OBRIGADO, FORÇAS ARMADAS E FORÇAS DE SEGURANÇA 

A todas e todos os elementos das Forças Armadas, Forças de Segurança, Familiares, Civis

Estamos a viver horas singulares provocadas por essa pandemia que, sem nossa permissão, se veio estabelecer no mundo, entrou na vida de cada um de nós e tomou conta de todas as nossas preocupações. De facto, tudo quanto se decide, tudo quanto se faz ou se deixa de fazer tem em vista a contenção dos seus devastadores efeitos. Este coronavírus não só não tem concorrente à altura, como parece ter-se constituído como absoluto, condicionando e determinando o andamento e funcionamento do mundo.

Desde os hábitos e rotinas pessoais, à atividade económica ou à escola, em todos os aspetos da vida comunitária e pessoal, esta pandemia tem um impacto sem precedentes. Por isso, é compreensível que, face a algo tão poderoso, os nossos sentimentos se embrenhem em misteriosas contradições, difíceis de entender e, mais ainda, de explicar.

Verificamos também que a alma humana se deixa tomar por atitudes díspares, por vezes até opostas, onde se nota a coexistência da desconfiança e da resiliência; do temor e da confiança; do desânimo e da coragem. Por vezes, uma lancinante e perturbadora preocupação, motivada pela incapacidade pessoal de controlar o futuro, coabita com o ardor da esperança que nos apazigua a alma, na certeza de que tudo irá correr bem e que, desta guerra, sairemos vencedores. E damos graças a Deus que assim seja! Os nossos cidadãos revelam uma impressionante capacidade de não capitularem, nem baixarem os braços. Há esperança em Portugal e nos portugueses, traduzida numa abertura e disponibilidade face ao presente e ao futuro.

Podemos dar graças a Deus por se manifestar, neste momento difícil, algo de verdadeiramente impressionante: apesar das contrariedades do momento, nota-se uma resiliência sem tréguas, não cedendo os portugueses à angústia e ao desespero. Em suma: existe confiança.

Caros Militares e Forças de Segurança, é também a este nível que o vosso contributo é realmente decisivo. Reconhecendo isso mesmo, gostaria de expressar o meu profundo agradecimento e a minha sentida gratidão. Portugal, pelo que foi e pelo que é, pelo que fez e pelo que faz, pela sua identidade e história, tem em vós um dos pilares mais permanentes de abnegação e esperança. Para além de todas as provas dadas ao longo de séculos de existência da nossa nação, continuais a agir em prol do bem de todos os portugueses. Sabei que vos estamos gratos pela disponibilidade, pelo vosso espírito de serviço, pela vossa abnegada dedicação, iluminando, assim, os caminhos escuros, onde a doença nos quer encerrar, com o fulgurante brilho de esperança.

1.Por isso, a primeira palavra é de agradecimento. O brado de Portugal inteiro eleva-se para o Alto, em ação de graças pelas suas Forças Armadas e Forças de Segurança. Comove-nos o altruísmo com que vos colocais na primeira linha para defender e proteger os portugueses. A vós se aplicam as palavras do Apóstolo “fazei-vos tudo a todos”, para salvar Portugal. Na verdade, para os doentes, fazeis-vos bons samaritanos (Lc 10, 25-37), aumentando a probabilidade de se curarem. Para os que correm perigo, encarnais o rosto do Bom Pastor (Lc 15, 3-6) que vai à procura de quem estava perdido, por se encontrar numa instituição que já lhe não pode valer. Sois hoje o bom pastor (Jo, 11-18) que pela defesa e proteção das suas ovelhas não deserta, mas enfrenta e corre todos os riscos para que ninguém sucumba ao perigo. Para os sem-abrigo, sois hoje como o Pai Misericordioso da parábola (Lc 15, 11-32), que acolhe, conforta e restabelece os “pródigos” desta vida que necessitam de pão, de um sorriso fraterno e de um rosto amigável.

2.Em segundo lugar, declaro a minha solidariedade e a da Igreja para convosco, Militares e mulheres e homens das Forças de Segurança. Como de forma linear têm ensinado os Papas, a solidariedade é um corpo composto por dois membros. Por um lado, o sentimento interior de partilha da situação do outro, como se fosse nossa. Por outro lado, a forte motivação para a ação, levando-nos a uma operosidade cujo fim é alcançar a solução para os problemas que atormentam o outro ou a comunidade. O protótipo da solidariedade é, certamente, Jesus Cristo, que assumiu a nossa condição e realizou a obra da nossa salvação, oferecendo a Sua vida em benefício de todos. Eis a beleza do Mistério Pascal que hoje vós testemunhais com a disponibilidade da vossa entrega ao serviço de todos.

Pois bem, caros Militares e Forças de Segurança, hoje toda a sociedade comunga da vossa situação, fá-la própria. Oxalá chegue a vós o quanto é forte a comunhão dos portugueses para convosco.

Mas também queremos dedicar-nos a uma obra efetiva de solidariedade que se revela, antes de mais, no facto de os cidadãos, na sua grande maioria, acatarem as vossas recomendações e ordens. Os portugueses hoje vivem a quarentena com o mesmo espírito de missão com que, ao longo da história, responderam à chamada para combaterem pelo seu país e pela sua Pátria. Não duvido que, se os nossos cidadãos fossem novamente chamados para se apresentarem na linha da frente, Portugal inteiro se levantaria e apresentar-se-ia para servir a Pátria e o bem comum.

Os portugueses amam Portugal. Essa dedicação manifesta-se no cumprimento das nossas obrigações, de acordo com o que nos é solicitado. Estamos todos a travar o mesmo combate e, por isso, estamos convosco. Mas há ainda algo mais. Rezamos por vós, caros Militares e Forças de Segurança. Estais presentes nas orações que o povo crente eleva para Deus. Por vós, pedimos auxílio e proteção. E como também estamos em período de Quaresma, é redobrada a forma como elevamos aos céus as nossas preces pelo bem e pelo sucesso da missão das Forças Armadas e Forças de Segurança.

3.Em terceiro lugar, gostaria de sublinhar a relevância do sentimento de esperança. Como já referi, hoje vós alimentais em Portugal essa luz divina que não nos deixa resvalar para o desânimo. São Paulo diz-nos que “Foi na esperança que fomos salvos” (Rm 8, 24) e o Papa Bento XVI comenta: «A “redenção”, a salvação, é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança, uma esperança fidedigna, graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros desta meta, se esta meta for tão grande que justifique a canseira do caminho” (Spe Salvi, 1). Portanto, a vitória sobre esta pandemia consegue-se quando, pelo heroico trabalho dos cientistas, dos profissionais de saúde, dos militares e agentes de segurança e de todos aqueles que continuam a garantir o sustento da vida, se mantém viva, presente e operacional a esperança. Esta é mais do que um sinal de salvação. Vai muito além de um mero indício de vitória sobre a ameaça. É parte integrante dessa salvação e é por ela que a salvação se realiza. Sem esperança não há cura, porque a cura é constituída precisamente pela esperança; integra a sua identidade. Assim, onde quer que a esperança se revele viva e atuante já se manifesta a salvação e a libertação de tudo quanto nos oprime e diminui. E vós atuais essa esperança e logo nos garantis que venceremos, pela graça de Deus.

Por isso, a dedicação com que pautais o vosso dia a dia, a total disponibilidade para servir onde e como é necessário, o espírito de sacrifício que demonstrais dão razões ao nosso sentimento patriótico, justificam e dão sentido à quarentena que estamos a observar e, fundamentalmente, alimentam-nos na confiança, ajudando-nos a cultivar a vida, com a luz do vosso exemplo e com a força da vossa total abnegação.

Este ano, a Páscoa de Jesus, a passagem da morte para a vida, a Ressurreição, está a acontecer e a celebrar-se em tantos lugares do mundo e em tantas histórias de vida, como na vossa, caros Militares e Forças de Segurança em que ofereceis a vossa vida pela vida dos outros. Aí a força do vosso espírito de sacrifício suplanta os poderes da morte. Aí o brilho da luz vence as trevas.

Obrigado, boa Missão, uma Santa Páscoa, bem hajam.

+ Rui Valério, Bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

02 de abril de 2020

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