Entrevista com Nuno Patrício, repórter de imagem da RTP na guerra do Iraque. Agência ECCLESIA (AE) – Em que medida a visualização de imagens de guerra contribuem para a paz? Nuno Patrício (NP) – É importante o jornalismo nos períodos de guerra. Antigamente, a ausência de jornalismo imparcial em situações de conflito poderia não trazer ao cimo a verdadeira situação no terreno. O jornalismo tem quer ser imparcial… AE – Acha que ele é imparcial quando estamos a relatar ou visualizar uma guerra? NP – Os jornalistas relatam aquilo que vêm e aquilo que lhes é mostrado. Se existir alguma informação menos correcta é porque essa informação não lhes é fornecida. No meu caso, e também do Carlos Fino quando estivemos no Iraque, aquilo que mostrámos era aquilo que nos era acessível. AE – Então existe um jornalismo controlado? O jornalista nem sempre pode mostrar tudo? NP – Em situações de conflito é normal que isso aconteça. Os jornalistas são parcialmente controlados embora tentemos descobrir outros dados que nos são negados. AE – No início do século XX, um político norte-americano afirmou que “quando estoura uma guerra a primeira vitima é a verdade”. Concorda com esta afirmação? NP – Não assino essa afirmação a 100%. Mas em parte isso acontece. Basta recordar algumas situações que passámos no Iraque: quando algumas bombas caiam em locais civis, embora com militares, essa informação era parcialmente negada. O governo iraquiano retirava os elementos militares para depois transmitir aos jornalistas que os alvos eram civis. AE – Actualmente, o jornalismo de guerra é embutido. Muitos jornalistas estão incorporados nas unidades militares e acompanham uma batalha somente de um lado. Isso cria restrições ao jornalismo? NP – Por um lado é uma fonte de segurança para nós, jornalistas. Quando os jornalistas vão para uma frente de guerra e não têm o mínimo de segurança estão expostos ao risco. AE – No campo de batalha sentiu mais o medo ou a confiança? NP – Não lhe vou dizer que não tive medo porque nós temos medo. É normal, quando vemos uma força a atacar outra, que pensamos que nos pode tocar a nós. Mas digo-lhe também que quando andamos a trabalhar abstraímo-nos… Agora, que estou em repouso, penso assim: «poderia ter morrido lá» AE – Nestes momentos, depois de presenciar aqueles episódios, a vida ganha outro valor? NP – A vida ganha outro valor porque nós vemos muitas situações que nos fazem pensar duas vezes. Há vidas inocentes que se perdem e fazem-nos pensar o porquê… o porquê das guerras e o porquê destas situações dramáticas. Perante estes factos, os jornalistas servem de veiculo de transmissão de desgraças. AE – E o que se ganha com estas «imagens»? NP – Ganha-se a experiência do local e a tristeza de ver populações dizimadas e locais completamente destruídos. Muitas vezes penso que é um ganho que não vale a pena fazer parte dele. AE – Quando via aqueles episódios dramáticos pensava em quê? NP – Pensei muitas vezes na minha família. Estive três meses no Iraque e no último mês foi um período terrível para mim. Tenho um filho com cinco anos e foi a primeira vez que não passei o aniversário com ele. Senti uma falta terrível dele e nessa semana que culminou no seu aniversário não houve um único dia que eu não chorasse. Foi uma mágoa constante saber que estava longe dele mas ao mesmo tempo sabia que ele estava bem. AE – Nesses momentos de medo apelava ao transcendente? NP – Rezava todos os dias. Todos os dias, quando me deitava, rezava e pedia a Deus que nos protegesse. AE – Era um cristão no meio do Islamismo? NP – Um entre muitos. A comunidade iraquiana tinha uma percentagem mínima (3%) de cristãos. Mas a maior parte dos jornalistas que estavam lá eram católicos portanto era um entre muitos. AE – Católicos com períodos difíceis. NP – Quando colegas meus foram atingidos no Hotel senti necessidade de rezar o Pai – Nosso. Um impulso que tive na altura. Quando fui agredido recorri-me de um princípio religioso: «Não me batam porque era contra as regras de Alá». Um regra que está incutida em todas as religiões. Mas como Deus é grande estou aqui deste lado são e salvo. AE – Quando estava a filmar não pensava que as imagens que seriam emitidas poderiam influenciar o instinto guerreiro das pessoas? NP – A informação poderá ter dois lados: quando não transmitidos a realidade estamos a calar a verdade ou então as imagens referidas podem fazer o efeito bola de neve (a violência atrai mais violência). AE – Quando se mostra a guerra a paz ganha outro significado. NP – Sem dúvida. A paz deveria ser a única forma de viver no mundo. Mas os valores económicos estão, muitas vezes, acima dos valores morais… é lamentável. AE – Esta experiência deixou-lhe cicatrizes? NP – A vida deixa cicatrizes em todo o tipo de cenário. Aquele deixou-me algumas marcas e não creio que me vá colocar num cenário destes tão depressa…

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