Igreja/Sociedade: D. Roberto Mariz apela ao debate sobre problemas da habitação, sem instrumentalizações

Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social vê como aspeto «positivo» o facto de as manifestações dos últimos dias terem avivado a consciência de atores políticos

Foto Agência ECCLESIA/PR, D. Roberto Mariz

Fátima, 23 out 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) apelou, em Fátima, ao aprofundamento do debate sobre a crise da habitação, sem instrumentalizações políticas, comentando os protestos dos últimos dias.

“Eu diria que esta questão da habitação é tão importante, tão relevante e tem um peso tão forte hoje como condicionante, que pesa como dificuldade na vida das pessoas e das famílias, que ela, enquanto questão, não pode ser silenciada nem instrumentalizada”, afirmou o bispo auxiliar do Porto, em declarações à Agência ECCLESIA.

“São os dois pedidos claros que deixo: nem silenciar, como se não existisse, nem instrumentalizar, servindo como instrumento para outros fins”, reforçou, à margem do 36ª Encontro Nacional da Pastoral Social, que se conclui hoje.

Nos últimos dias, a crise na habitação levou a manifestações e acampadas, com centenas ou milhares de pessoas, que tiveram início no Porto a 10 de outubro e se estenderam a Lisboa, tendo já motivado concentrações noutras cidades.

O presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social defende que “a habitação é algo essencial na dignificação da vida de uma pessoa”, salientando que esta “é uma situação absolutamente estruturante e irrelevante que não pode, obviamente, ser secundarizada”.

“O problema não é meramente o de Portugal, mas em Portugal têm a consciência todos os atores que o problema se foi agudizando. Há a clara consciência disso mesmo”, assinalou o bispo auxiliar do Porto.

As manifestações destes últimos dias, que todos conhecemos, vieram avivar a consciência desta realidade. E o ter avivado a consciência desta realidade, em todos os atores políticos de todos os quadrantes, certamente é algo de positivo. Na ótica de que há aqui algo que não podemos colocar debaixo da secretária como algo que o tempo pode resolver ou não.”

O entrevistado destaca que a habitação é uma questão que “é importante olhar de frente e perceber as variáveis que estão ao alcance das decisões, nomeadamente estruturais, a nível da organização da sociedade e a nível político”.

D. Roberto Mariz acredita que o trabalho em conjunto, “em rede”, tendo em conta as opções que foram tomadas no passado e que deram resultado e outras nem tanto, será possível chegar a “medidas que são capazes de se pôr em prática e de traduzir-se em efeito positivo”.

Foto Agência ECCLESIA/PR, D. Roberto Mariz

Questionado sobre a fronteira entre o direito à manifestação e a ordem pública, o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social indicou que a lei “baliza” isso mesmo e que a sociedade portuguesa já deu, no passado, “provas sábias e sensatas de que é possível conseguir-se essa harmonização e essa articulação”.

Nesse sentido, o bispo auxiliar do Porto lembrou o 25 de Abril de 1974, que pôs o mundo a olhar para um povo que, de um “modo sereno e sensato”, colocou “a transformação em vigor e a acontecer como realidade operante e operativa”.

“Também estou convencido e certo que é possível, e claramente possível, harmonizar o direito à manifestação, o direito a ter causas que se coloquem também na ordem do dia e onde a ordem pública é tão bem claramente respeitada”, disse.

O Encontro Nacional da Pastoral Social, que termina hoje em Fátima, no Steyler Hotel, reuniu desde quarta-feira responsáveis do setor e especialistas nacionais e internacionais em torno do tema ‘Os pobres e o amor que transforma: ler a Dilexi Te, um ano depois’.

PR/LJ/OC

Partilhar:
Scroll to Top