Tema foi destaque no 57.º Encontro Nacional de Catequese em Setúbal 

 

Setúbal, 06 abr 2018 (Ecclesia) – O 57.º Encontro Nacional de Catequese, que termina esta sexta-feira em Setúbal, definiu as linhas de um novo perfil de catequista que a Igreja Católica quer fomentar para ir ao encontro das exigências dos tempos atuais.

O evento, que foi acompanhado pela Agência ECCLESIA, serviu de preparação para a próxima assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, entre 09 e 12 de abril em Fátima, onde um dos pontos a abordar pelos bispos portugueses será o programa de formação para catequistas.

D. António Moiteiro, bispo de Aveiro e presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé (CEECDF), integrou o grupo responsável pela definição de uma proposta de formação a apresentar no encontro, um trabalho que se estendeu entre novembro de 2017 e março deste ano.

De acordo com aquele responsável, na base deste plano está a noção de que “o paradigma mudou” e que é preciso dar passos para uma “catequese renovada nas comunidades cristãs”.

Em primeiro lugar, é preciso ter a consciência de que a religião e a fé hoje já não são vividas da mesma forma que “há 100 anos atrás”, em que por estarem mais enraizadas, os catequistas davam as “fórmulas” da fé e depois estas eram reforçadas “na família e na paróquia”.

Atualmente a pastoral católica tem de passar muito pelo “primeiro anúncio” e em muitos casos por voltar a passar as bases da fé às comunidades, às famílias, aos pais.

Outra questão que o bispo aponta é a falta de momentos para a transmissão da Palavra de Deus nas paróquias, para a vivência cristã em comunidade.

Um dos pontos essenciais da proposta do novo plano de formação de catequistas, que será levado à Assembleia Plenária da CEP, é o de levar os próprios catequistas a fazerem essa experiência de primeiro anúncio, de catecumenato, através de um “modelo” inspirado na “catequese de adultos”.

“Nós temos muitos pais que hoje chegam-nos sem a iniciação da fé, apenas com a tradição de fazerem as festas tal como as celebraram quando eram crianças. Claro, isso para nós ainda é uma riqueza, porque a catequese ainda motiva para que os pais matriculem os seus filhos. Mas temos de envolver os pais também nesta educação na fé”.
D. António Moiteiro.

O presidente da CEECDF realça que toda a catequese é antes de mais “uma iniciação a todas as dimensões da vida cristã”.

“É a dimensão do acreditar, do celebrar, é a dimensão do viver e é a dimensão da oração e também do anúncio, da evangelização”, acrescenta.

Daí que nos pressupostos da formação dos catequistas esteja incluída uma primeira etapa de “sensibilização”, em que estes responsáveis são convidados a perceber como é que “Deus os chama a serem catequistas”.

E depois um curso de iniciação, em que o desafio passa por perceber “o que é ser catequista hoje”.

D. António Moiteiro, nesta entrevista à Agência ECCLESIA, enunciou “duas atitudes fundamentais do perfil do catequista”: o ser “discípulo missionário” e simultaneamente “alguém que é testemunha do que acredita e do que vive”.

“O catequista é um discípulo que aprende, também ele está a caminho, também ele tem a necessidade de se identificar cada vez mais com Jesus Cristo; mas por sua vez ele também é testemunha para os seus catequizandos, ele também é mestre. E estas são as duas dimensões que devemos cultivar muito na formação de catequistas”.
D. António Moiteiro

No Encontro Nacional de Catequistas, estiveram participantes vindos de vários contextos comunitários e sociais, cada um com contributos diferentes.

Num conjunto de testemunhos que poderão ser acompanhados a partir de dia 16 de abril, no Programa ECCLESIA na Antena 1, a partir das 22h45, ficaram vários contributos para o futuro deste setor.

Isabel Rosendo, que participou integrada no Secretariado Diocesano de Catequese de Setúbal, considerou a renovação do programa de formação dos catequistas uma “temática fundamental”, tendo em conta que hoje “as realidades são muito diversas, o mundo está muito à frente”, e a Igreja Católica “não pode ficar para trás”.

“Se bem que a realidade do país seja bastante diversa”, o haver “uma linha de rumo é fundamental”, reconheceu.

A mesma catequista frisou ainda que a par de uma renovação de métodos, é essencial uma atualização de meios, neste caso aproveitando os novos recursos tecnológicos existentes para a transmissão da mensagem cristão aos jovens.

“Há milhares de coisas que se podem aplicar, tomara eu que há quarenta anos elas existissem. Não quer dizer que elas substituam a mensagem, mas a maneira como ela é transmitida é que é diferente. O catequista continua a ser o grande meio audiovisual, a nossa paixão é aquilo que leva à conversão, mas se tivermos meios que nos ajudem temos que os usar”, sustentou Isabel Rosendo.

Um ponto de vista acompanhado por Pedro Teixeira, proveniente da Diocese de Viseu, que recordou que hoje “a sociedade” e os mais novos “questionam constantemente”.

E se a catequese quiser continuar a ser fiel à sua “missão”, que é “provocar”, suscitar a ligação à fé, “isto exige que haja também um discernimento, uma preparação”.

Rita Barcelos, da Diocese de Angra, no Arquipélago dos Açores, apontou para a dificuldade que é “conjugar” um programa de catequese, de relação “com as famílias”, no contexto de 9 ilhas diferentes.

“Ás vezes o catequista acaba por ser uma espécie de apêndice do pároco, que vai lá uma vez por semana picar o ponto, mas é muito mais do que isso”.Pedro Teixeira

“É um problema com o qual nos temos deparado, queremos partir para aí, mas ainda está distante do nosso desejo”, admitiu.

Sobre o desafio feito aos catequistas, para que se assumam como guias e testemunhas da fé no meio da comunidade, Sílvia Pinheiro destacou a necessidade de abandonar um esquema mais “escolar”, de simples transmissão de conhecimento, que persiste no setor.

“Não é apenas ser catequista aquela horinha da semana para a catequese, mas o catequista tem de ser visto e acompanhar os catequizandos”, defendeu.

Ensinar pela palavra mas também pelo exemplo de vida, algo que para Cristina Carvalho é indispensável, sobretudo na relação com as crianças e adolescentes, que devem também ter oportunidade de aceder a momentos e atividades em que experimentem o que estão a aprender no contexto das sessões de catequese.

“Eles (crianças e jovens) precisam é de estar em atividade, experienciar, se for só expositivo não vão a lado nenhum. Viver na prática aquilo que é transmitido na catequese. E é por aqui que este programa de formação que nos foi apresentado também nos indica a seguir”.
Cristina Carvalho, Braga

De acordo com o presidente da CEECDF, D. António Moiteiro, neste Encontro Nacional de Catequese foram dadas essencialmente “as dimensões e os módulos” a que obedecerão os cursos de formação dos catequistas.

“Se este plano for aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa passaremos ao desenvolvimento dos módulos e dos temas, este é o próximo passo”, acentuou.

A decisão será tomada durante a assembleia plenária da CEP entre os dias 09 e 12 de abril, na Casa de Nossa Senhora das Dores em Fátima, com o debate a ter também como base o documento “Catequese: A alegria do encontro com Jesus Cristo”.

JCP

 

 

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