teria se esse fosse o aumento da temperatura do nosso corpo. Resultado → febre.

O nível global do efeito deste virus extravasou a contaminação dos seres humanos. Forçou a alteração do nosso estilo com efeito globais. Desde janeiro que os níveis de poluição na China diminuíram substancialmente (ver imagem da NASA). As pessoas viajam menos, consomem o necessário, o que me faz pensar como um minúsculo vírus conseguiu fazer num mês o que os políticos não têm conseguido fazer há anos. Parece-me ser uma realidade que merece não ser desprezada.

Mapas da NASA mostram as concentrações de dióxido de azoto na China entre Janeiro e Fevereiro. Foto: Nasa Handout/EPA

Mapas da NASA mostram as concentrações de dióxido de azoto na China entre Janeiro e Fevereiro. Foto: Nasa Handout/EPA

No caminho quaresmal, a etapa da transfiguração é um convite a reflectir sobre o que em nós é o homem-velho, e a revestirmo-nos do homem-novo através da busca pelo essencial. Dizia Saint-Exupéry que «o essencial é invisível aos olhos» – como este minúsculo vírus. Isso significa que a nossa transfiguração talvez esteja nas pequenas mudanças a fazer à nossa vida que podem fazer uma diferença grande.

Sugiro uma simples para começar e que usa, apesar de tudo, os nossos olhos. Qualquer começo acontece dia após dia, com pequenos passos e consistentes. Recordo-me de um passo que se deve a São João XXIII. No seu “Decálogo da Serenidade”, a quinta reflexão diz,

«Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me que, assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida da minha alma.»

Maryanne Wolf, professora de educação na Universidade de Tufts nos EUA, diz que ”ler muda as nossas vidas, e as nossas vidas mudam a nossa leitura.” Ler é um minúsculo acto de interioridade que não se restringe ao mero consumo de informação, mas impele-nos antes a um encontro com o nosso interior, servindo-lhe de alimento cognitivo e espiritual. Se não conseguires ler por 10 minutos, experimenta 5 e aumenta 1 minuto por semana. Se não consegues 5 minutos, experimenta 1 e aumenta 1 minuto por dia. Podes começar um dia, ou escolher o dia-um para começar. O que realmente importa é estar plenamente consciente decomeçar por coisas minúsculas, aparentemente, desprezáveis, mas que nos transfiguram em seres humanos novos.

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[1] Chen, N., Zhou, M., Dong, X., Qu, J., Gong, F., Han, Y., … & Yu, T. (2020). Epidemiological and clinical characteristics of 99 cases of 2019 novel coronavirus pneumonia in Wuhan, China: a descriptive study. The Lancet, 395(10223), 507-513.
[2] Comunicado da UNICEF: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/e-fake-noticia-circulando-no-whatsapp-com-orientacoes-do-unicef-sobre-coronavirus

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