Igreja/Sociedade: A Literatura, a Filosofia e a Teologia como caminhos de José Rui Teixeira para as interrogações sobre Deus

Professor e Teólogo escreveu a biografia da irmã Lúcia, que acompanhou os documentos entregues no Vaticano, em 2022, na Causa de Canonização, presidiu como leigo à Comunidade de Fradelos, no Porto, e explica a poesia e a fé como «dons» que enformam a vida

Foto Agência ECCLESIA/JG

Maia, 15 jul 2026 (Ecclesia) – José Rui Teixeira, Professor, Poeta e Teólogo, disse que contar e escutar a vida a partir da arte poética foi a sua primeira vocação, “um dom, tal como a fé”, que assume enformar a sua vida.

“A fé ser uma intuição poética, e a própria poesia ser um modo de olhar o mundo, são, para mim, premissas fundamentais da existência. Quando, na minha infância, a minha mãe tinha histórias para me contar, eu preferia que ela me lesse poemas, e as primeiras coisas que eu li foram poesia”, conta à Agência ECCLESIA.

José Rui Teixeira recorda a descoberta de alguns poemas, e seus autores, pela boca de Daniel Faria, poeta português que faleceu no Mosteiro Beneditino de Singeverga, em Santo Tirso, de quem foi colega e contemporâneo nos anos 90, durante a formação no Seminário Diocesano do Porto.

“A primeira vez que eu ouvi Herberto Hélder foi na voz do Daniel, no quarto do seminário, qual grupo do «Clube dos Poetas Mortos» que se reunia para ler e escutar poesia. Quando nos reencontramos um pouco depois, já eu como seminarista em Teologia, e ele estudando na Faculdade de Letras em Estudos Portugueses, nós compartilhávamos o mesmo autocarro 37, e ficávamos ali uma, duas, três horas, a conversar. São encontros muito luminosos quando conhecemos alguém que partilha a mesma linguagem, o mesmo olhar sobre o mundo, e a partilha de leituras”, recorda.

O poeta e teólogo reconhece ter sido a amizade com o poeta beneditino que marcou o seu “desejo” de também ser poeta.

“A escrita do Daniel enforma a interrogação sobre Deus. Sempre fui da opinião que a poesia do Daniel sobre Deus está longe de ser um lugar sossegado. O Daniel, sendo um poeta intrinsecamente místico, a sua poesia é muitas vezes não um lugar da presença, mas lugar da ausência de Deus. Acho que herdamos lugares diferentes de interrogação, mas partilhamos o mesmo grau de interrogação”, explica.

Marcado pelo poesia, elegendo desde cedo a importância da Literatura na sua vida, José Rui Teixeira planeava seguir Arqueologia, mas “em 1992 surgiu a inquietação, inteligível na altura”, sobre a possibilidade de ser padre.

“Eu estudava na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, a 200 metros da igreja românica de Cedofeita, e comecei, discretamente e um bocadinho a medo, a ir à missa sozinho. Ficava na última fila. Não tinha qualquer educação católica, nem prática sacramental”, recorda.

Nessa altura, conhece a livraria Paulinas e a irmã Fernanda: “Eu era um miúdo, que passava diariamente pela livraria para folhear e ler algumas páginas, sem dinheiro para comprar os livros. Com muita delicadeza, ela passou a emprestar-me livros à segunda-feira, que eu lia e devolvia com todo o cuidado à sexta, para que pudessem ser vendidos. O meu gosto pela Teologia começou ai”.

Essa descoberta conduziu José Rui Teixeira a “aterrar como paraquedista” no Seminário diocesano do Porto, onde estudou durante dois anos, tendo saído para ser cuidador da mãe até à sua morte – “Quando saí, achavam que iria entrar em Singeverga como o Daniel, mas não. De qualquer forma sai convicto que terminaria Teologia”.

A ligação que manteve à Teologia, Literatura e Filosofia traduziu-se na “feliz” docência que viveu e radica também a experiência na comunidade de Fradelos, onde conheceu o padre Leonel Oliveira, no final dos anos 90, “homem absolutamente profético”, que desenvolveu o centro catecumenal no Porto, “confiado pelo bispo do Porto D. Júlio tavares Rebimbas”, que fez da comunidade de Fradelos um local “de uma imensa liberdade dos filhos de Deus”, radicada na “simplicidade, a coragem, a alegria e o desassombro”.

“Era uma comunidade que tinha todas as condições para ser uma comunidade presidida por um leigo”, reconhece, tarefa que assumiu a partir de 2012, e a pedido de D. Manuel Clemente e de D. António Francisco dos Santos (anteriores bispos do Porto), após a morte do padre Leonel Oliveira, em 2015.

Em 2018, José Rui Teixeira foi convidado a escrever a biografia da irmã Lúcia – “uma mulher absolutamente extraordinária” – texto que acompanharia o processo de canonização da vidente de Fátima, quando enviado para o Vaticano, numa tarefa que desenvolveu entre 2018 e 2021.

“É necessário apresentar a irmã Lúcia à Igreja e ao mundo e era importante a irmã Lúcia não ficar refém de uma certa tendência que existe para ser carmelita, ou ser de Fátima, ou para a forma como se vive uma religião. Era tão bonito explicar às pessoas que a sua história é sem pontas soltas, que não tem ali nada de epifenómenos paranormais, que não há situações que fujam à de uma existência, sendo que é uma existência marcada por uma condição de vidente, é condição de alguém que amava muito o Reino de Deus”, sublinha.

A conversa com José Rui Teixeira pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta noite na RTP Antena 1, após a meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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