Responsáveis da instituição jesuíta lamentam falta de solidariedade e entendimento entre Estados-membros da União Europeia

Foto: JRS-Europa

Bruxelas, 06 nov 2020 (Ecclesia) – O diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados na Europa (JRS-Europa) disse hoje à Agência ECCLESIA que as políticas comunitárias de acolhimento aos migrantes e requerentes de asilo devem ter uma abordagem humana e solidária.

“Os Estados têm o direito de controlar as fronteiras, não estamos a dizer para abrir todas as fronteiras do mundo – embora as pessoas viajar para onde quiserem, se tiverem dinheiro. O importante é a forma como tratamos as pessoas: as condições em que são detidas, se os processos são justos”, referiu o padre José Ignacio Garcia, jesuíta.

O responsável questiona o uso das migrações como “arma de arremesso” no debate político, provocando “grandes tensões” no seio da União Europeia.

Neste contexto, o diretor do JRS-Europa destaca a importância da nova encíclica do Papa, ‘Fratelli Tutti’, texto que mostra “quão mal” está a humanidade e representa uma “leitura do Evangelho, olhando para o mundo”.

Francisco, acrescenta, destaca a necessidade de uma visão profética, que promova uma sociedade “fraterna e humana”.

Para o religioso jesuíta, “não é normal” que haja católicos a apoiar posicionamentos populistas e racistas, lamentando que continuem por resolver questões “muito básicas” como o conceito de asilo ou o direito a migrar.

Questionado sobre o impacto da pandemia nos trabalhos do JRS em vários países, o padre José Ignacio Garcia refere que é preciso “aprender com os refugiados, que têm a capacidade de se adaptar”.

Entre as principais preocupações do responsável estão o encerramento dos centros de detenção e o aumento de pessoas “sem proteção”.

O diretor do JRS-Europa regista aumento da solidariedade mas também novas dificuldades, em particular com voluntários que são população de risco.

Um fundo especial para responder à atual crise já permitiu, por exemplo, oferecer abrigo a requerentes de asilo, em Bucareste

Claudia Bonamini, responsável do JRS-Europa pela área da política e advocacy, questiona o Pacto sobre a Migração e o Asilo da União Europeia, por identificar uma filosofia centrada nas “fronteiras” e não numa verdadeira solidariedade entre os Estados-membros, num processo partilhado de acolhimento destas pessoas.

A entrevistada lamenta que persistam detenções por períodos prolongados, “em situações indignas”.

Foto: Lusa/EPA

“Ainda que não seja uma detenção, oficialmente, é uma detenção de facto, como se pode ver na situação do campo de Moria que foi recentemente destruído pelo fogo”, precisa.

“Não vemos como é que o Pacto, tal como está agora, possa oferecer soluções para que estas situações não se repitam, pelo contrário”, acrescenta.

Para esta responsável, “o importante é colocar as pessoas em primeiro lugar”.

A comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Johansson, defendeu esta quinta-feira que os Estados europeus devem aumentar os repatriamentos de cidadãos estrangeiros em situação irregular para evitar um aumento do “populismo”.

Claudia Bonamini questiona esta solução, considerando que envia uma mensagem errada.

“Claro que não esperamos que toda a gente seja capaz de ficar, há regras – ainda que pensemos que deveria haver mais possibilidades de migração legal -, mas a forma como olhamos para as pessoas que chegam e querem ficar tem de ser completamente mudada”, refere à Agência ECCLESIA.

O novo Pacto sobre a Migração e o Asilo, segundo o executivo comunitário, visa englobar os elementos necessários para uma abordagem europeia abrangente da migração.

OC

 

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