Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Se os criadores do Facebook, Twitter, Instagram, Google estão preocupados com o que os seus produtos estão a fazer à mente humana e aos relacionamentos, o que diríamos sobre estarem, ou não, a afectar a espiritualidade?

Tristan Harris, que trabalhou como designer para a Google, tem sido um arauto da necessidade de repensar o efeito que a tecnologia tem sobre o livre arbítrio. Diz ele que ”as pessoas atrás do ecrã têm muito mais poder do que as pessoas à frente do ecrã.” Ele refere-se aos designers de aplicações que recorrem à psicologia para criar conteúdos que mantenham as pessoas agarradas (quase literalmente) aos seus ecrãs, consumindo a sua atenção.

E quando penso em como os jovens são daqueles que mais tempo passam em frente ao ecrã de dispositivos electrónicos como os smartphones e tablets, penso também na importância de existirem pessoas que estejam estão atrás do ecrã a trabalhar num design que diga respeito à espiritualidade. Isto para testemunhar como se pode abdicar desse poder de controlar a nossa atenção e reconduzir o olhar para o lugar onde poderão encontrar Deus: o coração. Mas será isso possível?

Quando vejo a Igreja a usar os meios criados pelas grandes companhias de tecnologia digital (Facebook, Twitter, etc.) para poder estar junto dos jovens, e fazer com eles caminho, questiono quem estará realmente atrás do ecrã. Pois, em última instância, não são os valores humanos e espirituais que inspiram os algoritmos que controlam o que os jovens vêem no seu mural, mas uma máquina psicológica com efeito semelhante aos vícios dos jogos de casino, cujo objectivo é um só: capturar o teu olhar.

Por esse motivo, depois de denunciar o hacking mental, Tristan Harris fala de um Downgrade Humano. Define ele,

Downgrade Humano é uma redução societal da capacidade humana causada por tecnologias que dominam as nossas sensibilidades.”

Não sei qual seria a melhor palavra para exprimir e traduzir este downgrade. Poderia ser redução, mas eu diria antes que a palavra melhor ajustada ao contexto, dando-lhe a força que pretende ter de despertar as consciências seria desvalorização.

Numa entrevista; à revista Wired , Harris refere um brainstorming que fez para perceber melhor o que se estava a passar em relação à tecnologia e seu efeito nas escolhas das pessoas. A partir dessa reflexão afirma que se nota uma crescente ”desvalorização dos nossos relacionamentos, uma desvalorização da nossa atenção, uma desvalorização da nossa democracia, uma desvalorização do nosso sentido de decência.” Ao que acrescentaria uma desvalorização da espiritualidade, uma desvalorização do espaço de aprofundamento da nossa união com Deus e uma desvalorização do sentido de pertença e comunhão connosco próprios, com os outros e com a natureza.

Há solução?

Poderíamos pensar que a solução passa por fazer um simples contra-ponto e valorizar o que a vida digital excessiva e descontrolada desvaloriza, mas não creio. A ideia do downgrade humano não assenta numa nova perspectiva sobre a tecnologia, mas no poder que as palavras têm de criar e re-criar a realidade à nossa volta. Algo com que a experiência cristã se identifica muito, não fosse o próprio Jesus: Palavra incarnada. Mas não é a expressão downgrade humano um pouco negativa? Como espera Tristan Harris inspirar, como fez com o Time Well Spent, e o actual Centro para a Tecnologia Humana (CTH) com uma linguagem negativa?

Num artigo;, Tristan Harris e a sua equipa do CTH dizem que o downgrade humano produz um impacte na vida humana planetária equivalente às alterações climáticas, porém, associada a uma crise cultural.

É verdade que o modo como as coisas nos são apresentadas nos ecrãs, captura e domina o nosso olhar, mas o efeito a longo prazo não se compara ao modo mais simples e profundo de informar a realidade que queremos viver.

Jesus liberta-nos dos nossos vícios para que façamos uma experiência transformativa de amor como dom-de-si-mesmo. Estamos ainda a aprender como realizar o anúncio evangélico através das novas tecnologias, mas creio que um passo inicial passe por desenvolver uma consciência plena daquilo que temos nas mãos (o que designei num artigo; em inglês por noofulness), cultivando o desapego que nos leva a experimentar a verdadeira liberdade de quem questiona e procura respostas.

O passo inicial talvez passe pela linguagem.

Que expressão?

Se pensarmos bem, a experiência que o amor de Deus oferece ao mundo é a de uma força criadora de maior comunhão entre nós, que nos leva a experimentar a fraternidade universal, como membros de uma só família humana. Assim, usar a linguagem para enfrentar a crise cultural da “desvalorização humana” implica não ficar apenas pela sua constatação, mas dar um passo em frente na direcção de uma maior comunhão entre nós. Precisamos de um Despertar Humano.

Despertar Humano é um aumento societal da consciência humana para o equilíbrio da vida real com a tecnologia digital, e crescer no auto-domínio das nossas sensibilidades.”

Tudo muito bonito, mas o problema do despertar humano é o mesmo do downgrade humano: por onde começar.

Não basta ter os olhos abertos para despertar e ter a consciência plena do maior equilíbrio entre a vida real e a virtual que favoreça a comunhão entre nós.

Permitam-me a sugestão de uma coisa simples: uma boa conversa de 5min com alguém sem pensar em olhar para o ecrã do telemóvel. Treina-se o auto-domínio da sensibilidade humana à riqueza do outro e somos transformados pela comunhão de experiências.

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