Igreja/Sociedade: «O grande desafio é viver no silêncio, tornar o silêncio alfabeto» – Luís Osório

Escritor e autor do «Postal do Dia», publicado na imprensa e nas redes sociais, fala da sua relação com Deus num percurso de vida onde foi procurando palavras para aceitar «fragilidades e sombras» e entendo que a escrita o protege

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 15 abr 2026 (Ecclesia) – O jornalista e escritor Luís Osório disse hoje que só se pode escutar Deus no silêncio, lugar onde escuta também os que já morreram.

“O grande desafio é viver no silêncio, é tornar o silêncio alfabeto. Só se pode escutar Deus no silêncio. Só se pode escutar as pessoas que amamos, e que partiram, também nesse silêncio e em sinais que são evidentes. Os sinais existem”, conta à Agência ECCLESIA.

Filho de José Manuel Osório, fadista e estudioso de fado, que nos anos 80 assumiu ser homossexual e seropositivo e, até à sua morte em 2011, lutou contra a descriminação, Luís Osório reconhece que cedo percebeu que todas as fragilidades e sombras teriam de ser entregues, assumidas e partilhadas.

“Naquela altura com 14 anos, quando o meu pai se torna uma figura mais pública, relacionada com a doença, eu quis dizer que aquele homem era o meu pai. E a partir daquele momento, para mim, foi claro que a ideia de verdade, a ideia de enfrentar qualquer tipo de medo, é o melhor que nós podemos fazer”, descreve.

A sua escrita, autobiográfica mesmo quando escreve sobre outros, é uma forma de se proteger, indica, mesmo assumindo – “É sempre difícil quando acerto nas palavras”.

A fragilidade é a nossa principal força. O sentido de fragilidade, a capacidade de nos olharmos na plenitude, percebermos as fragilidades e podermos partilhá-las, é uma força enorme.”

Luís Osório cresceu com a sua avó Joaquina e com a mãe, que viveu com uma depressão ao longo da vida e faleceu em 2007; conheceu também o ambiente familiar com as tias Teresa e Cristina, “casa que era local de apaziguamento e aconchego”.

“Seria um grande atrevimento – e eu percebi isso desde criança – acharmos que a nossa vida, por ser mais dura, por ter coisas que poderiam ter sido evitadas, é prova da não existência de Deus. Seria uma coisa um bocadinho ridícula. Acredito que só faz sentido se aquilo que nos transcende nos oferecer também a possibilidade de ultrapassar as sombras”, conta.

Luís Osório é autor de textos publicados na imprensa diária e na Antena 1, o ‘Postal do dia’, onde apresenta perfis pessoais que assume serem uma “procura de bem” num tempo de “umbiguismo”.

“Os postais do dia são uma marca forte da procura de bem, um compromisso de proximidade e de uma relação íntima com o leitor. São quase textos autobiográficos porque mesmo escrevendo sobre outros é a partir da forma como se confrontam comigo, sobre a surpresa que me causam”, regista.

O escritor conta que a ‘parábola dos Talentos’ é a sua preferida, mas elege a passagem bíblica em que Jesus é tocado por muitos e por uma mulher em específico – ‘Quem me tocou?’.

Estava toda a gente a tocá-lo, mas alguém o tocou. Isso é uma coisa muito bonita, não é? Lá está, toda a gente pode tocar, toda a gente pode olhar, aparentemente da mesma maneira. Mas o importante é a maneira como tu olhas, a maneira como tu tocas. E isso faz toda a diferença.”

O escritor, que em pequeno foi batizado, assume que hoje quer fazer os restantes sacramentos porque, afirma fazer sentido caminhar em comunidade.

Em 2016, Luís Osório escreveu no livro ‘Amor’: “O meu Deus não tem voz grossa, tem a que imagino. O meu Deus não me castiga, oferece-me liberdade. O Meu Deus não me chantageia, acredita na responsabilidade. O meu Deus não me corta o desejo, recomenda-me uma canção. O meu Deus dança comigo quando danço sem par. O meu Deus tem humor, escuto-o e sei do que falo. O meu Deus está aqui, se me virar rápido ainda o vejo. O meu Deus é um pressentimento, uma promessa, é o bem e o mal, sou eu nos piores dias. É esperança e virtude. O meu Deus acredita em mim”.

“Deus só pode ser isso, não pode ser outra coisa. Porque qualquer outra coisa seria um Deus que não é transformador no bom sentido e a ideia de bem desvanecia-se. Quando Deus não dança connosco, é sinal que nós não dançamos. Agora, se nós dançamos, Deus está connosco”, traduz.

A conversa com Luís Osório pode ser acompanhada esta noite na Antena 1, no programa ECCLESIA, emitido pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

LS

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