Tony Neves

O mundo continua a viver a diversos ritmos, segundo o impacto actual da covid. Há áreas geográficas ainda ao rubro, com milhares de contaminações diárias, ausência de resposta adequada pelos sistemas de saúde e muitos mortos, para além das consequências brutais a nível da economia. Noutros quadrantes da terra, já se respira melhor e isso nota-se com o levantar de quarentenas e a livre circulação e aglomeração das pessoas, muitas delas em ambiente de férias, sobretudo na Europa.

Mas – como gritava há tempos o Papa Francisco da sua janela para a praça de S. Pedro e para o mundo – a pandemia está longe de resolvida e não vale fazer festa antes do fim do jogo. A 19 de Agosto, na audiência, o Papa alertou para a dupla pandemia que vivemos. Disse: ‘A pandemia acentuou a difícil situação dos pobres e o grande desequilíbrio que reina no mundo. E o vírus, sem excluir ninguém, encontrou grandes desigualdades e discriminações no seu caminho devastador. E aumentou-as!’.

Sim, é cada vez mais clara esta realidade: ‘Portanto, a resposta à pandemia é dupla. Por um lado, é essencial encontrar uma cura para um pequeno mas terrível vírus que põe o mundo inteiro de joelhos. Por outro, devemos curar um grande vírus, o da injustiça social, da desigualdade de oportunidades, da marginalização e da falta de proteção dos mais débeis. Nesta dupla resposta de cura há uma escolha que, segundo o Evangelho, não pode faltar: é a opção preferencial pelos pobres (cf. EG 195). E esta não é uma opção política; nem sequer uma opção ideológica, uma opção de partidos. A opção preferencial pelos pobres está no centro do Evangelho. E quem a fez primeiro foi Jesus;. Ele, sendo rico, fez-se pobre para nos enriquecer. Fez-se um de nós e por isso, no centro do Evangelho, no centro do anúncio de Jesus, há esta opção’.

O essencial do Cristianismo e da humanidade joga-se aqui. Não seremos pessoas dignas de tal nome se os tempos de crise não refinarem a nossa capacidade de amar e partilhar, reforçando a sensibilidade e atenção aos que caem nas margens ou são atirados para as periferias. O Papa Francisco é muito claro a este propósito: ‘Por esta razão, os seguidores de Jesus reconhecem-se pela sua proximidade aos pobres, aos pequeninos, aos doentes, aos presos, aos excluídos, aos esquecidos, a quantos não têm comida nem roupa (cf. Mt 25, 31-36). Podemos ler aquele famoso parâmetro sobre o qual todos seremos julgados. É Mateus, capítulo 25. Este é um critério-chave de autenticidade cristã (cf. Gl 2, 10; EG, 195).

Além das ajudas de urgência, tão necessárias em tempos críticos, os cristãos têm de forçar os seus governantes a mudar leis e práticas que renovem estruturas. Diz o Papa: ‘Partilhar com os pobres significa enriquecer-se uns aos outros. E se existem estruturas sociais doentes que lhes impedem de sonhar com o futuro, devemos trabalhar em conjunto para as curar, para as mudar (cf. ibid., 195). A isto conduz o amor de Cristo, que nos amou até ao extremo (cf. Jo 13, 1) e chega inclusive aos confins, às margens, às fronteiras existenciais. Trazer as periferias para o centro significa centrar as nossas vidas em Cristo’.

A pandemia ainda condiciona a vida das pessoas em praticamente todo o mundo. E ninguém sabe como vai terminar este filme. Muitos desejam o regresso à velha normalidade, o que não é possível nem desejável, pois devemos querer sempre mais e melhor.

Termino com as sábias palavras do Papa: ‘A pandemia é uma crise e não se sai iguais de uma crise: ou saímos melhores ou saímos piores. Nós deveríamos sair melhores, para resolver as injustiças sociais e a degradação ambiental.  Hoje temos uma oportunidade de construir algo diferente. Por exemplo, podemos fazer crescer uma economia de desenvolvimento integral dos pobres. Se o vírus se voltar a intensificar num mundo injusto em relação aos pobres e aos vulneráveis, devemos mudar este mundo’.

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