Tony Neves, em Roma
Há que salvaguardar o humano na transformação – defende Leão XIV na ‘Magnifica Humanitas’. A Verdade é apresentada como bem comum, aliada da democracia que, muitas vezes com a ajuda da Inteligência Artificial, enfrenta a desinformação. Pelo que ‘só a busca partilhada da verdade factual, assumida como bem comum, pode dar origem a uma correta comunicação’ (nº132). Assim, ‘uma sociedade é nobre e respeitável, nomeadamente porque cultiva a busca da verdade e pelo seu apego às verdades fundamentais’ (nº133).
É fundamental a promoção de uma ‘ecologia da comunicação’ através de normas transparentes, de um jornalismo sério e de uma consciência educativa a cultivar pela escola, pela família, pela universidade. Também ‘as comunidades cristãs devem empenhar-se numa comunicação transparente e na busca fiel da verdade dos factos’ (nº138).
Se é importante a educação para uma correta utilização da IA, também ‘devemos educar-nos ao jejum da IA e proteger os nossos jovens das promessas da máquina perfeita, daquela subtil sedução que parece tornar o pensamento humano inútil precisamente quando é mais necessário’ (nº140). Há que lutar contra todas as formas de bullying e ciberbullying.
A escola é central na busca da verdade. O primeiro desafio é sociopolítico, com a exigência de combate às ‘fortes desigualdades no acesso à escolaridade’ (nº144). O segundo é pedagógico, com exigências de atualização para ‘garantir um crescimento integral dos alunos’ (nº145). O terceiro é intelectual e sapiencial, promovendo ‘uma verdadeira higiene da atenção: ritmos que prevejam silêncio, estudo aprofundado, leitura, debate ponderado’ (nº146). Pede-se uma renovada aliança educativa, pois ‘a escola não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer aquilo que o digital, por si só, não consegue: tempo partilhado para aprender e relações de confiança’ (nº147).
A dignidade do trabalho na transição digital lembra que ‘é necessário conceber sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho’ (nº150). Há que combater o drama do desemprego, nesta ‘quarta revolução industrial’: ‘a DSI insiste que o acesso ao trabalho deve continuar a ser um objetivo prioritário das políticas públicas e dos processos económicos, um critério para avaliar a qualidade humana de um modelo de desenvolvimento’ (nº154). Há que proteger os trabalhadores, dignificar o trabalho e ter em conta que ‘a liberdade económica não é absoluta e deve ser avaliada à luz do bem comum e da dignidade de cada pessoa’ (nº157). Também há que evitar que as crises económicas e financeiras penalizem sempre os mais pobres.
Olhando o mundo, o Papa conclui: ‘a riqueza mundial cresceu em termos absolutos, mas intensificou-se a concentração nas mãos de poucos e aumentaram os desequilíbrios, tanto entre países como no interior dum mesmo país: poucos possuem demais e muitos possuem pouco, esta é a lógica de hoje’ (nº161).
A família é um bem social primário, ‘célula fundamental e insubstituível de toda a organização comunitária’ (nº165), muito atacada pelo desemprego e precaridade laboral, sobretudo os jovens.
A IA exige a salvaguarda da liberdade contra a dependência e a mercantilização. Há que educar para a sobriedade digital, proteção dos menores e combate a modelos que prosperam à custa da vulnerabilidade. Há que ter ainda cuidado com o risco de controlo social e das novas formas de escravatura, causadas e alimentadas por organizações criminosas: ‘a luta contra as novas formas de escravatura é um teste decisivo para o discernimento ético da IA e da transformação digital’ (nº174). O colonialismo tem hoje um rosto inédito e ‘as novas formas de escravatura alimentam-se de cadeias económicas e infraestruturas digitais’. Há que passar ‘dum espaço predatório a um espaço de proteção, prevenção e promoção da dignidade’ (nº179).
A próxima crónica abordará o capítulo V sobre a cultura do poder e a civilização do amor.
Tony Neves, em Roma
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