Eugénia Quaresma assinala que é preciso «revestir a pessoa de dignidade», citando o Papa Francisco

 

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 13 nov 2020 (Ecclesia) – A diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações (OCPM) disse hoje que o “prioritário é salvar vidas”, em comentário a um resgaste de pessoas no Mar Mediterrâneo, durante o qual faleceu um bebé de seis meses, ao largo da costa da Líbia.

“É triste que continue a acontecer. É importante sublinhar e ter presente que prioritário é salvar vidas e quem salva vidas não pode ser criminalizado. É importantíssimo proteger os mais vulneráveis”, afirmou Eugénia Quaresma em declarações à Agência ECCLESIA.

A Organização Internacional para as Migrações, das Nações Unidas, contabilizou 74 vítimas num naufrágio, esta quarta-feira, ao largo da costa da Líbia, incluindo Josef, um bebé de seis meses, filho de uma mulher da Guiné; 47 pessoas sobreviveram, mas, no mesmo dia, outros 20 migrantes morreram num segundo naufrágio alertaram os ‘Médicos Sem Fronteiras’.

Segundo a agência da ONU, contam-se oito naufrágios desde o dia 1 de outubro e desde o início deste ano 900 pessoas afogaram-se no Mar Mediterrâneo quando tentavam chegar à Europa.

No Mediterrâneo está também um navio da ‘Open Arms’, organização espanhola de resgate de refugiados, que participou nestas operações de salvamento e tem agora 263 refugiados a bordo, divulga o sítio online ‘7 Margens’.

A diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações alertou para a “importância dos corredores humanitários, das vias legais e seguras” para os migrantes porque são mecanismo que “vão reduzir a margem de manobra dos traficantes e do crime organizado”, um trabalho a médio e longo prazo.

Eugénia Quaresma destacou que outro nível de atuação é na origem, é olhar para as causas, “o que é que faz com que estas pessoas corram estes riscos, que desespero é que está por trás, o que é que lhes está a faltar”, e investir na cooperação para o desenvolvimento que “é outra resposta”, bem como “conseguir acabar com o comércio de armas e investir a sério”.

“É preciso trabalhar na origem, é preciso trabalhar também para o desenvolvimento com os povos, envolver as pessoas, os políticos, neste desenvolvimento dos territórios para que a mobilidade humana não seja este drama para que as pessoas possam circular livremente e em segurança”, acrescentou.

Sobre o papel da Igreja Católica, a entrevistada destaca que tem “uma rede grande e bonita e que podia ser melhor aproveitada”, e trabalhar desde a origem, “para o desenvolvimento dos povos” e existem algumas congregações religiosas, fundações e voluntários que trabalham para esse desenvolvimento porque “tem que ser em rede e interligado”.

Já nos países de trânsito, onde passam as pessoas migrantes, a diretora da OCPM lembra que em alguns existem “campos de refugiados e se não fosse a presença da Igreja as pessoas estavam completamente abandonadas” e, neste contexto, o papel da Igreja é “humanizar um bocadinho aquele tempo de espera e é esse trabalho que alguns voluntários fazem”.

Eugénia Quaresma conclui assinalando que nos países de acolhimento, por exemplo, quando uma paróquia é chamada a acolher é preciso “não hostilizar, tem a possibilidade de pôr em prática o Evangelho, acolher o forasteiro, e, neste acolhimento, há vários passos que passam por escutar, conhecer a história”.

“Por revestir a pessoa de dignidade, uma expressão da ‘Fratelli Tutti que é muito bonita. E ajudá-la e contar com ela não só para o seu projeto pessoal mas também para o desenvolvimento da sociedade do nosso país, neste caso”, acrescentou.

Para a diretora da Obra Católica Portuguesa das Migrações, “o segredo é não hostilizar” porque é um tempo de “treinar e de exercitar a hospitalidade e todas as instituições podem envolver-se a diferentes níveis”, num setor que “é complexo, é transnacional”, e dependem “também das leis e da postura da União Europeia”, concluiu lembrando que há a proposta de um novo pacto das migrações que está a ser analisado.

CB/OC

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