Sacerdote jesuíta aborda novo Centro Cultural Brotéria que vai surgir no Bairro Alto e o desafio de anunciar Cristo numa paróquia marcada pelo turismo e pela mobilidade social

Foto Agência ECCLESIA / JCP, O padre jesuíta Vasco Pinto Magalhães junto ao Largo da Trindade, no Bairro Alto, onde vai nascer o novo Centro Cultural Brotéria

Lisboa, 15 mar 2019 (Ecclesia) – No n.º 3 do Largo da Trindade, no Bairro Alto, em Lisboa, está a nascer um novo projeto dos Jesuítas que visa reforçar o diálogo entre a Igreja Católica e a sociedade, neste caso em ambiente urbano e turístico.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o padre Vasco Pinto Magalhães abordou a criação do novo “Centro Cultural Brotéria”, que “deverá estar concluído este Verão”, e destacou a importância de contribuir cada vez mais hoje para uma Igreja “de portas abertas”, disposta a “ser interrogada”, mas também a “interrogar”.

“A Igreja purifica-se quando sai de si própria, quando se fecha no seu clericalismo está-se a suicidar”, frisa o sacerdote, que realça a necessidade de cada vez mais “fazer a ponte entre a fé e as culturas hoje”, aqui em particular no ambiente do Bairro Alto, de toda essa zona histórica.

Para que esta zona de Lisboa não seja “só uma coisa turística, mas também um espaço de reflexão, de espiritualidade, de pastoral”.

O novo “Centro Cultural Brotéria” está a ganhar forma através da remodelação do antigo palácio dos Condes de Tomar, no n.º 3 do Largo da Trindade.

Nesse edifício vai ficar instalada não só a nova biblioteca da Revista Brotéria, com “perto de 200 mil volumes”, mas também “uma residência para os jesuítas” e toda uma ala destinada ao diálogo com a sociedade, tendo como ponto de partida a arte e a cultura.

“Os salões de baixo, que são grandes e bonitos, estão todos a ser restaurados para receber todo o tipo de debates e colóquios, e temos também a ideia de ter uma sala de exposições e de encontro de artistas. Temos muito a ideia de estarmos abertos à pintura e à escultura, mas também à música”, explica o sacerdote jesuíta.

Este sonho da Companhia de Jesus envolve uma parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cujas instalações e Museu estão situadas bem ali ao lado, paredes meias com a igreja de São Roque, “a igreja-mãe dos jesuítas em Portugal”.

Para breve está também a conclusão do novo Museu da Ásia, uma iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que ficará situada no nº1 do Largo da Trindade, precisamente ao lado do Centro Cultural Brotéria.

“Esta parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa faz todo o sentido e estamos muito reconhecidos, porque há um enriquecimento mútuo”, enaltece o padre Vasco Pinto Magalhães, que destaca também toda uma cadeia de eventos que veio favorecer este empreendimento.

Desde setembro de 2018, no seguimento das nomeações publicadas pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que o padre Vasco Pinto Magalhães assumiu os destinos da Paróquia de Nossa Senhora da Encarnação, no Bairro Alto, em conjunto com outros dois sacerdotes jesuítas, João Norton de Matos e Francisco Sassetti da Mota.

“Foi um bocadinho surpreendente que o senhor patriarca nos tenha convidado, mas por outro lado isso veio mesmo ao nosso encontro, porque isto aumenta e dilata a capacidade do nosso novo Centro Cultural ter também uma dimensão espiritual, litúrgica e pastoral”, admite o pároco.

Os cinco eixos do projeto da Companhia de Jesus nesta zona do Bairro Alto são a “investigação”, com especial enfoque na biblioteca da Brotéria, a “galeria”, com relevo para as iniciativas culturais e artísticas, e “o diálogo, a comunicação e a espiritualidade”, aqui com a transmissão da mensagem cristã no horizonte.

Para o sacerdote jesuíta, trata-se também de uma oportunidade para promover uma “clarificação de linguagens”, hoje “muito necessária” no campo da espiritualidade e da fé, sem que isso signifique “excluir à partida vivências que também possam contribuir para um mundo mais justo e mais humano, que esse é o objetivo final”.

“O caminho para essa humanização, do nosso ponto de vista, é a cristianização, e se aqui houver mobilização, se formos capazes de dar a descobrir o lugar de Cristo na transformação do mundo, e pudermos ser realmente instrumento e colaboradores dessa realidade, então estaremos a acertar no foco”, considera o padre Vasco Pinto Magalhães.

Confrontado com o desafio de levar Cristo a uma comunidade marcadamente turística e por isso também muito efémera, em termos do que é o estabelecimento de relações e laços, o padre Vasco Pinto Magalhães admite que esse é um dos grandes aliciantes da presença dos jesuítas nesta zona histórica da cidade.

Muitas vezes “quem passa, passa rapidamente, tira, fotografa, comenta, às vezes faz perguntas, está interessado, mas não tem tempo para parar”, reconhece o sacerdote, para quem antes de mais a Igreja deve saber “propor”, “chamar”, aproveitar todas as ocasiões para vincar a sua presença.

No âmbito desse esforço, e mesmo antes da inauguração do Centro Cultural Brotéria, já decorrem na igreja de Nossa Senhora da Encarnação algumas iniciativas de diálogo e reflexão sobre questões sociais que estão a marcar a agenda mediática atual, como a questão dos refugiados e migrantes, que teve correspondência na aposta, por parte da paróquia, num conjunto de colóquios subordinados ao tema ‘O estrangeiro na Bíblia’.

Hoje tudo é mobilidade, tudo é movimento, e isso levanta muitos problemas sobretudo quando se trata desta emigração que envolve refugiados. Então, quisemos perceber qual é o lugar que a Bíblia dá nos vários livros ao emigrante, ao refugiado, ao transeunte, ao peregrino. E isso hoje pode estar verdadeiramente enquadrado numa Pastoral do Turismo, que é atender estas pessoas que passam”.

O padre Vasco Pinto Magalhães realça o tempo da Quaresma, que está em marcha – “a procissão do Senhor dos Passos em breve vai sair da igreja de São Roque” –, e outras atividades que, ao longo do ano, também podem ser sinónimo de encontro e de reflexão conjunta.

“A Igreja não tem que ter vergonha de passear na rua, queremos mostrar que é uma presença que faz a diferença. Jesus não teve medo de ir ao encontro das pessoas, e quer aceitem, quer não aceitem, vamos para a frente”, defende aquele responsável, que não esquece as questões sociais que afetam as populações locais, desde toda a problemática do alojamento local às situações de pobreza e de isolamento humano, nomeadamente dos idosos.

“Esta zona praticamente está-se a esvaziar, conheço já vários casos de pessoas que estão sozinhas num prédio, e o dono está à espera de ficar com o prédio todo para o transformar completamente, e há muitos casos sobretudo de pessoas idosas a viverem sozinhas, e isso é algo que nós temos de atender”, refere o padre Vasco Pinto Magalhães.

No que toca às situações mais relacionadas com carências económicas, todos os meses a Paróquia de Nossa Senhora da Encarnação distribui dezenas de cabazes de alimentos, a famílias e pessoas mais desfavorecidas,

JCP

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