Tony Neves

Padre Tony Neves junto à estátua do padre Alves Correia, em Aguiar de Sousa (Diocese do Porto)

É um dos pais da democracia portuguesa este padre Espiritano que morreu exilado nos Estados Unidos em 1951. Assim o chamou o Presidente da República, Dr. Mário Soares, quando o condecorou a título póstumo.

Os que com ele conviveram falam de um padre culto, bem relacionado, mas muito sensível à falta de liberdade e democracia dos tempos em que ele viveu. Amigo dos pobres, socorreu muitos, não só dando esmolas mas também arranjando empregos e possibilitando estudos. Foi a escrita, contundente e corajosa, que atiçou os ódios de quem queria manter a pobreza das pessoas e limitar a liberdade de expressão. ‘De que Espírito somos?’ e ‘A largueza do Reino de Deus’ são as suas obras mais emblemáticas. Seria, pelo que dizia e pelo que fez na sua luta contra a pobreza que as portas do exílio foram abertas de par em par.

Quando cheguei a Lisboa, encontrava com frequência o Sr António Solha e a sua esposa a cozinhar na nossa comunidade nos fins de semana. Eles sentiam-se em casa e eles, para os Espiritanos, eram família. Por isso, sempre que havia festas ou passeios comunitários, lá estava este casal idoso, mas sempre feliz com o que acontecia aos Espiritanos. Vim a saber, mais tarde, que a mãe do Sr. António era cozinheira lá em casa e o miúdo cresceu por ali. O P. Alves Correia, sempre atento, apoiou muito esta família pobre e, logo que a idade o permitiu, conseguiu um bom emprego para o António. Quando decidiu casar com o Dª Ana, logo convidou o P. Correia para presidir ao casamento, convencido de que o exílio nos EUA já não fazia sentido. Infelizmente, este grande Espiritano morreria na Comunidade Espiritana de Duquesne, em Pittsburg, onde a Congregação do Espírito Santo dirige uma grande Universidade que contou com ele para professor. Ali seria sepultado. Assisti, vezes sem conta, ao mesmo ritual: o Sr. António chegava à Casa dos Espiritanos, na Estrela, em Lisboa, ia ao jardim que tem o nome e um busto do P. Alves Correia, abraçava-o, punha-lhe flores e rezava num silêncio que ninguém ousava cortar. Depois, descia à cozinha e começava o seu trabalho.

Também o Irmão Nuno, o Espiritano que furou o cerco e foi despedir-se dele ao aeroporto quando partiu para o exílio, falava muito deste santo amigo dos pobres. Eram muitas as referências que ele fazia à vida e missão do P. Alves Correia.

O P. Francisco Lopes, escritor, escreveria uma biografia que foi apresentada na Universidade católica em Lisboa. Figuras como o Dr. Mário Soares, os Profs Braga da Cruz, Matos Ferreira e Anselmo Borges concordaram que o P. Alves Correia é um dos pais da democracia portuguesa e uma das figuras mais lúcidas da primeira metade do século XX.

Por sugestão de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, colocaram um busto no cimo da falésia que dá beleza ao pequeno santuário da Senhora do Salto, em Aguiar de Sousa – Paredes, terra natal do P. Alves Correia. Ali se perpetua a figura grande deste padre-missionário que marcou gerações e viu surgir numerosas vocações à vida sacerdotal, religiosa e missionária.

A imagem de bronze foi roubada por bandidos. Há meses foi reposta uma réplica de pedra, à prova de roubo, perpetuando a vida e missão deste homem cuja vida tem de ser mais conhecida para inspirar e marcar os tempos que correm.

Tony Neves

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