José Manuel dos Santos, da Comissão organizadora do centenário do nascimento, e José Rui Teixeira, da Cátedra Poesia e Transcendência, evocam figura maior da literatura portuguesa  

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Lisboa, 04 nov 2019 (Ecclesia) – José Manuel dos Santos, da Comissão organizadora do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, diz que a pessoa que fazia política é a mesma que escrevia poesia não havendo “duas Sophias” mas uma “profunda unidade”.

“Não há uma outra Sophia a fazer política: a mesma que escreve versos é a que ergue a sua voz para defender os grandes ideais e para defender o que para ela era a grande urgência do dizer, do denunciar e do propor”, explica o escritor à Agência ECCLESIA.

O investigador e presidente do Conselho Científico da Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Melo Breyner Andresen afirma que a poesia de Sophia “dignifica a vida de cada um”.

“A sua poesia foi um lugar de convergência para um conjunto de valores mas, na realidade, é mais aberta do que isso e não podemos dizer que é uma autora puramente de intervenção; é também, mas apresenta um imaginário para além dessa dimensão de intervenção social, política e cívica”, José Rui Teixeira que prefere sublinhar a interrogação sobre Deus.

No dia 6 de novembro assinalam-se os 100 anos do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma data que está a ser marcada por várias iniciativas, quer da Academia, como da sociedade civil.

A desenvolver um trabalho desde 2006, dois anos após a morte da poeta, a Cátedra Poesia e Transcendência, instituída na Universidade Católica Portuguesa, no centro regional do Porto, procura “o diálogo que a teologia vai estabelecendo com a literatura a partir da obra e da vida de Sophia”.

“Agrada-me muito a poesia de Sophia na ótica de questionar Deus e, a transcendência a que a sua poesia se abre está também no âmbito do essencial e nesse sentido, é uma poesia profundamente interrogativa e, até, essencial para compreender a Teotopia, de lugar de Deus, que a literatura aprofunda”, explica.

José Manuel dos Santos dá conta de uma “viragem” protagonizada por Sophia de Mello Breyner Andresen: “Ela viveu num tempo em que se entendia que a literatura devia estar ao serviço da revolução e da política e ela faz a inversão disto. E diz que a sua intervenção política se faz em nome da poesia”.

Ao mesmo tempo que se espantava com o “esplendor do mundo” afirmava “o sofrimento do mundo”.

“O entendimento que faz de Deus está em unidade com a sua intervenção poética e política”, traduz José Manuel dos Santos.

José Rui Teixeira dá conta de diversas gerações marcadas pelo “imaginário dos contos” que Sophia de Mello Breyner escreveu.

“Penso que não há um português que seja imune: não se trata apenas da sua elegância e figura que representa mas a forma como ocupa o imaginário de gerações sucessivamente”, reconhece.

A Comissão Organizadora do centenário “percebeu” que Sophia “para além de viva, está presente no espírito e coração das pessoas”.

“Todos os dias havia prova disso: desde pessoas que há vários anos tomaram conta da sua obra, artistas plásticos ou músicos que quiseram criar a partir dela, ou entre gerações mais novas, que nas escolas, por exemplo, se quiseram associar ao centenário”, dá conta.

A Comissão, sediada no Centro Nacional de Cultura, associação que a própria poeta dirigiu nos anos 60, destaca, entre outras iniciativas, uma exposição «Lugares de Sophia», a partir do dia 12, no Quartel do Carmo, em Lisboa, e o concerto comemorativo «Orfeo ed Euridice», de Christoph Wilibald Gluck.

Também a Cátedra Poesia e Transcendência organiza, nos dias 8 e 9, o primeiro colóquio internacional Teotopias, centrado na comemoração do centenário do nascimento de Sophia, cujo mote é um verso «Trazido ao espanto da luz», reunindo diferentes oradores vindos de Buenos Aires, do Rio de Janeiro e de Madrid.

LS

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