Moçambique: Bispo de Pemba denuncia decapitação de cristãos e sequestros no norte do país

D. António Juliasse diz que Igreja vai manter posição contra a violência e o terrorismo

Foto Vatican News, D. António Juliasse

Lisboa, 25 out 2026 (Ecclesia) – O bispo de Pemba denunciou a decapitação de vários cristãos e a multiplicação de sequestros em Cabo Delgado durante este ano, recusando o silêncio da Igreja perante o terrorismo em Moçambique.

“As pessoas estão a morrer, e ficar calado diante desta situação é ser conivente com as mortes que estão a acontecer e com este sofrimento”, afirmou D. António Juliasse, em entrevista conjunta à Renascença e à Agência ECCLESIA, emitida e publicada este domingo.

Definindo a província do norte moçambicano como “uma terra de mártires” após a destruição da igreja da missão de São Luís de Monforte no último mês de maio, o prelado alertou que “tem havido muitas crianças raptadas e muitas pessoas sequestradas para obtenção de resgate, pelas quais são pagas somas avultadas”.

O responsável católico revelou que o risco de rapto obrigou várias organizações humanitárias a suspender as operações no terreno, confinando-se à cidade de Pemba e às grandes vilas, num momento em que se agravam os “focos de subnutrição, sobretudo entre as crianças”.

Nove anos após os primeiros ataques de grupos associados ao Estado Islâmico, iniciados a 5 de outubro de 2017, o conflito soma mais de 6600 vítimas mortais e um total acumulado de 1,2 milhões de deslocados, surgindo agora novos acampamentos devido a incursões no norte e no centro da província.

Perante a falta de apoio alimentar, de terras agrícolas e de proteção nos centros de reassentamento, muitas famílias optam por regressar às zonas de origem e “preferem lidar com a insegurança nas próprias aldeias”

“Quando são atacadas, fogem para as matas, voltam, enterram os mortos, reconstroem as casas e continuam ali”, relatou o bispo de Pemba.

D. António Juliasse apontou “uma impotência de todos os lados” para travar a violência e a ausência de uma explicação oficial sobre o fenómeno, confessando que a realidade no terreno não oferece “dados objetivos” de que a crise se aproxime do seu fim.

Sobre o auxílio militar externo num território com 82 mil quilómetros quadrados e 11 distritos, o entrevistado notou que o contingente de dois mil soldados do Ruanda garante segurança apenas em áreas circunscritas como Palma e Mocímboa da Praia, enquanto sobre a missão de treino da União Europeia — que integra Portugal e cujo mandato o presidente Daniel Chapo pretende prolongar até 2028 — disse não ter “acesso” a qualquer avaliação de resultados.

O bispo de Pemba agradeceu a solidariedade da Igreja em Portugal e a atenção constante de Leão XIV a Cabo Delgado, destacando a recente deslocação do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, que visitou um campo de reassentamento para “abraçar as pessoas e abençoar as crianças” por ocasião dos 30 anos de relações diplomáticas entre a Santa Sé e Moçambique.

Questionado sobre o recente assassinato do bispo de Quelimane, D. Osório Citora Afonso, o prelado sustentou que é preciso “esclarecimento”, por parte das autoridades públicas, para entender se o crime foi um “caso isolado”.

“O povo, todo o povo moçambicano, e nós, cristãos, precisamos de ser esclarecidos sobre as circunstâncias da morte de D. Osório Citora Afonso”, exigiu D. António Juliasse.

O bispo de Pemba assume ainda a necessidade de “um esforço de mobilização” para evitar que a situação em Moçambique venha a “cair no esquecimento”.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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