Tony Neves

O Documento Final votado pelos Padres Sinodais em Roma, na conclusão de um mês de intenso trabalho no Sínodo para a Amazónia, pede que se rasguem quatro novos caminhos: de conversão pastoral, de conversão cultural, de conversão ecológica e de conversão sinodal. Em resumo, pede que todos abram o coração e as mentes para uma profunda conversão integral.

O Papa Francisco e este Sínodo, nos tempos controversos que vivemos, conseguiram atingir um primeiro objetivo: despertar a Igreja e o resto do mundo para a realidade ‘sangrenta’ que se vive na Amazónia. Há quatro anos, com a publicação da Encíclica ‘Laudato Si’ (24.05.2015), o Papa pedia uma ecologia integral para salvarmos o planeta, amando os pobres e protegendo a natureza. E falava da Amazónia e da bacia do Congo, duas áreas onde o futuro dos povos que ali vivem e da terra inteira estavam em jogo. Daí para a frente, foram muitos os estudos e compromissos que se geraram a ponto de se avançar para a realização deste Sínodo.

Quem acompanhou a preparação e realização percebeu, dentro e fora da Igreja católica, a riqueza plural que esta família tem dentro de si, com posições manifestadas para todos os gostos e sensibilidades. Como diria o Cardeal Tolentino Mendonça, esta pluralidade de opiniões e posições não é um problema para a Igreja, mas uma imagem de marca. Somos mesmo uma família que aceita a pluralidade como riqueza e cresce com estas tensões. Claro que a pluralidade não pode pôr em causa a essencial unidade, como alertava o Papa Emérito Bento XVI quando recebeu os novos Cardeais e lhes disse para darem especial atenção e importância à obediência ao Santo Padre. Também o Cardeal Robert Sarah, em entrevista recente, insistia na importância fundamental desta obediência ao Papa.

O Sínodo pôs a Amazónia no mapa mundi da Igreja e dos políticos. Assustou o mundo da economia, sobretudo das empresas com grandes interesses nestas áreas geográficas, cheias de riqueza a explorar e com possibilidade de encher muitos bolsos. E os povos amazonenses – há que reconhecer – são aqueles que conseguiram lidar melhor com a natureza, vivendo com ela, sem a degradar e matar, pondo em causa a sobrevivência no planeta. Merecem, por isso, todo o respeito e admiração.

Como até agora, tenho pena que os media continuem apenas (ou quase só) a falar de propostas (sim, são ainda só propostas) que marcam alguma rotura com a história recente da Igreja Católica Romana Ocidental: refiro-me, claro, na Amazónia, à eventual ordenação sacerdotal de diáconos permanentes com família e ao regresso do diaconado feminino. A este propósito, partilho uma conversa entre padres europeus. Diziam alguns que, na nossa Europa, há padres com fartura, Missas a todas a horas e em todas as Igrejas e capelas e os nossos ‘católicos’, na sua maioria, não querem ir nem vão! Do outro lado do Atlântico, vemos os povos amazonenses que estão um ano inteiro sem poder participar na Missa porque não há padres! E gritam para que o Papa ordene homens casados e mulheres para poderem ter acesso à Eucaristia, o alimento espiritual mais nutritivo que a Igreja católica oferece aos seus fiéis! Parece ironia, mas a proposta que as Igrejas na Europa podem fazer – dizia um padre nessa conversa – é mandar para a Amazónia os seus padres, já que aqui estão subaproveitados! É claro que estávamos todos a exagerar nas nossas posições, mas a conversão pastoral que é pedida pode muito bem começar com uma maior e melhor partilha de padres por esse mundo além.

Rezemos para que nesta encruzilhada da história, o Espírito Santo fale mais alto que todas as ideias que vamos metendo na nossa cabeça. É importante que haja mais abertura e mais inspiração.

Tony Neves

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