Lisboa: Patriarca defende que «individualismo tem de ser vencido a todo o custo», em visita pastoral na Câmara Municipal do Bombarral

D. Rui Valério interveio na sessão solene, que contou também com o discurso do presidente da autarquia que lembrou que a «laicidade do poder local não significa indiferença»

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

Lisboa, 29 mai 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa alertou esta quinta-feira para os desafios atuais, em particular o individualismo, defendendo uma ação conjunta das instituições, numa intervenção na Câmara Municipal do Bombarral, a propósito da visita pastoral à Vigararia da Lourinhã.

“Vivemos um tempo em que o individualismo tem que ser vencido a todo o custo. Todos os esforços devem ser dirigidos para criar e gerar sociedade. E não há sociedade sem um ser com, sem a presencialidade, sem este contacto do tu a tu”, afirmou D. Rui Valério, citado pelo site do Patriarcado de Lisboa.

D. Rui Valério salientou a centralidade da pessoa humana como ponto de convergência entre a Igreja e o poder local e referiu-se ainda ao Bombarral como “uma terra de trabalho”, “uma terra de labuta”

O trabalho tem que ser iluminado e inspirado pela justiça, pela dignidade e pela salvaguarda dos direitos dos trabalhadores”, acrescentou.

Na intervenção na sessão solene no salão nobre do município, em que agradeceu o acolhimento e sublinhou que a sua visita é pautada pela força da memória, o patriarca recordou o golpe de Estado de 28 de maio: “Há 100 anos havia na alma portuguesa uma grande expectativa, um grande desejo de mudança e uma certeza, um querer transformar o país”.

O discurso do patriarca inclui a referência à identidade local, sendo realçada a importância da ecologia integral.

“Nunca permitirmos uma exploração, uma escravização da própria terra, da própria natureza. Isso mais tarde ou mais cedo iria revoltar-se contra nós próprios”, disse.

D. Rui Valério refletiu também sobre a natureza do ser humano, evidenciando que este “não é apenas um ser psicossomático”, mas “um ser espiritual”.

“Nós podemos morrer e sucumbir não só quando há um projétil que nos atinge, mas uma palavra que nos é dita, um gesto de rejeição que nos é oferecido”, referiu.

Ao concluir, o patriarca enfatizou a necessidade de uma visão antropológica clara: “O problema está em responder a esta pergunta: ‘Mas o que é que é o homem? O que é que é o ser humano?’”.

“Se nós continuarmos iludidos com aquilo que algumas teologias nos querem impingir, pois claro, nós nunca saberemos encontrar a resposta certa, porque também não somos capazes de fazer a pergunta certa”, desenvolveu.

A sessão ficou marcada ainda pela intervenção do presidente da Câmara Municipal do Bombarral, Ricardo Fernandes, que agradeceu a presença de D. Rui Valério e destacou o significado para a comunidade.

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

“A visita pastoral do bispo não é um acontecimento comum, é um sinal de proximidade, de cuidado e de comunhão que toca o coração das comunidades”, expressou.

O autarca partilhou depois que o concelho, “com cerca de 14 mil habitantes”, enfrenta o “desafio do envelhecimento demográfico”.

Ricardo Fernandes ressaltou ainda a colaboração entre o município e as paróquias, referindo que “esta parceria não é protocolar nem circunstancial”, mas “assenta no reconhecimento de que a Igreja desempenha um papel importante no tecido social” do município.

Acreditamos que a laicidade do poder local não significa indiferença”, frisou.

No final das intervenções, o presidente da Câmara Municipal do Bombarral entregou lembranças ao Patriarca de Lisboa e ao bispo auxiliar D. Nuno Brás, que acompanhou a visita.

A sessão contou também com a presença do vigário da Lourinhã, padre Ricardo Jacinto, o pároco do Bombarral, padre Pedro Tavares, bem como vários sacerdotes da vigararia, como os padres Carlos Branco, Ricardo Franco, Diogo Tomás e Eduardo López.

Foto: Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

Segundo informa o Patriarcado de Lisboa, a visita pastoral à Vigararia da Lourinhã tem como tema ‘O Senhor visita o seu povo’ e vai decorrer até ao próximo dia 21 de junho.

Ao longo de quatro meses e meio, o patriarca e os três bispos auxiliares (D. Nuno Isidro, D. Alexandre Palma e D. Rui Gouveia) estão a conhecer de perto a realidade eclesial e social das 23 paróquias que compõem a vigararia.

São elas Alguber, Bombarral, Cadaval, Carvalhal, Cercal, Figueiros, Lamas, Lourinhã, Marquiteira, Marteleira, Moita dos Ferreiros, Moledo, Painho, Peral, Pêro Moniz, Reguengo Grande, Ribamar, Roliça, São Bartolomeu dos Galegos, São Lourenço dos Francos, Vale Côvo, Vermelha e Vilar.

LJ/OC

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