Alice Caldeira Cabral, coordenadora nacional

A fundadora do Movimento Fé e Luz, Marie Hélène Mathieu acaba de escrever um livro com a história destes 40 anos de vida dum Movimento. Intitulou-o “Plus jamais seuls” – “Nunca mais sós”.

De facto, nasceu duma experiência dolorosa e de grande isolamento social e também eclesial duma família com dois filhos com uma deficiência profunda.

40 anos depois pode dizer-se que houve algum progresso: as crianças com deficiência estão nas escolas públicas e, muitas delas, enquanto são pequenas têm um círculo de relações fora da família. Quando crescem a situação é mais difícil e a sua participação ativa na sociedade e na Igreja poucas vezes é incentivada. Aquelas que têm deficiências mais profundas continuam a estar muito isoladas. Nas grandes cidades há um isolamento ainda maior do que nas pequenas.

Muitos são os pais que oscilam entre dois tipos de reações: ou se isolam ou lutam e são considerados contestários, incómodos. É claro, que há pessoas que conseguem uma situação de equilíbrio, pois, de qualquer modo as necessidades das pessoas com deficiência são muito diversas e as personalidades dos seus pais e dos seus irmãos também.

A atenção às necessidades dos irmãos é muito reduzida no nosso país em que as atuações clínicas são, em geral, muito centradas nos problemas de saúde orgânica ou mental e raramente são feitas abordagens sistémicas, que prestam atenção à forma como a família, como um todo, lida com as situações que vão surgindo e as necessidades que vão evoluindo com o ciclo de vida. Deste modo a família, embora contando com apoios que antes não existiam, sente-se sozinha e muitas vezes impotente para lidar com as necessidades particulares que tem que enfrentar.

Em Portugal, como noutros países, instalou-se um clima social em que se tornou evidente que a deteção pré-natal da deficiência duma criança, deve implicar a realização dum aborto, como medida de prevenção da deficiência. Isto tem sido alimentado por discussões e decisões jurídicas que aceitam responsabilizar os médicos e indemnizar as famílias por se ter deixado nascer uma pessoa com deficiência. Isto significa que é socialmente sancionada a redução daquela pessoa à sua deficiência não nos questionando sobre se aquele nascituro pode ser a alegria dos seus pais e do seu meio, apesar de não ter braços, pernas ou ter uma lesão cerebral.

Também se usam expressões eufemísticas sob pretexto de que falar de deficiências é estigmatizar. De várias formas evita-se olhar para o problema na sua dimensão social e isolam-se as pessoas afetadas.

 

Como é que o Movimento é e Luz responde a estas questões?

Numa sociedade que tem tanto medo das diferenças e exclui com tanta facilidade os menos “capazes” de produzir e de competir, o Fé e Luz, constituindo pequenas comunidades de encontro de dimensão humana, pretende criar laços de amizade baseados na alegria de descobrir e valorizar os dons e o valor único de cada um dos seus membros: aqueles que têm uma deficiência intelectual, os seus pais, irmãos e amigos.

 Este movimento caracteriza-se “por não fazer nada”J… Não temos respostas assistenciais. Pretendemos apenas criar em torno da pessoa com deficiência intelectual e da sua família uma rede de amizade tecida nos encontros mensais onde refletimos sobre a Palavra de Deus, procurando usar outras linguagens e não só a linguagem verbal (por exemplo através de mímicas); cantamos, rezamos e fazemos a festa. No intervalo entre encontros mensais, os jovens (de idade ou de espírito) e os membros, duma maneira geral, procuram ter notícias uns dos outros e encontrar-se para momentos de interajuda ou de lazer. E acreditem que as pessoas com deficiência não são dos mais passivos nestas interações.

Procuramos que cada um frequente a sua Igreja (o movimento é ecuménico – em Portugal, até à data, todas as comunidades estão inseridas em paróquias católicas), mas muitas comunidades são interparoquiais. Procuramos que cada um, além de frequentar, tenha um papel ativo: possa participar nos grupos de catequese, acolitar, etc., assuma a missão que a paróquia lhe queira dar. Na minha paróquia, o Mário faz parte da equipa do acolhimento à entrada da Igreja e fá-lo muito bem e com responsabilidade.

As famílias, além desta rede de amizade e interajuda, podem descobrir melhor o tesouro que é aquele nosso/a filho/a, ou irmão/ã, através dos olhos dos outros que se tornam amigos dele/a. O aprofundamento da fé e da oração, também são fonte de descoberta, tal como a festa, a participação nos campos de férias, as atividades,  enfim, o exercício de responsabilidades compatíveis.

Assim estes familiares deixam de estar sós com as suas dificuldades quotidianas. Os irmãos, podem reconhecer que aquele irmão/ã, mesmo se perturba a sua vida e muitas vezes absorve os pais em detrimento da atenção de que carecem, também estimula à sua volta um mundo de ternura e de fidelidade importante para si próprios.

Os amigos jovens descobrem também, como dizia o Gonçalo: “O primeiro encontro foi para mim muito difícil porque vi como toda a minha inteligência, toda a minha cultura, de nada me serviram quando confrontado com um “amigo especial”. Percebi que este amigo se encontrava muito mais disponível e acolhedor em relação aos outros do que eu. À medida que me fui relacionando com os “amigos especiais”, fui aprendendo, tendo-os como professores, a abrir-me interiormente e a tornar-me mais pobre e mais simples. Fé e Luz tem-me ajudado assim, a encontrar aquela sensibilidade perdida há muito por causa do egoísmo.”

Aos sacerdotes, Fé e Luz oferece a oportunidade de redescobrir, duma maneira nova, o coração da mensagem do Evangelho: a boa nova de Jesus Cristo anunciada aos pobres e aos pequenos. A partir daí podem encontrar uma fonte de renovação para o seu ministério.

Por último, há um aspeto muito importante para mim: a comunidade é uma unidade mediadora. Entrar numa Igreja com o meu filho era uma aventura difícil: com autismo e uma deficiência intelectual profunda, ele não só, não parava quieto, mas, quando ficava contente, dava gritos que assustavam as pessoas. O facto de aparecer em comunidade nas celebrações litúrgicas, fazia com que os paroquianos aprendessem, com a comunidade Fé e Luz, o modo de lidar com ele, o significado dos seus comportamentos e aprendessem a gostar dele como ele era. E podem crer que aprenderam e gostavam mesmo! E a sua presença era importante para todos e hoje sentem a sua falta. Importante em quê e para quê? Não sei, mas dele posso dizer que era pela ternura que suscitava e pela alegria que irradiava. Na minha paróquia, o Pároco diz que muitas pessoas vêm de propósito à missa nos dias que  o Fé e Luz está presente. Penso que é isto que fazemos para a inclusão destas pessoas e famílias na vida da Igreja.

Uma outra preocupação que temos é com a necessidade que temos de aprender a escutar-nos uns aos outros e promover a expressão de todos. Em particular, nas pessoas com limitações ao nível da expressão verbal que às vezes se situa mais ao nível da articulação das palavras, aprender a escutar o que têm para dizer. E acreditem que vale a pena. Eles vão muitas vezes diretos ao essencial e, com palavras simples, percebemos que nos trazem ao que é importante. Mas também há pouco tempo, dizia-me uma mãe: uma das coisas que tenho aprendido em Fé e Luz é exprimir o que sinto e que isso pode ter valor para os outros. 

Implantação do Movimento em Portugal

Presentemente existem 11 comunidades ativas. Na Diocese do Porto: Paróquia de Nª. Srª da Ajuda (Pasteleira), Senhora da Conceição (Marquês), de Cristo Rei na cidade do Porto e uma na paróquia da Senhora da Hora. Na Maia existe uma comunidade em S. Romão de Vermoim; em Vila Boa de Quires (Paredes), Santa Maria de Arrifana (Vila da Feira). Na Diocese de Braga há uma comunidade em formação em Vila do Conde. Na Diocese de Lisboa há duas comunidades: S. Jorge de Arroios, em  Lisboa e S. José de Nazaré, no Catujal. Na Arquidiocese de Évora, há uma na Paróquia de Nª. Srª. de Fátima, em Évora.

Tem sido difícil mobilizar as famílias, mas é uma prioridade atualmente a de fazer crescer este movimento, que se insere na nova evangelização e constitui um desafio de conversão/renovação para todos/as. Que se venham a constituir comunidades em mais três dioceses, pelo menos, é uma meta para o corrente triénio.

Celebração do 40.º aniversário

Depois da primeira peregrinação de 1971, realizaram-se várias peregrinações mundiais:

A  Peregrinação a Roma em 1975 respondendo ao convite do Papa Paulo VI que convidou para um Ano Santo da Reconciliação. Esta peregrinação reuniu cerca de 6 mil pessoas vindas de vários países da Europa, mas também das Américas: Argentina, Canadá e Estados Unidos.

Posteriormente a Lourdes de dez em dez anos: em 1981, 1991 e 2001 reunindo sempre mais pessoas de mais países e de mais Igrejas cristãs diversas.

Em relação a 2011 tornou-se imperativo ponderar se o movimento, que tem uma estrutura muito reduzida, dedicada em exclusividade ao seu serviço, teria capacidade  para realizar uma peregrinação mundial em Lourdes, como as anteriores. De facto, Fé e Luz tem-se desenvolvido muito em países muito pobres e as fontes de receita são muito diminutas, pelo que, do ponto de vista financeiro, se tornava difícil um projeto desta natureza. Assim a opção foi que se iriam realizar à volta do mundo peregrinações durante o ano de 2011 e 2012. Todas com o lema “Mensageiros da Alegria”.

Já se realizaram muitas, desde o Japão, no rescaldo do tremor de terra, à Peregrinação no Egito, a primeira que estava prevista para o início de fevereiro de 2011. Ela teve que ser adiada pela Revolução dos jovens que entretanto eclodiu no país, mas em novembro realizou-se com imenso entusiasmo e alegria! No Sudão, na Malásia, em Madagáscar e, é claro, várias em Lourdes, na Bélgica e noutros locais que seria fastidioso enumerar. É mesmo uma corrente pelo mundo fora.

Portugal foi convidado a enviar uma delegação a Lourdes, na Páscoa do ano passado, e a Santiago de Compostela, em novembro. Este ano, 2012, no último fim de semana de abril, abrangendo o dia 1 de maio (28.04 a 1.05), para além dos membros das nossas comunidades, recebemos delegações das três Províncias do Brasil, de duas Províncias de Espanha e duas Províncias de Itália, estando previsto reunir em Fátima cerca de 200 pessoas.

Fátima, como santuário Mariano, é um local importante para o Movimento! Tal como nós mães, Maria, logo na apresentação de Jesus no Templo, recebe uma notícia perturbadora: “o teu coração será trespassado por uma espada”, diz-lhe o velho Simeão. O modo como Maria acolhe esse Filho e como acompanha o Seu sofrimento, mantendo-se disponível e em comunhão com os Seus amigos, é um exemplo muito forte. Ela acreditou que Ele era a luz das Nações, para continuar a citar Simeão (Lc 2, 32) e continua a irradiar a Sua luz de que tanto precisamos!

Jesus revelou-nos um Deus que ama os seus filhos tal como são. Ele quer que sejamos felizes, mesmo que tenhamos dificuldades e elas até façam doer. Não precisamos de ter medo: Ele e a Sua Mãe estão connosco – podemos confiar.

De facto, o nosso coração nem sempre está cheio de luz. Muitas vezes ficamos terrivelmente dececionados com a notícia da deficiência do nosso filho, do nosso irmão, do nosso amigo. Não sabemos o que vai acontecer e o que podemos fazer. Nestes casos, é bom não ficarmos sozinhos com a nossa dor e confusão, é bom ir ter com Maria. Com uma vela de luz na mão, damos primeiro um passinho e depois outro. E Deus, dos nossos espinhos fará um fogo novo, que traz luz e calor ao nosso coração. Queremos “partir para outro local, para nos tornarmos outros” com confiança, alegria e força para viver o dia a dia. Queremos pedir ao Espírito Santo que nos dê estes dons! 

Grandes objetivos da nossa Peregrinação que celebra os 40 anos:

  1. Celebrar as graças recebidas ao longo destes anos e a aprendizagem que foi sendo feita;
  2. Reforçar os laços eclesiais e fazer crescer o amor na nossa Igreja, descobrindo juntos os dons preciosos das pessoas com uma deficiência;
  3. Unirmo-nos à grande família Fé e Luz do mundo inteiro, numa dimensão comunitária essencial no Fé e Luz: estamos em comunhão com os que nos precederam. Formamos um povo em marcha, caminhando ao ritmo do mais pequeno. 

Porquê o lema “Mensageiros da alegria”?

Basicamente, em cada encontro de comunidade saímos com uma experiência de festa e de alegria. De facto, um dos dons preciosos dos nossos “amigos especiais”, como dizemos muitas vezes em Fé e Luz, é a capacidade de fazer a festa com coisas muito simples,  a partir de canções, de danças a alegria transparece. Pois onde há amor, um sofrimento, mesmo profundo, pode coexistir com a alegria. Esta alegria é um dom do Espírito Santo. Devemos pedir-lho. E ele vem-nos da experiência de comunidade, de encontro. De facto, Jesus disse, que onde dois ou três estivessem reunidos em Seu nome, Ele estaria lá e o Espírito Santo vem, anima e dá-nos alento e alegria.

Nas nossas comunidades Fé e Luz, as pessoas frágeis, sequiosas de comunhão, sentem que são amadas, aceites como são e podem participar plenamente na Festa. A sua alegria é contagiosa e comunica-se.

Aprendi com o meu filho Dido (como lhe chamávamos) que, mesmo quando temos dores e um sofrimento grande, podemos sorrir e ficar felizes, sempre que conseguimos encontrar-nos pessoa a pessoa – e que isso é mais forte que a dor. Não se trata de negar o sofrimento: ele existe mesmo. Trata-se de não nos deixarmos esmagar por ele e procurar a alegria, dom do Espírito Santo. As pessoas com deficiência são tantas vezes grandes mestres nisso: a nossa Vera que não pode falar e tem dores grandes, devido a espasmos violentos – o sorriso com que ela nos acolhe, transforma-nos por dentro e leva-nos à partilha da alegria.

A imagem social das pessoas com deficiência enquanto peso, mal ou mesmo castigo de Deus, tem que ser mudada! É necessário reconhecer-lhes o estatuto de “pessoa”, dom para  oda a humanidade. Tendo embora uma deficiência que as limita, desafia toda a sociedade a aprender a lidar com as suas dificuldades e a descobrir como são importantes “para a construção dum mundo assente numa outra lógica que não a da competição e da procura do prazer imediato, a que nem todos têm acesso” (Jean Vanier).

No Fé e Luz, vamos descobrindo, no nosso dia a dia, o sentido muito literal da frase de Jesus: “Eu vos louvo ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelastes aos pequeninos” (Mt. 11, 25). A capacidade de ter uma relação de intimidade está presente nestas pessoas, mesmo quando desprovidas da capacidade de verbalização e com deficiências muito extensas. Deste modo, elas também podem anunciar a todos a Boa Nova de Jesus! 

Alice Caldeira Cabral, Coordenadora da Província LuZitana

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