Padre Fernando Domingues
Missionário Comboniano

Anunciar e testemunhar o Evangelho de Jesus não é um dever que nos é imposto. É a possibilidade que temos de ajudar muitas outras pessoas a descobrir a presença activa de Jesus no mundo e na vida de cada pessoa. Jesus precede-nos.

1. O dever da missão e a alegria da partilha
Das muitas histórias de missionários que ouvi contar, uma das que mais gosto é a da carta que escreveu um irmão missionário que trabalhava na China nos últimos anos do século XIX.

Dizia assim: “Nunca agradecerei a Deus o suficiente por me ter feito missionário na China. … Quando penso nas inúmeras graças que recebi de Deus, e que continuo a receber até agora… confesso que me vêm as lágrimas aos olhos. A vocação mais bonita do mundo é ser missionário” (Carta de Joseph Freinademetz, 1887).

Não lhe faltavam as dificuldades a enfrentar, mas sentia muito claramente que as alegrias e a beleza da vida que vivia valiam muito mais do que todas as renúncias que tinha feito.

Privações e dificuldades existem em todos os caminhos da vida, mas a missão de levar o Evangelho a outros povos é algo que enche o coração alegria e nos faz participar num processo que é muito maior do que os trabalhos que fazemos. A verdade é que participamos no trabalho de Deus que está a transformar o nosso mundo. Trabalhamos no Seu projecto.

Em outros tempos, gostávamos de sublinha o ‘dever missionário’: a ordem de Jesus era clara, “Ide e anunciai” (Mt 28, 19-20) e, para obedecer a tal imperativo, homens e mulheres deixavam tudo e enfrentavam dificuldades sem conta, para levar aos povos de longe o Evangelho da salvação.

Nos nossos dias, o mandato missionário de Jesus, “Ide!” não perdeu nada da sua importância e urgência, mas há outra dimensão que tem vindo a chamar a nossa atenção: a razão pela qual Jesus envia, isto é, a sua presença que já está activa em toda a humanidade.

Muitos missionários e missionárias, regressando, não se cansavam de dizer, “É muito mais o que recebemos”, mas talvez só agora começamos a pensar no que isso significa.

Afinal, os missionários partem para “levar e dar” ou para “receber e trazer”? A resposta está na linha do Evangelho que está mesmo ali ao lado do tal “mandato missionário”: “todo o poder Me foi dado nos céus e na terra” (Mt 28, 18): Jesus ressuscitado está já presente em toda a parte, a transformar o mundo e as pessoas que o habitam, com a energia divina que é o Seu Espírito. É por isso que os missionários são convidados a partir, para colaborar nessa transformação que o Santo Espírito de Cristo já está a realizar.

O próprio Jesus falou dessa realidade em várias ocasiões. Quando apareceu às mulheres na manhã da Sua ressurreição, Ele pediu-lhes que fossem dizer aos Seus discípulos que deviam “partir para a Galileia, pois Ele os precedia e lá o haviam de encontrar” (cf. Mt 28, 8-15). Confirmamos isso mesmo de muitas maneiras na nossa vida missionária: nos povos a quem levamos o Evangelho, encontramos muitos sinais da presença de Deus que está activa nas suas vidas muito antes de nós lá chegarmos. Explicando a parábola da semente, Jesus também disse que o semeador é o Pai e a semente é a Palavra do Evangelho. Esta sementeira já Deus a começou há muito, no coração de cada pessoa, e particularmente nas várias tradições religiosas com que os povos se dirigem a Deus. Agora, o que Deus precisa é de “muitos trabalhadores para a colheita” (Lc 10, 2).

Numa linguagem semelhante, os antigos Padres da Igreja observavam as tradições culturais e religiosas (não-cristãs) do seu tempo e diziam que nelas se podia encontrar a Palavra (de Deus), em modalidade de semente (Logos spermatikôs).

A alegria dos missionários que partem, e de todas as pessoas que em qualquer lugar se dedicam a anunciar e testemunhar a nossa fé, é a alegria de partilhar com os outros o melhor que temos – o Evangelho de Jesus – e, ao mesmo tempo, descobrir e receber os dons que o Espírito de Jesus já foi cultivando al longo dos séculos nessas pessoas e culturas em que vivem.

2. Dos trabalhos ao testemunho de vida
O Papa Francisco veio desafiar muitos de nós a reflectir de novo sobre a nossa maneira de viver a vida missionária. A expressão que ele gosta de usar é “Eu sou uma missão neste mundo” e acrescenta, “não posso separar a minha missão e a minha vida pessoal” (EG 273).

Um missionário já idoso partilhava nestes dias as suas fadigas apostólicas e dizia: “nem sei bem como, mas na missão onde estive, consegui construir 40 capelas e 5 igrejas, que hoje servem 5 novas paróquias.” Extraordinário. E, sem dúvida aquelas mais de 40 comunidades cristãs agradecem muito a generosidade dele e de quantos apoiavam o seu serviço missionário. Era um tempo em que era preciso fundar as comunidades, estabelecer as primeiras estruturas…

Hoje, que as comunidades já têm um mínimo de consistência, o serviço missionário concentra-se mais sobre o esforço de transmitir o evangelho com o testemunho de vida, deixando que as construções sejam fruto do esforço das comunidades locais, à medida que elas vão crescendo.

Alguns ‘trabalhos’ serão sempre necessários, e não faltará a generosidade entre as várias Igrejas que continuarão a apoiar-se fraternamente umas às outras, mas o esforço missionário de anunciar com o testemunho de vida vem sublinhar de maneira nova a necessidade de os missionários serem mais contemplativos. Alguém diz que, na nova oração contemplativa dos missionários e missionárias, há um ‘subir’ e um ‘descer’: O missionário precisa de ‘subir’ até Deus; na oração e meditação, contemplar a vida e o mistério de Deus para sintonizar o próprio coração e o próprio pensamento com o coração e os planos de Deus. Depois, é preciso ‘descer’, olhar para o mundo, para as comunidades humanas a quem somos enviados para aí descobrir os movimentos do Espírito de Deus, aquilo que Deus está a inspirar e a fazer crescer. Então, o nosso testemunho de vida poderá ajudar as pessoas a discernir a acção de Deus e ‘ajustar’ a vida das comunidades cristãs e a direcção em que querem caminhar.

3. Da experiência vivida à partilha
A certeza de que Deus já está presente e bem activo na vida das pessoas e grupos humanos que nos acolhem, livra-nos da pressa ansiosa que às vezes caracterizava algumas iniciativas missionárias. A nossa presença missionária há-de então ficar marcada pelo diálogo, pela capacidade de caminhar juntos – sinodalidade – e pela presença humilde.

a. Diálogo
Dialogar com os crentes de outras tradições religiosas é um elemento indispensável no nosso serviço missionário. O Evangelho não se impõe, oferece-se num diálogo respeitoso com quer aproximar-se de Jesus e da sua Igreja. E isto simplesmente porque é o caminho que o próprio Deus segue, como diz o documento da Santa Sé, sobre o diálogo e o anúncio em contexto missionário:
“Deus, num diálogo que dura ao longo dos tempos, ofereceu e continua a oferecer a salvação à humanidade. Para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja deve, pois, entrar num diálogo de salvação com todos” (Pontifício Conselho para Diálogo Inter-religioso e Congregação para a Evangelização dos Povos, Diálogo e anúncio (1991) nº 38).

Esse ‘diálogo’ entre a nossa fé e a tradição religiosa das pessoas que encontramos não é uma simples discussão que se conclui depressa. Trata-se de um “diálogo de vida” em que a passagem de uma fé a outra se faz lentamente e poucos elementos de cada vez. Num encontro recente, alguns colegas notavam que num certo país africano, “ainda há muito elementos das religiões antigas na vida dos nossos cristãos.” Hoje, temos uma consciência mais clara sobre o facto que o processo de conversão a uma nova fé pode levar várias gerações, e talvez nunca chegue a ser total. Trata-se de questões que tocam as realidades mais profundas da vida humana. As pessoas precisam de muito tempo para mudar as realidades fundamentais das suas vidas.

As novas comunidades cristãs que vão surgindo, nascem e crescem com ‘uma alma própria’ e desenvolvem as suas próprias maneiras de rezar, de se organizarem, de transmitir a sua fé. A maneira de viver a fé cristã, nestas comunidades, é necessariamente configurada também pelos dons que tinham já recebido de Deus no caminho que Ele tinha vindo a fazer com elas ao longo dos séculos precedentes. As novas formas vida cristã, de celebração, e de pensamento, que assim se vão formando, são dons de Deus para partilhar com as outras Igrejas e assim enriquecer todas as outras comunidades, incluídas as comunidades que lhes enviaram os missionários (cf. Vaticano II, Ad Gentes, nº 22).

b. Caminho juntos – Sinodalidade
As diferentes tradições cristãs que vão crescendo nos contextos missionários, são chamadas a enriquecer-se umas às outras, partilhando aqueles dons que foram crescendo no seu seio, frutos do caminho que Deus tinha feito com elas e do anúncio do Evangelho. Hoje, há músicas litúrgicas, maneiras de rezar, maneiras de organizar as comunidades cristãs onde o clero é muito escasso, etc., que se vão partilhando entre as várias Igrejas.

O que nós aprendemos a chamar ‘caminho sinodal’, é muito mais do que algumas reuniões para dar a nossa opinião. Trata-se de uma maneira de ser Igreja em que cada comunidade cristã dá a conhecer às outras o caminho que vai fazendo, e encontra no caminho de outras comunidades pistas para orientar melhor o seu próprio futuro. Assim, não só as pessoas caminham juntas, mas as Igrejas dos vários países e continentes são chamadas a enriquecer-se e a iluminar o caminho umas das outras. Pensemos, por exemplo, como nos últimos anos o caminho que as Igrejas da América Latina vinham fazendo nas últimas décadas, tão bem apresentado no documento da Assembleia de Aparecida (2007), tem agora enriquecido as Igrejas dos outros continentes através do ensinamento do Papa Francisco que nessa Assembleia tinha participado.

Os missionários e as missionárias que partem enviados por uma Igreja para se colocarem ao serviço de outras Igrejas em contextos culturais diferentes, e que mais tarde regressam enriquecidos por novas experiências, são protagonistas de primeira linha neste processo de intercâmbio e de mútuo desafiar-se e enriquecer-se entre Igrejas nos vários continentes. O melhor que podem fazer, ao regressar é contar como, por lá, “a Palavra de Deus crescia e se multiplicava” (Act 12, 24).

c. Caminho humilde
Esta “missão entre Igrejas” que hoje vivemos, só pode ser realizada autenticamente se todos aceitamos percorrer um caminho de humildade. Quando Deus olha para o nosso mundo, não vê comunidades ricas e comunidades pobrezinhas, vê só famílias de filhos e filhas com riquezas diferentes, que todos podem partilhar uns com os outros.
Cada comunidade cristã, no caminho que vai fazendo, tem experiências, descobertas, tentativas, que pode partilhar com as outras, e pode, por seu lado, aprender muito e encontrar caminhos novos quando se informa sobre o caminho que os outros vão procurando fazer.

Nenhum grupo e nenhuma Igreja possui o Espírito Santo em exclusividade. Todos temos algo a ensinar e todos podemos aprender dos outros. Os séculos de cristianismo em algumas zonas podem ter aprofundado muito a fé cristã, mas também podem ter acumulado elementos menos essenciais que acabam por encobrir aspectos importantes do Evangelho. Comunidades mais recentes, livres do peso de certas antigas tradições, por vezes, são capazes de captar e exprimir o Evangelho de maneira mais directa e mais clara. Com o tempo, também nós missionários aprendemos a conhecer melhor o evangelho que anunciamos. O esforço de comunicar o Evangelho a outros povos, tentando “despi-lo das nossas tradições culturais”, para que esse Evangelho possa exprimir-se nas tradições culturais próprias dos povos a quem somos enviados, esse esforço nos leva a ver com maior clareza aquilo que é o “coração do evangelho”, distinguindo o que é essencial daquilo que é menos importante. Assim, quem parte, fá-lo também na disposição de ir aprender com humildade olhando com respeito para o que o Espírito de Deus vai realizando em outras terras.

Conclusão
Vivemos hoje, a nova consciência de que todos somos missionários porque discípulos de Jesus. Isto porque todos somos convidados a partilhar o melhor que temos: a fé que vivemos juntos nas nossas comunidades cristãs.

Anunciar e testemunhar o Evangelho de Jesus não é um dever que nos é imposto. É a possibilidade que temos de ajudar muitas outras pessoas a descobrir a presença activa de Jesus no mundo e na vida de cada pessoa. Jesus precede-nos.

As comunidades cristãs da Igreja fazem o seu caminho de fé com uma imensa variedade de dons; celebram e testemunham a fé com grande criatividade, em modalidades que são configuradas pelo menos em parte pelas suas tradições culturais e religiosas.

Os missionários e missionárias que são enviados por uma Igreja concreta e recebidos por outra, lá longe, tornam-se instrumentos de um processo contínuo de intercâmbio que permite às Igrejas nas várias partes do mundo de continuarem um verdadeiro caminho sinodal em que se enriquecem umas às outras e se vão ajudando a descobrir novos caminhos de comunhão universal, na grande variedade de dons que o Senhor vai concedendo a todos.

 

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