As bibliotecas ou os recantos esquecidos das sacristias podem não ser o melhor local para matar a natural curiosidade pelo Missal de 1962, após a anunciada publicação do Motu Proprio de Bento XVI sobre a liturgia romana anterior à reforma de 1970 que será publicado amanhã, 7 de Julho. No documento “Summorum Pontificum”, o Papa explica as razões que fundamentam a possibilidade de se poder celebrar, livremente, a Missa segundo o Rito de São Pio V (Tridentino), até agora apenas permitida segundo autorização do Ordinário do lugar. São precisamente as palavras “Missa Tridentina” ou “São Pio V” que permitem, na era da Internet, encontrar documentação e mesmo pequenos filmes no youtube sobre a celebração no rito antigo, em latim. No caso da pesquisa se alargar ao inglês, os resultados crescem exponencialmente. O ordinário da Missa pode ser encontrado em vários sites, com versões latim-inglês. Em muitos casos, a informação é da Fraternidade São Pio X, que congrega os seguidores do Arcebispo Marcel Lefebvre, mas há várias imagens de celebrações que decorreram com a autorização do bispo católico local. No Brasil, a Administração Apostólica Pessoal S.João Maria Vianney (reconhecida pelo Vaticano) apresenta um DVD para ensinar aos sacerdotes que o desejarem o rito da missa segundo o missal de São Pio V (www.adapostolica.org) Missa de São Pio V Este texto, publicado a 14 de Julho de 1570, tornou-se norma para todas as Igrejas do Ocidente, uniformizando os seus textos e ritos, com excepção das Igrejas que possuíssem um ritual próprio desde há, pelo menos, 200 anos. A Missa, a partir do século XIII, costumava ser dividida em duas partes: “missa dos catecúmenos” e “missa dos fiéis”; eram admitidos à primeira parte os que aspiravam a se tornar cristãos e, uma vez que estavam ainda na fase de preparação doutrinal, eram excluídos do sacrifício eucarístico e participavam somente na liturgia da Palavra, com claro valor catequético; na segunda parte participavam todos os crentes. O altar, colocado no cimo de alguns degraus, significava a subida ao Gólgota; por isso, as orações de introdução ao sacrifício eram recitadas pelo celebrante aos pés dos degraus: remonta ao século IX a recitação do salmo 42, “Iudica me, Deus”, com o Glória e o Confiteor, cuja fórmula é do século XII, o sacerdote sobe ao altar, que incensa com três voltas, se a missa é solene. A recitação do Credo, depois da leitura do Evangelho e da homilia, é introduzida no século VI no Oriente e no século XI no rito latino. A segunda parte da missa tinha início com a apresentação dos dones; seguiam-se orações, chamadas “pequeno cânone” que, no rito latino, não são anteriores ao século XIV: “Suscipe”, “Sancte Pater”, talvez de origem galicana, e o “Deus qui humanae substantiae”, antiga oração da liturgia natalícia romana; feita a oferta, procedia-se a uma nova incensação do altar, seguida do Lavabo, ou lavagem das mãos, da “Oratio super oblata secreta” e, finalmente, do Prefácio, que é a introdução à oração eucarística por excelência, ou seja, o “cânone” ou “canon actionis”. O Prefácio começa com um diálogo entre celebrante e fiéis, continua com uma oração de agradecimento e termina com o Triságio, ou Sanctus. Tem assim início o Cânone, fórmula usada desde o século VII, com a consagração das duas espécies eucarísticas e sua dupla elevação, existente desde o tempo da heresia de Berengário; todas as orações seguintes, sempre expressas em língua latina, culminam com o doxologia “Per ipsum, cum ipso, in ipsum”. Com o Pater Noster, tem início a parte da Comunhão: primeiro a fracção da hóstia, o antiquíssimo Agnus Dei, a oração e o beijo da paz posteriores ao ano 1000, e a comunhão do sacerdote. Durante a comunhão dos fiéis, cantava-se um salmo; restam vestígios disso na actual oração da Communio. A oração do Postcommunio concluía a celebração, às vezes, com a “Oratio supra populum”; depois, o “Ite, missa est” fazia a despedida da assembleia. O Placeat com a bênção são posteriores ao ano 1000, e o último Evangelho (leitura do Prólogo de João) era de devoção particular até o século XV. Pós-Concílio O rito litúrgico resultante da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II institui uma nova forma de celebrar a missa que revoga, não o uso do latim, mas o uso do anterior Rito de S. Pio V. A constituição conciliar sobre a Liturgia, Sacrossanctum Concilium, declarou o seguinte sobre a língua latina: 36. § 1. Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos , salvo o direito particular. § 2. Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes. § 3. Observando estas normas, pertence à competente autoridade eclesiástica territorial, (…) consultados, se for o caso, os Bispos das regiões limítrofes da mesma língua, decidir acerca do uso e extensão da língua vernácula. Tais decisões deverão ser aprovadas ou confirmadas pela Sé Apostólica. § 4. A tradução do texto latino em língua vulgar para uso na Liturgia, deve ser aprovada pela autoridade eclesiástica territorial competente, acima mencionada. 54. À língua vernácula pode dar-se, nas missas celebradas com o povo, um lugar conveniente, sobretudo nas leituras e na «oração comum» e, segundo as diversas circunstâncias dos lugares, nas partes que pertencem ao povo, conforme o estabelecido no art. 36 desta Constituição. Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem.

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