Foi há um ano, neste 3 de julho. Estava eu em Paris numa reunião mundial dos Espiritanos quando os colegas me começam a informar que o Diogo Jota, do Liverpool, morreu. Eu sorrio – perante o que considerava ser ignorância deles – e explico-lhes que não: ‘o Diogo casou na Igreja!’. Mas, a insistência de outros levou-me à internet onde a dramática notícia estava já em todas as redes: o Diogo e o André foram vítimas de um brutal acidente rodoviário.
Foi neste ambiente internacional – a minha Família Missionária está em 62 países dos cinco Continentes – que percebi quanto o Diogo era conhecido e respeitado. Foi também nessas horas que partilhei o drama das esposas, dos pais, avós, outros familiares, colegas de profissão e numerosos amigos.
Nunca é demais relembrar que o pai e avós paternos do Diogo e do André nasceram e cresceram na minha rua: a Rua de S. Ovídio. Os avós e outros familiares ainda ali vivem. Por isso, o choque destas mortes foi ainda mais sentido, mais brutal, pondo toda a nossa aldeia de Jancido em estado de choque.
Quando regressei a Portugal, marcamos uma Missa de Mês, na Capela de Jancido. O Grupo Coral preparou uma celebração muito vivida e eu próprio fiquei impressionado com o ambiente criado dentro e fora das quatro paredes desta grande Igreja, tal a multidão que ali se congregou. Nos bancos da frente, podíamos ver os rostos doridos e molhados das viúvas, pais, avós e outras pessoas muito próximas da família. Foi um grande momento celebrativo que, espero, também tenha servido de consolo espiritual para esta família tão dramaticamente marcada pela partida precoce destes dois irmãos, únicos filhos da Isabel e do Quim Zé. Falamos no fim da Missa e fomos trocando, todas as semanas, mensagens nas redes.
Os media e as redes sociais não pararam de mostrar ao mundo estes dois jovens. Na nossa aldeia de Jancido, publicaram-se fotos com o Diogo e o André a acompanhar o pai em treinos e jogos do Sousense, clube onde toda a família – desde o tempo do avô – jogou. As festas da aldeia – o S. Ovídio – foram em memória e honra destes manos tão violentamente desaparecidos.
O tempo foi passando, multiplicaram-se homenagens em Portugal e na Inglaterra, salientando-se a riqueza humana destes manos que, desde muito cedo, apostaram todo o seu futuro no futebol.
O mundo inteiro prestou-lhes homenagem no Mundial de Futebol, com a presença destes pais no Portugal – R. D. Congo, jogo de inauguração da presença portuguesa, em Houston, nos EUA. Alguns dias mais tarde, encontrei o Quim Zé num funeral na nossa aldeia natal e lá fomos falando das homenagens aos filhos que não pagam a dor das suas partidas tão violentas como prematuras.
Muito se disse e escreveu, publicaram-se reportagens sem conta, a seleção nacional de futebol usou uma pulseira em sua homenagem… mas o que mais me sensibilizou foi o livro coordenado pelo José Manuel Delgado sobre o Diogo (e o André), recentemente dado à estampa, com o estatuto de biografia oficial.
Ofereceram-me e li-o num fôlego, aproveitando a longa viagem Lisboa – Luanda – Maputo. O tema foi assunto de conversas com os meus colegas missionários, originários de muitos países, desde a França, à Rep. Democrática do Congo, de Angola à Irlanda, de Moçambique à Tanzânia, da França à Zâmbia, da Nigéria a Portugal… todos conheciam e admiravam o Diogo e todos ficaram chocados com a morte dele e do André. No Prefácio, Pedro Proença (Presidente da Federação Portuguesa de Futebol) explica tudo: ‘a despedida foi dura para a família, para os amigos, para os colegas, para os clubes e para os seus adeptos… para a sua terra natal e para os locais onde viviam…para Portugal’ (p.7).
Diogo e André eram dois jovens de sucesso, cujas vidas foram ceifadas em segundos. Deles ficam a capacidade de lutar e pôr a render os talentos que Deus lhes deu. Estão nos braços de Deus em quem acreditavam, no colo da Mãe de Fátima onde sempre peregrinavam e rezavam.
Que Deus os abrace e console os pais, viúvas, filhos, avós e restantes familiares e amigos que vão, pela vida fora, transportar nos corações este duplo sentimento: a dor da trágica partida mas – e sobretudo – a gratidão pela humanidade destes jovens cujos talentos foram postos a render.
Tony Neves, em Matola – Maputo
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