D. Rui Valério encontrou-se com mais de 150 agentes da pastoral sócio-caritativa, sublinhando que o pobre é uma «presença teológica» e alertando para os desafios éticos da tecnologia

Lisboa, 28 mar 2026 (Ecclesia) – O patriarca de Lisboa alertou esta sexta-feira contra o risco de reduzir a ação caritativa da Igreja a critérios meramente organizativos, sublinhando que a eficiência nunca pode substituir a proximidade humana e a ternura.
“No dia em que as nossas instituições se focarem apenas na eficiência e desvalorizarem a ternura e a dimensão humana, seremos apenas funcionários de uma máquina”, disse D. Rui Valério, no Encontro da Quaresma 2026 da Pastoral Sócio-Caritativa.
A iniciativa reuniu no Turcifal mais de 150 agentes provenientes de cerca de 50 instituições.
Durante a manhã, D. Rui Valério refletiu sobre a exortação apostólica ‘Dilexi Te’, do Papa Leão XIV, apresentando-a como um “verdadeiro programa espiritual” para a atualidade.
“A fé, quando é autêntica, é inseparável da caridade. O gesto de nos ajoelharmos perante o Santíssimo Sacramento transforma-se em serviço e em ação ao encontro do pobre e do irmão mais pequenino”, indicou.
O responsável católico frisou que o encontro com os mais vulneráveis não é apenas uma causa social, mas o “coração da fé”, descrevendo o pobre como “um sacramento de Cristo”.
Perante um mundo onde “só tem valor aquilo que é útil ou que dá lucro”, o patriarca desafiou os cristãos a percorrerem o caminho da “fecundidade invisível da bondade”, valorizando os pequenos gestos e a capacidade de escutar.
“O que o mundo hoje mais precisa é de ouvidos, de gente que oiça”, acrescentou.
Durante a tarde, na Assembleia Geral da Federação Solicitude, D. Rui Valério alargou a reflexão aos desafios éticos colocados pela inteligência artificial e pela tecnologia.
Inspirado no documento ‘Quo vadis, humanitas?’ do Dicastério para a Doutrina da Fé, o patriarca criticou a mentalidade técnica que procura substituir parcelas do ser humano em nome de um melhor desempenho.
“Começa a emergir uma mentalidade segundo a qual o nível exigido para o ser humano é sempre o do topo. E para lá chegar parece que a sociedade está disposta a tudo, até a transformar a própria identidade humana”, observou, numa intervenção divulgada pelo Patriarcado de Lisboa.
D. Rui Valério sustentou que a vulnerabilidade “não diminui a dignidade da pessoa”.
O encontro diocesano contou ainda com a intervenção de Manuel Girão, diretor do Departamento da Pastoral Sócio-Caritativa, que reconheceu as incertezas e os “tempos não muito fáceis” que se avizinham para as instituições do setor.
O responsável aproveitou a ocasião para anunciar a realização do 3.º Congresso da Pastoral Sócio-Caritativa, agendado para o dia 15 de maio, em Mafra, que terá como temas centrais o envelhecimento ativo e a educação.
OC
