Pandemia levou Pároco de Alhos Vedros a criar gabinete de apoio ao luto e trabalhar para uma Igreja mais próxima do sofrimento das pessoas

Alhos Vedros, 26 mar 2021 (Ecclesia) – A pandemia alterou a rotina do padre Nuno Pacheco, pároco de Alhos Vedros e Santo André (Diocese de Setúbal), que chegou a ir cinco vezes ao cemitério, no mesmo dia, sublinhando a importância de um maior cuidado pastoral para a celebração das exéquias.

“Nós vivemos a partir da experiência do túmulo vazio, mas é a morte que nos ajuda a interpretar o sentido da nossa existência” reconhece o sacerdote que, nestes últimos meses, afirma ter vivido “tempos duros”.

A conversa desta sexta-feira encerra o ciclo dedicado às “Memórias que Contam”, com que a Agência ECCLESIA evocou as vítimas da pandemia, durante esta Quaresma.

Perante o sofrimento provocado pela Covid-19, o padre Nuno Pacheco entendeu que havia um campo de intervenção pastoral que precisava de mais atenção: “A grande experiência desta pandemia foi a proximidade com as pessoas que sofriam”.

Este sacerdote dehoniano, em serviço pastoral na Diocese de Setúbal, recorda que, apesar de não poder “estar junto”, nunca deixou de “estar próximo das pessoas”.

Nesse sentido, destaca o trabalho de reinvenção que operou na sua comunidade ao criar um gabinete de apoio ao luto.

Um projeto que conta com o envolvimento do sacerdote, de uma psicóloga e de uma médica neurologista.

“São três jovens na casa dos 30, que ganharam esta sensibilidade e quiseram pôr a render os seus dons na comunidade” diz o padre Nuno.

Perante as regras apertadas de segurança sanitária, que esvaziaram os funerais do contacto humano, este sacerdote lembra que “o luto é um processo que, nestes tempos está a ser retirado às pessoas”.

Este padre na margem sul do tejo, lembra que “um momento de dor pode ser transformador na vida das pessoas se eles perceberem que esse momento é acompanhado de forma verdadeira”.

“Não podemos ir à pressa fazer celebrações a despachar” afirma o padre Nuno Pacheco que está convencido de que se o sacerdote não for cuidadoso, “os seus gestos marcam, mas pela negativa”.

O entrevistado considera que o momento da morte é, para a Igreja, uma ocasião de primeiro anúncio e recorda as pessoas que se afastaram da Igreja por algum motivo, mas que, nestes momentos, regressam para se despedir de um amigo.

“Esta é uma oportunidade para serenar, de fazer as pazes e oferecer um outro rosto da Igreja. Se fizermos isto, nós tocamos”, sustenta.

O religioso lamenta que em muitas comunidades ainda não se assuma este momento como uma prioridade pastoral.

“Desde capelas mortuárias com pouca dignidade, ao uso dos paramentos mais velhos nessas ocasiões, os livros mais gastos…  parece haver menos cuidado”, observa.

HM/OC

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