Tony Neves

O Papa Francisco decidiu terminar em grande o ano 2021 apontando as luzes da ribalta para as famílias. Celebrou a Festa da Sagrada Família, dia 26 de dezembro na Basílica de S. João de Latrão e quis recordar ao mundo que, cinco anos depois do Sínodo sobre a Família e a publicação da ‘Alegria do Amor’ (Amoris Laetitia), os católicos estão a viver um ano especial. A Carta que o Papa enviou aos esposos começa por uma demonstração de estima e proximidade com todas as famílias, porque ‘a pandemia colocou todos duramente à prova, sobretudo os mais vulneráveis’. O mundo viveu e vive tempos de incerteza e solidão. As famílias perderam entes queridos e são obrigadas a responder a muitos desafios: ‘fomos impelidos a sair das nossas seguranças, dos nossos espaços de controle, da nossa forma de fazer as coisas, das nossas ambições, para nos interessarmos não apenas pelo bem da nossa família, mas também pelo da sociedade, que depende igualmente do nosso comportamento pessoal’.

Aos esposos, o Papa recorda o seu grande objectivo: ‘ser dois em Cristo, dois num só, formando uma única vida, um ‘nós’ na comunhão de amor com Jesus, vivo e presente em cada momento da vossa existência. Não estais sozinhos!’.

Sobre as novas gerações, o Papa defende os filhos como dons, sempre, pois mudam a história de cada família: ‘têm sede de amor, reconhecimento, estima e confiança’. Os filhos têm direito a encontrar na sua família um ambiente educativo, nas palavras mas, sobretudo, nas atitudes dos mais velhos.

As famílias são decisivas para o presente e futuro da Igreja: ‘cresceu a consciência da identidade e missão dos leigos na Igreja e na sociedade. Vós tendes a missão de transformar a sociedade com a vossa presença no mundo do trabalho e fazer com que as necessidades das famílias sejam tidas em conta’. Daí que o casamento seja apresentado como um ‘projecto de construção da ‘cultura do encontro’’ e seja da competência das famílias ‘lançar pontes entre as gerações para a transmissão dos valores que constroem a humanidade’.

O Papa não enterra a cabeça na areia perante as muitas dificuldades e problemas que vitimam as famílias, a ponto de destruir algumas. Inspirando-se no texto da tempestade que Jesus acalma no Mar da Galileia, sugere o Papa: ‘assim também vós, quando enfurecer a tempestade, deixai Jesus subir para o barco, porque então, quando subiu para o barco, para junto dos apóstolos, o vento amainou’. Não há problemas de solução impossível quando as famílias se abandonam nas mãos de Deus.

Avaliando estes tempos duros de pandemia, o Papa reflecte sobre as dificuldades e as oportunidades que a covid criou para as famílias. Assim, ‘aumentou o tempo para estarem juntos’ gerando um ambiente de maior preocupação uns pelos outros, um autêntico ‘refúgio no meio das tempestades’. A família tem de ser lugar de acolhimento e compreensão. Por isso, os esposos (e todos lá em casa) devem utilizar com frequência ‘estas três palavras: ‘com licença, obrigado, desculpa’. Sugere ainda o Papa: ‘se surgir algum conflito, nunca termineis o dia sem fazer as pazes’.

Mas a família também tem sido lugar de dor e de ruptura. Com as separações, frustram-se aspirações e desfazem-se sonhos e projectos. Quando os esposos não se entendem, há discussões acesas e abrem-se feridas difíceis de cicatrizar. Nos momentos de crise, o Papa lança um apelo: ‘não cesseis de buscar ajuda para que se possa, de alguma forma, superar os conflitos, a fim de que estes não provoquem ainda mais sofrimento entre vós e aos vossos filhos’. Recordou ainda: ‘Não esqueçais que o perdão cura todas as feridas’. Numa perspetiva de fé, o Papa lembrou os princípios básicos da catequese: ‘Cristo habita no vosso casamento e espera que lhe abrais os vossos corações, para vos apoiar com a força do seu amor, como aos discípulos no barco’.

As últimas palavras desta Mensagem são para os jovens que se preparam para o casamento e para os avós. Às novas gerações o Papa pede coragem criativa num caminho que se afigura difícil: ‘não hesiteis em procurar apoio nas vossas famílias e nas vossas amizades, na comunidade eclesial, na paróquia, para viverdes a futura vida conjugal e familiar, aprendendo de quantos já passaram pelo caminho que estais a começar’.

Aos avós, o Papa chama-lhes ‘a memória viva da humanidade’ e lamenta o isolamento e solidão a que muitos estão votados, particularmente nestes tempos de pandemia.

Maria e José são chamados no fim da Mensagem para serem apresentados como inspiração para todos os esposos. O Papa lança um grito final: ‘os numerosos desafios não podem roubar a alegria a quantos sabem que estão a caminhar com o Senhor’.

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