Tony Neves

Começa hoje o mês missionário. O Papa Francisco, na mensagem para o Dia Mundial das Missões vai buscar inspiração no livro dos Actos dos Apóstolos quando, ameaçados de prisão e morte, os discípulos respondem: ‘Não podemos calar o que vimos e ouvimos’ (Act 4, 20). Ora, o risco da missão, que vem dos inícios, continua bem aceso em muitas partes do mundo. Um dos casos mais mediatizados em Itália, recentemente, é o do P. Luigi Maccali, da Sociedade das Missões Africanas. Tive a alegria e felicidade de o ter encontrado e de ter ouvido, da sua própria boca, a narrativa do rapto de que foi vítima.

O P. Luigi foi raptado por jihadistas no Níger e levado para o Mali. Ali viveria em pleno deserto, com algemas nos pés, sem poder falar com ninguém, durante mais de dois anos. Com a oração do Rosário e a Sequência do Espírito Santo, aguentou firme até à hora de uma libertação que tardava em chegar. Pensando que cada dia seria o último, estava preparado para tudo. Percebeu, mais tarde, que o queriam como moeda de troca com outros prisioneiros. Como resultado da diplomacia italiana seria liberto, fazendo suspirar de alívio a sua família, confrades e amigos…e, claro está, ele mesmo!

Tudo começou a 17 de setembro de 2018 na Missão de Bomoanga, no Níger, perto da fronteira com o Burkina Faso. O P. Luigi foi raptado durante a noite. A área era isolada, mas aparentemente calma. Um grupo de jihadistas armados entrou na Missão e levaram-no à força, em pijama. A sua via-sacra como refém durou até 8 de outubro de 2020, data da libertação.

Fiquei marcado pela forma serena com que contou esta história sempre com um sorriso nos lábios e a fazer transparecer uma Fé à prova de tudo. Primeiro andou quilómetros e quilómetros de moto, atravessando a fronteira para o Burkina e, depois de cruzar o país, chegaria ao Mali, em pleno deserto do Sahará. A última parte da viagem já a fez de carro. Confessa que foi o momento mais dramático do longo cativeiro pois, naquele 5 de outubro, foi algemado e atado a uma árvore. Pensou que era o fim…

Estava constantemente vigiado por jovens armados com quem não havia grande lugar para conversa. Esteve sem celebrar a Eucaristia desde o rapto até à libertação. Sentiu que foi a Fé que lhe deu esperança e razões para acreditar na libertação. Todos os dias rezava o rosário e a Sequência do Espírito Santo, orações que sabia de cor. O Espírito Santo e Maria foram os seus companheiros nesta viagem que tinha todos os condimentos para terminar em tragédia.

Foi a 7 de outubro que lhe deram a notícia da libertação: Solenidade da Senhora do Rosário. Soube, ao chegar a Italia, que a sua família, a paróquia e tantos milhares de pessoas por esse mundo fora, tinham rezado sem interrupção pela sua libertação. A sua mãe, ao abraça-lo, confessou que rezou dia e noite a Nossa Senhora e tinha a certeza absoluta de que o filho ia regressar são e salvo! Por isso, sentiu a obrigação de se deslocar a Fátima, para agradecer à Senhora do Rosário esta graça de estar vivo e sempre em missão. Fê-lo a 1 de agosto, visitando, de seguida a Casa Provincial dos Espiritanos em Lisboa.

Descobriu, com espanto e alegria, que estes dois anos em que não fez nada foram os mais fecundos da sua vida missionária, tal a quantidade de dinamismos de oração e solidariedade que o rapto gerou, um pouco por todo o mundo, desde a sua Itália natal até à China, envolvendo gente que nunca conheceu nem conhecerá.

Ao fazer o balanço destes anos, confessa que o que o mais fez sofrer foi a total ausência de comunicação: ele estava vivo, mas a sua família, confrades e amigos não o sabiam. E a angústia aumentava cada dia que passava e isso fez muito mal a todos, sobretudo aos familiares mais directos e aos confrades.

No fim do nosso encontro na Casa Provincial dos Espiritanos, tomamos um porto a acompanhar um bolo e descemos à Capela onde o P. Luigi presidiu a uma breve oração de acção de graças. A sua escolha recaiu sobre a Sequência do Espírito Santo e o Magnificat de Nossa Senhora.

Na hora de partir, tirou da mochila um pequeníssimo saco e mostrou-nos as três únicas coisas que conseguiu trazer do cativeiro para Itália: uma cruz feita de dois paus que encaixam; um rosário feito de um pano que lhe cobria a cabeça do sol ardente do deserto; um elo da cadeia com que esteve preso durante quase dois anos…

Agora, o que mais lhe apetecia fazer era regressar ao Níger, à sua Missão e abraçar um por um os seus paroquianos e amigos. Mas a situação continua tensa e ele está proibido de o fazer. Assim, irá ficar um ano por Itália, a recuperar a saúde (regressou magríssimo) e a avaliar e partilhar a sua experiência. Depois, os superiores saberão para onde o enviar em Missão, pois ele está pronto para partir rumo à missão onde for mais necessário.

Estou já na Tanzânia e o Capítulo Geral dos Espiritanos começa agora. Outubro vai ser mais um mês profundamente missionário.

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