Tony Neves, em Roma

Os últimos dias foram marcantes para Angola. No melhor e no pior. Olhando primeiro o lado bom da história, Angola ficou positivamente marcada por uma Assembleia Plenária dos Bispos Católicos (24.02 a 1.3.2021). Realizada no Santuário emblemático de Nossa Senhora da Muxíma, nas margens do Rio Kuanza, esta Reunião reflectiu, decidiu e publicou uma ‘Mensagem Pastoral sobre o momento actual’ que mostra que a Igreja Católica partilha o dia a dia do povo e, por isso, com lucidez faz a análise do que vai acontecendo, elogiando o bom e denunciando o que prejudica a vida das populações, sobretudo as mais pobres e abandonadas. ‘Angola, Casa de Paz, Liberdade e Fraternidade’ é o título deste documento da CEAST que vale a pena ler e dele tirar as conclusões e recomendações dos Bispos.

Olhando ainda o lado bom, fiquei muito feliz com a nomeação de D. Joaquim Tyombe para o Uíge, sendo ele o primeiro Bispo oriundo da etnia Nyaneka-Humbi. Também é bom ouvir que Angola terá, num futuro próximo, diversas novas Dioceses.

Mas… a 18 de março, véspera da festa de S. José, celebraram-se dois tristes funerais em Angola. Dois missionários estrangeiros foram barbaramente mortos, nas periferias de Luanda e do Huambo. A 7 de março, o P. Manuel Veiga, Missionário Xaveriano de Yarumal, colombiano de 36 anos, foi morto a golpes de faca, em Viana, cidade satélite da capital, quando estacionava o carro. Uma semana mais tarde, o P. César Sacramento, Claretiano de S. Tomé e Príncipe, foi morto a tiro, nas imediações da cidade do Huambo, durante uma tentativa de assalto. Tinha 43 anos. Pelos nomes, ambos podiam ser lusófonos, mas não eram. Pelo estatuto de ‘missionários estrangeiros’, ambos podiam ser europeus ou da América do Norte, mas não: um africano e outro latino americano. Ambos seriam vítimas da instabilidade social que o país atravessa, por muitas razões que os Bispos bem explicam na Mensagem Pastoral que aponta caminhos novos para este país a quem, recentemente (não falo de causas mais antigas) a guerra, a corrupção e a pandemia roubaram futuro às populações mais fragilizadas.

As palavras de abertura de D. Filomeno Vieira Dias, Presidente da CEAST, explicaram logo para onde apontariam os tiros desta Assembleia: a solidariedade para com as vítimas da pandemia e o apoio e apreço a quem luta contra ela; uma Igreja serva dos pobres e comprometida com eles no combate à pobreza e fome; a necessidade de uma convivência social mais sã que assegure a paz e a reconciliação nacional; a urgência da cultura do encontro que permite a cada angolano abraçar qualquer outro angolano como irmão.

Em onze pontos, os Bispos mostram a sua análise sobre o momento que os angolanos vivem, com luzes e sombras, denunciando males e propondo caminhos de solução para os muitos problemas que asfixiam a vida do povo. Para tal análise, servem-se dos relatórios das Dioceses e da vida quotidiana dos angolanos. Assim, afirmam: ‘continua a agudizar-se a situação social do país, com níveis elevados de pobreza, fome, desemprego, perda acentuada do poder de compra e encerramento de empresas’. Também as chuvas faltam ou são irregulares, o que torna necessário um urgente ‘plano de contingência’ para combater a fome e apoiar as pessoas deslocadas por causa da seca. É preciso investir mais numa ‘segurança social’ que funcione em todo o país, defendendo os trabalhadores e os pobres. Há uma degradação do discurso político que põe em perigo a unidade nacional, a reconciliação, a justiça e a paz. As ‘assimetrias entre as populações peri-urbanas e as urbanas, as do campo e as das grandes cidades, as do leste e as do litoral’ estão cada vez mais agudas, o que torna urgente fazer algo para ‘ultrapassar este escândalo’.

Os Bispos fazem denúncias claras de acontecimentos inadmissíveis num Estado democrático quando ‘deploram e condenam os actos de violência que resultaram em mortes e violações clamorosas e incompreensíveis dos direitos humanos na vila de Cafunfo’.

As perspetivas de ecologia integral também estão presentes no Comunicado Final onde está escrito de forma clara: ‘Com grande e grave preocupação assiste-se a uma corrida desenfreada pela exploração de hidro-carbonetos em áreas sensíveis como parques e reservas naturais, colocando em risco a biodiversidade e a sobrevivência das populações’. Na Mensagem, os Bispos afirmam ainda: ‘encorajamos todos os angolanos de boa vontade a resistirem contra a continuação da destruição da natureza, sob pena de comprometermos gravemente a vida dos nossos descendentes’.

Assim, com lucidez, coragem e compromisso, a Igreja quer que se defendam os interesses comuns da Nação, que se giram bem as diferenças, se incentive o diálogo e se erga ‘Angola como casa da Fraternidade’.

Que estes tempos de paixão conduzam à Páscoa da Ressurreição. Santa Páscoa.

 

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