José Luís Gonçalves

Existem realidades intangíveis e silenciosas que nos escapam e que só começam a ganhar contornos reais quando são nomeadas adquirindo, então, existência real. Refletindo, pois, sobre a vaga de refugiados-migrantes mais recente e as reações de rejeição com que certa opinião pública, discurso e prática política europeia a enfrentam, Adela Cortina, professora de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valencia, interrogava-se sobre se as sociedades europeias seriam, de facto, racistas, xenófobas ou islamofóbicas. Rapidamente constata que, quando os estrangeiros são pessoas qualificadas, talentosas ou com recursos – exemplos dos futebolistas ou dos turistas ricos -, a reação é de hospitalidade e não de hostilidade. A aversão aos refugiados não se prende, pois, com o seu país de origem, a sua religião ou cultura; o que verdadeiramente provoca a rejeição aos refugiados-migrantes é o facto de não terem nada para oferecer em troca às nossas populações, o de serem pobres, o de constituírem um fardo…

Sob esta perspetiva, a filósofa cunhou, há mais de 20 anos, a palavra “aporofobia”. Este neologismo, construído a partir de duas palavras gregas (“aporo” = pobre e “fobia” = medo/temor), dá título ao seu livro “Aporofobia, el rechazo al pobre. Un desafío para la democracia”. A rejeição aos pobres não constitui um fenómeno recente, mas uma verdadeira patologia social que, quando aplicada à realidade dos refugiados-migrantes, nos ajuda a avaliar sob uma luz nova as reações nacional-populistas que proliferam por essa Europa fora. “Aporofobia” significa, pois, medo e rejeição do pobre, do desvalido ou desamparado, das pessoas sem recursos que são todas aquelas que, na vida social, não contam para nada porque não conseguem jogar o jogo político (ter voz efetiva), económico (possuir bens de troca) ou cultural (afirmar positivamente a sua identidade) de ter algo para oferecer, condição do seu reconhecimento como iguais, que se baseia na ideia de que alguém tem valor quando tem algo para dar em troca numa relação. E os pobres nada têm para oferecer, a não ser a sua condição vulnerável. No dizer da autora, “o que incomoda, primeiro nos imigrantes, e depois nos refugiados, não é que sejam estrangeiros, mas que sejam pobres”… Há realidades invisíveis e silenciosas que precisam, mais cedo ou mais tarde, de adquirir nome e de serem pronunciadas para se tornarem significativas e, assim, desmascararem uma construção psicossocial inconsciente que se instala no viver coletivo.

A análise interdisciplinar acutilante que a autora realiza nesta obra pretende, por um lado, identificar as origens e as expressões de um sentimento profundamente arraigado que, convenientemente manipulado perante a opinião pública, se tornou “num problema político e num desafio para a democracia”. Por outro lado, deseja que esta análise crítica contribua para enfrentar a aporofobia humana (reafirmando-se o valor incondicional da dignidade de cada pessoa), democrática (através do combate às desigualdades em nome da justiça social) e social (evitando que o reconhecimento e estima social fiquem reféns das realizações individuais) instaladas invisivelmente nas nossas sociedades. Em nome da decência, convida todos a um processo de transformação que passa pela educação para a compaixão (com passio = sentir com, sentir visceralmente a dor do outro como minha) cultivando a sensibilidade e o olhar lúcido para praticar a hospitalidade radical de acolher o que cada pessoa é na sua singularidade, independentemente da sua condição, mesmo que esta pessoa não tenha nada para oferecer em troca a não ser a si mesma e ao seu desamparo. Na sua opinião, “a rejeição dos pobres implica sempre uma atitude de superioridade e geralmente inclui a culpa da vítima.” Onde já ouvimos isto?

 

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