Tony Neves, em Roma

Sophia foi muito citada estes dias, por gentes de todas as cores políticas, e com razão. Gosto muito da sua poesia, inspiro-me na sua lucidez política e religiosa, provoca-me sempre o seu conceito de cidadania responsável, fascina-me a sua cultura plural. Tenho citado, sobretudo nos últimos tempos, muitos dos seus poemas. Este pequeníssimo texto, escrito sobre o 25 de abril de 1974, ainda tem muito que ecoar para ser posto em prática na sua plenitude de sentido. Escreveu: ‘Esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio / e livres habitamos a substância do tempo’.  Abril está muito por cumprir, o mesmo se diga do 1º de Maio que deveria dar vez e voz a todos os trabalhadores para que este direito e dever humano (de colaborar com Deus na obra da criação) tenha aplicação na vida quotidiana de todos os cidadãos do mundo.

A vida já era complicada demais para os mais pobres e, de repente, cai-nos em cima um vírus como este covid que virou o mundo do avesso, destruindo em poucos dias algumas certezas e práticas que se cimentaram ao longo de séculos: a economia ruiu, as pessoas adoeceram e morreram, os hospitais rebentaram pelas costuras, quase tudo parou e fechou, o essencial tornou-se acessório, muitas pessoas que achávamos pouco importantes passaram a ser as mais decisivas… mas, sobretudo, os pobres ficaram ainda mais desgraçados do que o que já estavam… Aplicou-se o que um cartoon dizia estes dias: ‘quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas!’. É isso!

Começaram-se a escutar gritos vindos, sobretudo, de Roma e Nova Iorque: o Papa Francisco repetiu vezes sem conta que é urgente olhar para os mais frágeis e não os deixar morrer. O Secretário geral da ONU falou do imperativo que é garantir cuidados de saúde a todas as pessoas do mundo e alertou para o facto da pobreza extrema, por causa desta pandemia, juntar 62 milhões de crianças às 386 milhões que – segundo o relatório da UNICEF – já vivem hoje em pobreza extrema. O Papa criou mesmo uma Comissão Especial no Vaticano (Covid Vatican Comission) para que não se repitam os erros da crise de 2008 e se evitem que os pobres voltem a ser os mais atingidos. António Guterres fez a ONU aprovar uma resolução que garante ao mundo inteiro um acesso igual a futuras vacinas para o covid. Enfim, os dias inteiros e limpos ainda estão longe de ser os nossos, mas há no nosso mundo alguns pequenos gestos que se transformam em grandes sinais.

Para além do 25 de Abril e 1º de Maio, estas semanas foram ainda marcadas pela celebração do Dia da Terra, dia 22. Muita gente falou, mas pouca gente faz. A distância entre o dizer e o fazer é sempre o maior drama. Gostei da abertura do jornal da TVI com José Alberto Carvalho a provar, com imagens, que o covid está a fazer bem à natureza, pois é muito mais ecológica a imagem de satélite sobre a terra (menos poluição), são mais belas e limpas as fotos tiradas nas grandes cidades e até deu para ver alguns animais a passear nos centros urbanos ou erva a crescer nas calçadas que os turistas palmilhavam aos milhares… O Papa Francisco repetiu a sua frase que já se torna um refrão: ‘tudo está interligado!’ (Laudato Si 240) e voltou a provocar o mundo com as cinco perguntas que faz no nº160 desta encíclica social e ecológica integral: ‘Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer? Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta terra? Grandes questões a merecer grandes reflexões e decisões que levem a práticas que traduzam uma ecologia verdadeiramente integral que ame os pobres e respeite a Terra, a nossa casa comum.

Há passos que são difíceis de dar e o primeiro é a exigência de construir um projecto comum. De mãos dadas, de corações sintonizados, não é difícil tomar decisões e avançar com atitudes que mudem o rumo à história. Mas é suficiente olhar para a actual União Europeia e para as presidências de países influentes como os EUA, a China, o Irão, a Rússia ou o Brasil (para apenas citar cinco grandes) para percebermos que o mundo ainda não reuniu condições para avançar em direcção a uma solidariedade sem fronteiras que derrube os muros da injustiça que caracterizam a terra em que vivemos.

Mas não há que deitar toalhas ao chão, pois desistir nunca levou a bom porto. Aceitemos que ‘tudo está interligado’ e que é possível construir ‘dias inteiros e limpos’.

 

Partilhar:
Share