Migrações/Portugal: JRS recusa corte de direitos em nome de celeridade burocrática

«Olharmos para o migrante isoladamente, apenas como força de trabalho, é uma perspectiva pobre», alerta André Costa Jorge

Foto: Agência ECCLESIA/OC

Lisboa, 21 jun 2026 (Ecclesia) – O diretor-geral do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS)-Portugal rejeitou a subversão das regras de acolhimento em nome da celeridade burocrática, exigindo a defesa do direito ao asilo.

“Portugal deve garantir eficácia administrativa, mas sem enfraquecer direitos fundamentais”, alertou André Costa Jorge, a propósito das recentes alterações à lei de estrangeiros, em entrevista conjunta à Agência ECCLESIA e Renascença, emitida e publicada hoje.

A respeito do Dia Mundial do Refugiado (20 de junho), o responsável sublinhou que, por trás dos 117,8 milhões de deslocados contabilizados globalmente, “existem pessoas concretas, famílias, histórias interrompidas”.

“O asilo não se trata apenas de uma concessão política ou, se quisermos, um ato de caridade no sentido mais pobre do termo”, precisou o presidente do JRS-Portugal.

O dirigente criticou o alinhamento com posicionamentos políticos “nos antípodas” da “tradição humanista” de Portugal.

André Costa Jorge falou de um “histórico de incapacidade administrativa do Estado em responder” aos pedidos de quem chega ao país.

“Olharmos para o migrante isoladamente, apenas como força de trabalho, é uma perspectiva pobre, é uma perspectiva reducionista, diria mesmo muito pouco desafiante do ponto de vista político e societal”, advertiu.

As propostas direcionadas exclusivamente para cidadãos estrangeiros altamente qualificados ignoram a economia real, sublinhando o dirigente que as “melhores taxas de absorção e integração profissional são em setores não qualificados”.

Questionado sobre a narrativa em torno da remigração, o entrevistado aponta o dedo a “uma espécie de política de deportação, de fazer o processo de migração ao contrário, à força e de forma coerciva”.

“Quando acolhemos uma pessoa refugiada, não estamos apenas a ajudar alguém, estamos a afirmar quem somos enquanto comunidade humana”, vincou.

André Costa Jorge rejeitou a perceção de excesso de refugiados em território nacional, sustentando que “Portugal continua a receber um número relativamente reduzido de pedidos de proteção internacional, quando comparado com outros países europeus”.

A intervenção enquadrou as celebrações do Dia Mundial do Refugiado, lembrando que “o mundo vive um tempo marcado por guerras, perseguições, pobreza extrema” e profundas alterações climáticas.

“Temos de fazer uma escolha entre a fraternidade e o medo”, apelou o diretor-geral do JRS-Portugal, citando o repto lançado recentemente pelo Papa Leão XIV durante a viagem a Espanha.

OC

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