Tony Neves, em Lisboa

As Igrejas Cristãs do mundo inteiro celebram, de 1 de Setembro a 4 de Outubro, o Tempo da Criação. Os líderes das Igrejas chamam a atenção do mundo inteiro para o facto de a Criação ser um presente de Deus para a humanidade e para todos os seres vivos.

Cada vez é mais evidente que, na Terra, tudo está interligado. Mas também parece claro que os humanos têm sido mais coveiros que jardineiros e, por isso, a Terra está a tornar-se inabitável, tal a dimensão dos atentados que os humanos praticam. As alterações climáticas são apenas um grito da terra e um sinal de alerta ao qual ninguém pode permanecer surdo. Há que intervir agora, há que mudar.

Este ‘Tempo da Criação’ é rico de iniciativas e celebrações. As mensagens que foram surgindo pedem que todo o mundo tome mais a sério as propostas gravadas nas páginas da ‘Laudato Si’ do Papa Francisco e que se ponham em prática as orientações das Cimeiras do Clima, no que diz respeito ao urgente combate às alterações climáticas.

O Papa Francisco disse há dias que nós estamos a usar as riquezas da Terra como quem espreme uma laranja. É uma imagem dura, mas justa e interpeladora. Por isso, este Tempo pede uma conversão ecológica integral. No documento ‘Laudato Si’ é esta postura que se exige: amar os pobres e proteger a Terra.

Faz-se apelo a um estilo de vida mais simples e sóbrio que evite desperdício e lixo e permita mais solidariedade. Os indicadores continuam a mostrar ao mundo que não há falta de bens alimentares. Mas, ao mesmo tempo, as estatísticas são claras e demolidoras: há muita fome e subnutrição. Então, falha o quê? A justa distribuição dos bens alimentares. Há quem os consuma em exagero e, sobretudo, há muito desperdício, com toneladas e toneladas de comida nos caixotes do lixo. Trata-se de um crime de bradar aos céus… exige-se uma conversão à fraternidade.

É urgente ainda reduzir as emissões de gazes que provocam o efeito de estufa, abrindo ainda mais o buraco de ozono. É necessário produzir menos lixo: há que reciclar, reutilizar… As energias deveriam ser mais renováveis e limpas. As águas não podem ser poluídas. As florestas têm que escapar aos incêndios que devoram a natureza. Os plásticos e outros derivados do petróleo têm de dar lugar a produtos mais biodegradáveis. Há que plantar mais árvores. É preciso ir fugindo de certos adubos e pesticidas que nos ‘envenenam’ e matam abelhas e outras espécies fundamentais para a polinização e equilíbrio ecológico…

Mas não podemos nunca esquecer que o melhor do mundo são as pessoas. Há que investir mais e melhor nas condições de vida digna, apostando numa fraternidade sem fronteiras. Estes tempos da covid obrigam-nos a repensar a vida, a reorientar os nossos calendários, a investir mais no essencial, a rezar mais e melhor. Temos que sair desta pandemia mais fortes e mais solidários, com a convicção de que percebemos melhor o que é essencial.

O ‘Tempo da Criação’ surgiu em 1989, quando o Patriarca Ecuménico Dimitrios I proclamou o dia 1 de setembro, que assinala o início do Ano Litúrgico para os ortodoxos,  como um dia de oração pela Criação. O Conselho Mundial das Igrejas estendeu depois este tempo até ao dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, e o Papa Francisco acolheu esta iniciativa na Igreja Católica em 2015.

São inumeráveis as iniciativas lançadas para viver este ‘Tempo’ com profundidade. E todos não seremos demais para dar um passo em frente no compromisso por uma Terra mais habitável e mais fraterna. Vivamos intensamente este ‘tempo da Criação’ e demos o nosso contributo cristão para que a Terra seja mesmo a ‘Casa comum’ de todos.

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