Santos Gotine, Secretário-geral da Cáritas de Moçambique, é o convidado da entrevista semanal conjunta ECCLESIA/Renascença

Entrevista conduzida por Henrique Matos (Ecclesia) e Ângela Roque (Renascença)

 

Moçambique enfrenta uma das mais graves tragédias da sua história. Como é que está a situação, nesta altura?

Neste momento, a situação está a normalizar-se, porque o nível das águas está a reduzir-se, depois das cheias. É verdade que existem ainda algumas áreas onde o processo de resgate e procura de desaparecidos ainda continua, porque há um número grande .

Entre os que foram afetados, a maioria na Beira, começam também a erguer-se, porque o impacto do ciclone é aquele que nós conhecemos, mas as chuvas já não caem, não se fazem sentir.

Há muita fome, isso é uma verdade. Os que estão a distribuir alimentos – algumas instituições do Governo, ONG – encaram um desafio, há muita gente a precisar, mas a comida ainda não chega…

 

Neste momento, o que é que faz mais falta?

O que faz mais falta é comida, tendas, para alojar aqueles que perderam as suas casas e não têm abrigo, e também os kits de higiene e água. Já ocorrem alguns problemas, como o surto de cólera, principalmente na cidade da Beira, onde as autoridades sanitárias estão preocupadas com esta situação.

Em termos de acessos, felizmente, a via que liga à cidade da Beira já está restabelecida, com algumas condições, mas existem ainda zonas onde não é possível chegar por estrada.

 

Referiu que tem ainda indicação de muitos desaparecidos. Teme, de alguma forma, que estes números possam vir a fazer aumentar o número de mortos?

Obviamente, sem dúvida.

 

Estamos ainda muito longe de um balanço final…

Sim, muito longe, de facto. As informações que nos chegam ainda não são exatas, porque ainda não há acesso a certas zonas. Existem helicópteros a sobrevoar e barcos a navegar, onde é possível chegar, mas também há dificuldades.

De realçar também que a barragem de Cahora Bassa começou a fazer descargas, de 3 mil metros cúbicos por segundo. Diz-se que a situação está controlada, mas podemos ver o Rio Zambeze a transbordar, porque já chegou ao seu nível de alerta.

 

Há pessoas que se estão a recusar a abandonar as suas casas, com medo de perder os seus bens?

Sim, há, mas o Governo está a retirar todos, compulsivamente. De facto, é tradição, as pessoas que têm algumas propriedades sabem que, quando se ausentam, podem perdê-las. Há esse problema, é verdade, estamos a enfrentá-lo.

 

Em termos de saúde, começaram a aparecer casos de cólera, como se temia, que já fizeram vítimas, e casos de diarreia. Como é que se está a responder a esta situação?

As estruturas governamentais já montaram algumas equipas no terreno, para tentar monitorizar e responder a esta situação. Existem tendas, já montadas, na Beira, com equipamento; há distribuição de água, também, por alguns parceiros. Nós, como Cáritas, também vamos ter uma máquina industrial de purificação de água, que vem de Espanha, e vamos dando o nosso contributo, mas a verdade é que este problema está a surgir em quase todas as zonas atingidas, tanto pelo ciclone como pelas cheias.

 

O Exército Português também tem estado a ensinar a população a tratar da água. É um problema grave…

Sim, é um problema grave, porque, para tratar a água, a população tem de ter meios, em primeiro lugar. Muitos perderam os seus utensílios, mesmo para um simples processo de tratamento, que é ferver a água, algumas pessoas não têm panelas. Há um esforço grande de muitas organizações, mas é um esforço que precisa de ser redobrado.

 

Vários países mobilizaram-se para ajudar, de Portugal seguiu ajuda oficial, também através de instituições como a Cruz Vermelha e a Cáritas. Têm sido ajudas importantes?

Sim, são ajudas que contribuem para amenizar a situação, para reforçar o que outras instituições estão a fazer, em resposta ao sofrimento da população. Tenho de agradecer o gesto da Cáritas Portuguesa, como nossa irmã, que nos está a apoiar. Esta solidariedade é muito boa e nós vamos fazer os esforços possíveis. Essa ajuda é bem-vinda e está a servir muito para apoiar as populações afetadas.

Ainda temos um défice de capacidade, em recursos humanos, porque a intervenção é grande e precisa de pessoas especializadas.

 

Referiu, na apresentação da campanha da Cáritas Portuguesa para ajuda a Moçambique, que preferia os donativos em dinheiro, porque há problemas logísticos quando se enviam bens e, por outro lado, isso também ajudaria a recuperar a Economia local.

Obviamente. Continuo a defender essa opção, o nosso mercado precisa de ser revitalizado, reforçado, recuperando a Economia. Quando as coisas vêm de fora, há muitos gastos feitos em transporte, às vezes mesmo para questões alfandegárias tem havido muitos problemas, tenho assistido a isso. Se formos a ver, o valor do custo de transporte podia ser utilizado para comprar produtos internamente ou nos países vizinhos, se aqui não tivermos capacidade.

O facto de trazer muitos produtos de fora, é uma questão que gostaríamos de minimizar, pedindo aos parceiros que apliquem o dinheiro do transporte nas pessoas afetadas.

 

Entretanto, há indicações de que os preços estão a disparar, devido à escassez dos bens disponíveis, com algum aproveitamento…

Há sempre oportunistas, é verdade. Os produtos dispararam, em termos de preço, principalmente na cidade da Beira. Temos de levar em consideração que são poucos armazenistas os que têm produtos, porque as vias de acesso ficaram bloqueadas. Era preciso ter armazéns com produtos, para abastecer.

É um fenómeno que acontece em todas as situações de emergência em Moçambique, os preços disparam…

 

Como é que a Cáritas está a articular a sua ação, como é que está a chegar aos locais onde é mais necessário?

Nós temos vários parceiros, que estão cá a dar apoio à Cáritas Moçambicana, assim que ativamos o protocolo de cooperação, de emergência. Alguns parceiros têm meios próprios: a Cáritas Áustria tem um helicóptero, que ajuda os colegas a transportar bens a localidades de difícil acesso. Temos dificuldade de transporte terrestre, não só porque as vias estão bloqueadas, mas também porque, em termos de capacidade de veículos, isso representa um desafio.

Lançamos um apelo de emergência para resposta rápida e ele está a ser bem recebido.

Foto: Lusa

Seria importante que seguissem para Moçambique mais voluntários?

Os voluntários são bem-vindos, porque nós precisamos da sua ajuda.

 

Há forma de enquadrar a ajuda desses voluntários, aí no terreno?

Sim, nós temos uma equipa de coordenação, aqui ao nível do secretariado, que tem um mapa com todo o pessoal que chega de fora. Antes de chegar, é preciso determinar qual é a especialidade de cada voluntário, para saber onde serão alocados, em termos de Cáritas Diocesanas. A logística é um grande desafio para nós.

 

Estamos ainda em fase de resposta às necessidades básicas da população, mas vem aí outra fase complicada, que será a da reconstrução…

Essa fase de reconstrução é uma fase em que vamos precisar de muita ajuda, porque vai ser uma reconstrução de raiz. As pessoas afetadas são muitas, vamos precisar de muito mais ajuda, porque neste momento estamos a dar uma resposta rápida.

 

Há muitas infraestruturas da Igreja e de outras instituições que tenham sido afetadas? Temos o exemplo da Rádio Pax, emissora católica da Beira, que não tem conseguido emitir…

Sim, falando da cidade da Beira, quase todas as igrejas, conventos, outras estruturas da Igreja, estão destruídas. A sede da Cáritas ficou sem teto, voou, todos os computadores foram destruídos. Esse é um grande desafio que nós temos, principalmente agora, num momento de resposta rápida. Os bispos têm sublinhado que as Igrejas também sofreram, mas a nossa concentração imediata como Cáritas é para as pessoas afetadas que estão sem abrigo, sem comida, sem água. É um problema muito sério.

 

O tecido empresarial está também a tomar parte neste processo de reconstrução? Os recursos de Moçambique têm sido cobiçados por grandes grupos económicos. Eles estão a ajudar, neste momento?

Sim, há muita solidariedade. Quase todas as empresas de Moçambique, as multinacionais, estão a dar muito apoio. A questão é se esse apoio chega aos destinatários. Como Cáritas, questionamos sempre isso, porque há um problema de perda de credibilidade das instituições governamentais.

 

Para além desta situação de emergência na Beira, por causa das cheias e do ciclone, há outras situações em Moçambique onde a Cáritas esteja também a dar resposta? A semana passada o bispo nomeado para Tete, um missionário português, referia que na região de Inhambane se vive uma seca severa. Tem sido um ano de tragédias climáticas?

Sim, vamos dando resposta à situação de seca tanto na província de Gaza como de Inhambane.

Quando do ciclone Idai e das cheias nós concentramos mais o nosso esforço nas províncias das dioceses que foram mais afetadas: Beira, Chimoio e Quelimane. Mas também de referir que temos a Diocese de Pemba onde antes do ciclone Idai estava inundada até à própria cidade

Temos também a Diocese de Lichinga, no Distrito de Cuamba, onde temos problemas também de cheias. Hoje mesmo, no nosso encontro de coordenação, distinguimos o que tem de ser feito, porque o nosso desafio são as três Dioceses da Beira, Chimoio e Quelimane.

 

Este ano, em Moçambique é também marcado pelas eleições gerais (presidencial, parlamento e assembleias provinciais, 15 de outubro de 2019). A comissão de eleições manifesta a recomendação de as adiar para dezembro, o recenseamento foi adiado. O que poderá gerar na sociedade moçambicana perante esta questão eleitoral e o drama que estão a viver e o sofrimento. Acha que pode pôr em causa a paz social?

É um debate público que está a acontecer neste momento, não só o aspeto das eleições, previstas para outubro, que poderão ser adiadas para dezembro. Mas também ontem o presidente da República e o presidente da Conferência Episcopal de Moçambique anunciaram a visita do Papa para a primeira semana de setembro.

É muita coisa junta e não sei se teremos capacidade de fazermos isso com perfeição. É verdade que neste momento a concentração maior é a situação de emergência na região centro.

Dar resposta às situações de emergência é mais urgente do que falar nestas visitas?

Sim, sim.

 

A visita do Papa que foi anunciada é importante para Moçambique e para a Igreja nesse país?

É difícil dar uma resposta como Igreja, mas dando resposta pessoal penso que não seria oportuno neste momento. Estamos a aproximar-nos das eleições e sabemos que quando se aproximam eleições uma visita Papal pode ser interpretada como dar prioridade aos que estão no poder e pode ser interpretada como pré-campanha para o partido no poder. Esta é uma visão muito pessoal, existem debates.

 

Há entendimento, solidariedade entre a Igrejas, as religiões presentes em Moçambique para ajudar a ultrapassar esta situação de crise?

Há muita solidariedade e há muita união. As Igrejas estão a trabalhar para poder apoiar esta situação que estamos a viver.

Partilhar:
Share