Tony Neves

Vivi a última Páscoa em Moçambique. Os últimos e trágicos acontecimentos, provocados pelo ciclone Idai, sobretudo na Beira, têm-me feito sofrer muito. Celebrei nas periferias desta cidade o Domingo de Ramos e a Quinta-Feira Santa.

Um ano depois, a intempérie não poupou esta pobre gente. O P. Albert Wulfu, missionário espiritano na Beira, partilhou o drama que se viveu na região nos dias 14 e 15 de março… e que se continua a viver. Ninguém se lembra de nada parecido na história do país. Pessoas morreram, muitíssimas estão desalojadas e com fome.

Escreveu: ‘Foi uma noite barulhenta, tensa e longa. O vento começou por volta das 9 horas de quinta-feira, 14 de março. Quando o vento aumentou, pelas 19 horas, já estava tudo na escuridão e sem meios de comunicação. As pessoas cujas casas começaram a desabar correram para um local seguro, algumas das quais com ferimentos. À meia-noite, o tempo acalmou, mas por pouco tempo. Ouviam-se os gritos daqueles que pensavam que era o fim. Pela uma hora da manhã, o vento atingiu o máximo, com velocidade de 220 km/h, de acordo com os meteorologistas. Neste ponto, casas foram abaladas, árvores caíram e vidros quebraram, as telhas voaram e edifícios ruíram. Na minha vida, foi a primeira vez que tive uma catástrofe natural de tal magnitude, e foi de fato desastrosa’.

Dias depois, o P. Tchindemba, Responsável máximo dos Espiritanos em Moçambique, a residir em Nampula, conseguiu chegar à Beira com apoio financeiro. E escreveu: ‘Os colegas padres estão vivos e passam horas a fio a identificar e alistar as pessoas que precisam urgentemente de assistência. Eles levaram-me a um centro de acolhimento de pessoas afetadas pelo ciclone que fica na Escola Primária de Inhamizua, perto da nossa casa. Aqui tive a oportunidade de ver as pessoas que ficaram sem tecto e sem pão, completamente entregues ao cuidado das ONGs e de algumas pessoas singulares que trazem alguma coisa para ajudar os mais necessitados’.

E completou: ‘Percorrendo a cidade e o bairro onde se encontra a nossa Paróquia, vi casas completamente arrasadas pelo ciclone… árvores caídas, postes de eletricidade no chão, movimento de pessoas a apanhar metades de chapas de zinco para cobrir as suas casas, paredes caídas. No bairro onde está a nossa Paróquia vi ainda situações tristes e dramáticas de gente que precisa com urgência de alimentos e de um lugar digno para reclinar a cabeça. A nossa Igreja Paroquial não foi poupada. Muitas chapas que cobriam a Igreja foram levadas pela fúria do ciclone’.

Mas…a esta paixão e morte estão a abrir-se caminhos de Páscoa. A onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe natural.  Sim, quando os corações se abrem e as pessoas se sentem irmãs, a partilha acontece e o futuro volta a desenhar-se com esperança e vida.

É assim a Páscoa de Cristo. Assim tem de ser a nossa Páscoa!

Feliz Páscoa!

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