«Conexão desconetada», quadro perfecionista moral e comportamentos «transgressivos» marcam cultura juvenil alerta psicólogo, psicoterapeuta e membro do Seminário de Milão, que esteve em Portugal no X Simpósio do Clero 

Foto: Patriarcado de Lisboa

Fátima, 01 set 2022 (Ecclesia) – O padre Stefano Guarinelli, psicólogo, psicoterapeuta e membro da equipa de aconselhamento psicológico do Seminário de Milão, disse que os jovens seminaristas hoje vivem numa “conexão desconectada”, dentro de um quadro “moral perfecionista” mas com dimensões transgressivas.

“A influência da cultura da Internet é muito forte. Temos a ideia de um perfecionismo moral mas não é raro que os nossos jovens vivam uma espécie de conexão desconectada, ou seja, são perfeitos em algumas dimensões mas muito transgressivos em outras. Por isso, há seminaristas muito rígidos na sua forma de pensamento moral e que o pedem aos fiéis, mas que do ponto de pessoal, permitem-se qualquer transgressão. Do ponto de vista moral é péssimo, e do ponto de vista psicológico, divide a consciência e não é bom”, explica o sacerdote italiano à Agência ECCLESIA.

O padre Stefano Guarinelli, psicólogo e psicoterapeuta, docente de Psicologia e membro da equipa de aconselhamento psicológico do Seminário de Milão, adverte que a formação rica em teologia e pastoral dos seminaristas e futuros padres, tem como lacuna a dimensão relacional.

“O padre tem de ser um homem de relação. É paradoxal: se o padre é um homem de relações não está a ser formado em relações. O padre tem vários anos de formação no seminário, faz cursos de Teologia e de pastoral, mas uma formação própria de relações não está consagrado que aconteça. Falta-lhe o feedback de outra pessoa que lhe diga «não estás bem». O risco é sermos homens de relações, mas que vivem a relacionalidade de forma muito solitária e autorreferencial. Insistir na importância da sinodalidade sem uma formação que privilegie as relações torna-se perigoso porque com tantas reflexões e documentos, na prática, não se vive a sinodalidade”, alerta.

O padre Stefano Guarinelli esteve em Portugal para no X Simpósio do Clero, dedicado ao tema «Identidade Relacional e Ministério Sinodal do Presbítero», abordar a dimensão relacional com Deus e a dimensão interpessoal na identidade do sacerdote, “duas faces da mesma moeda”.

Formador no seminário de Milão, o padre Stefano dá conta de jovens “adultos até certo ponto” que entram no Seminário.

“Não é raro que estes jovens, do ponto de vista da psicologia de grupo, da identidade, do término da adolescência, não tenham completado algumas etapas do seu percurso de amadurecimento. São adultos mas só até um certo ponto. Devem estruturar-se mais. Não é uma tragédia mas o Seminário deve ter esta consciência, ao nível da identidade de género, identidade relacional, relações com os outros”, explica.

Inseridos numa «sociedade líquida», (designação de Zygmunt Bauman, que se refere a relações sociais, económicas e de produção frágeis, fugazes e maleáveis), os jovens percebem-se também “fascinados por um certo fundamentalismo, de ideias, de comportamentos”.

“Considero, pessoalmente, que o Evangelho não pode ser fundamentalista. O desafio é formar um homem livre, que sabe pensar, perceber a realidade e as pessoas às quais vai ser enviado”, sublinha.

O padre Stefano Guarinelli enfatiza a necessidade da dimensão da escuta relacional no processo sinodal e pede que o tema “não se conclua com um novo documento”.

“Não quero ser pessimista, mas do ponto de vista prático qualquer coisa se faça. Que o tema não se conclua com um novo documento, porque temos muitos. Espero que convoque muitas dimensões que, no meu entender têm sido negligenciadas, sobretudo o relacionado com o mundo feminino, as mulheres, os ministérios dos leigos na Igreja: que nestes temas, mesmo que com pequenos passos, mas passos concretos. Qualquer pequeno sinal de mudança será muito bom”, indica.

O sacerdote afirma estar convicto da “convicção nos passos concretos que o Papa Francisco quer dar”.

“Estão a acontecer em algumas responsabilidades eclesiais, seja na Igreja universal seja nas igrejas locais, alguns passos estão a dar-se. Encontro muita resistência, mas é também um sinal positivo: quando há resistência está em causa uma mudança. Importa não esmorecer perante as resistências e percebê-la como um sinal de que o processo está em curso. Não estamos a fazer coisas más, mas perceber que quando se muda algo, algumas coisas não correm como gostaríamos”, finaliza.

LS

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