«Quando os imigrantes da Europa de Leste chegaram a Portugal, verificaram que o acolhimento da Igreja Católica portuguesa foi verdadeiramente notável, apesar de uma rivalidade histórica entre católicos e ortodoxos. Recorde-se que, um dia, esses imigrantes regressarão aos seus países de origem e, aí, darão um grande contributo ao movimento ecuménico», referiu o padre António Vaz Pinto numa conferência que proferiu, na terça-feira, no Centro Académico de Braga (CAB), subordinada à “Imigração em Portugal: que desafios e respostas”. O responsável pelo Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME), estrutura inter-departamental de apoio e consulta do Governo em matéria de imigração e minorias étnicas, não deixou de reconhecer os ganhos económicos do fenómeno. «Sobre os benefícios financeiros, o Observatório da Imigração, coordenado pelo ex-ministro Roberto Carneiro, concluiu, num documento sobre o “Impacto financeiro dos imigrantes em 2001”, que, contabilizando os gastos com os imigrantes e tudo o que estes pagaram em termos de impostos e taxas, o Estado ganhou cerca de 65 milhões de contos», explicou o sacerdote jesuíta, que acrescentou, igualmente, algumas vantagens culturais, «pois uma sociedade plural é mais rica, fecunda e criativa. Para desmistificar o «problema do excesso de estrangeiros», o Alto Comissário referiu que «na Suíça existem cerca de 159 mil imigrantes portugueses, em contraposição aos cerca de 70 mil ucranianos residentes no nosso país». Por isso, o responsável afirmou que «ninguém se deve esquecer que os emigrantes vieram para realizar trabalhos que os portugueses não querem ou não sabem fazer». Nesse sentido, uma imigração controlada é possível e desejável. Apesar disso, e reportando-se ao artigo 13 da Constituição da República Portuguesa, o jesuíta salientou que «entre a teoria e a prática existe uma enorme distância, demonstrativa de má vontade e ignorância. Por exemplo, quando Luís Inácio Lula da Silva visitou Portugal, procedeu-se ao alargamento dos prazos de legalização dos imigrantes daquele país. Inscreveram-se 35 mil e, actualmente, foram resolvidos apenas 10 mil casos. Mais: após alguma pressão do ACIME, suavizou-se a Lei da Imigração em relação aos prazos de inscrição dos imigrantes ilegais: inscreveram-se 85 mil e foram resolvidos 15 mil casos». «Temos de alterar a Lei da Nacionalidade. Como fica a situação dos filhos dos imigrantes que nasceram em Portugal? Não são portugueses, nem cidadãos dos países dos seus progenitores… são marginais!», desabafou o padre António Vaz Pinto, que recordou que foi por iniciativa do ACIME que os filhos de imigrantes ilegais passaram a ter «existência legal», num caso europeu único. Para o sacerdote também é necessário acelerar e facilitar os processos de legalização. «É inconcebível que seja permitido que um trabalhador estrangeiro com a sua situação devidamente regularizada traga a sua esposa, e esta não possa trabalhar legalmente no nosso país. Como é que conseguem sobreviver?», interpelou o jesuíta, que, a propósito, contou que «uma boa parte das Juntas de Freguesia portuguesas não passam atestados de residência aos estrangeiros quando estes necessitam desse documento para se legalizarem». Para além da burocracia e da inércia, o religioso também apontou o dedo ao corporativismo de algumas classes existente no país. Reportando-se ao célebre caso dos dentistas e médicos brasileiros, o padre Vaz Pinto acabou por referir que «os nossos médicos se esqueceram dos profissionais de saúde espanhóis que já começaram a “invadir” o Norte de Portugal…». Porém, reconheceu que o mais importante passa por «converter o coração» e «utilizar um olhar humano e cristão» em relação ao fenómeno da imigração. «A sensibilidade de todas as comunidades cristãs para que se defenda os direitos e as justas aspirações dos imigrantes é essencial», concluiu. [Alexandre Gonzaga]
