Da visita do Papa aos casos de abuso sexual por membros do clero e da crise económica à aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo: o ano 2010, Centenário da República, na análise do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Agência Ecclesia – 2010 fica na história como o ano da visita do Papa Bento XVI a Portugal. Um acontecimento apenas para recordar ou com consequências?
D. Jorge Ortiga – A visita do Papa foi um acontecimento histórico. Ele tem um antes, um durante e um depois. Tratou-se de uma solicitação da Conferência Episcopal Portuguesa, na continuidade da reflexão sobre renovação da Igreja em Portugal que vinha a ser feita por nós e tinha encontrado já um momento particular na visita ad limina. O nosso pedido coincidiu também com a vontade do Papa em ser peregrino de Fátima.
O durante, todos conhecemos: uma mensagem concreta, os destinatários precisos e objectivos bem definidos. Agora está a acontecer o depois. É um acontecimento que queremos que tenha vitalidade e que provoque uma reflexão profunda na Igreja em Portugal.

 AE – Há sectores da Igreja e até da sociedade onde esse depois esteja a acontecer?
JO – Neste momento, há uma reflexão em curso sobre os documentos por sacerdotes, consagrados e leigos, em ordem a uma pastoral renovada.
Tenho também conhecimento que grupos de pessoas que espontaneamente analisam os documentos e estão reflectir sobre o contributo a dar na definição de um projecto pastoral comum em todas as dioceses.

 AE – Há resultados concretos da visita?
JO – Portugal sempre teve um amor particular pelo Papa (chamavam a Portugal a “Nação Fidelíssima”). Esta visita serviu para que desaparecessem clichés acerca deste Papa que estavam a determinar a opinião do povo português sobre Bento XVI e crescesse o amor ao Papa, determinante para acolher a sua mensagem.
Por outro lado, a mensagem que ele deixou sobre Fátima, referindo a sua actual dimensão profética para o mundo e para a Igreja, desafia-nos a considerar Fátima não só como lugar de peregrinação, um lugar especial, em Portugal. Fátima tem uma dimensão de anúncio, em nome de Deus, para toda a sociedade.

AE – Ao avaliar o impacto da visita do Papa, analistas referem que Bento XVI conquistou o espaço público, existindo sintonias da Igreja com a sociedade. Existe consciência eclesial desse facto? Ele desafia a estar presente no espaço público com estratégias e linguagens do tempo actual?
JO – Essa consciência existe. O modo como as coisas decorreram confirma essa prioridade pastoral.

[[v,d,1717,Análise do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Jorge Ortiga]]AE – Mas foi a primeira vez que um evento eclesial teve tanto impacto, nomeadamente mediático?
JO – A primeira vez não… E já tínhamos consciência de que a Igreja tinha de deixar de se centrar nela própria e mergulhar no mundo. Hoje, ela tornou-se muito mais evidente.
No encontro com a cultura, no Centro Cultural de Belém, Bento XVI dizia que era preciso “reaprender” a estar no mundo. Isso indica que nós já soubemos estar, já soubemos ser fermento na sociedade e que talvez hoje tenhamos centralizado a acção da Igreja dentro dela própria, quando é necessária uma presença muito concreta nos variados âmbitos da sociedade: na cultura, na escola, na universidade e outros lugares.
Quando o Papa dizia também que o cristão leigo deve ser uma presença irradiante do Evangelho, desafiava a estar no espaço público, mesmo silenciosamente, mas iluminando, fazendo propostas.

 AE – Essa presença pode coexistir com a manutenção de uma estrutura hierárquica da estrutura da Igreja, a nível nacional ou local?
JO – Existe uma conversão a fazer. Na linguagem do Concílio Vaticano II, a Igreja é definida como uma comunhão. E acrescenta-se: hierárquica.
Mas esta não é uma comunhão de irresponsáveis! É uma comunhão de pessoas que, com os seus dons, talentos e carismas, edificam a Igreja. Como a hierarquia.

 AE – E nessa comunhão existe espaço para respeitar o diferente?
JO – É fundamental! O grande lema da Igreja é o desafio que a palavra unidade lhe apresenta. A Igreja é una não no sentido de uma obediência servil ao Papa, mas aceitando as diversidades. Não se trata de uma uniformidade, mas de uma unidade, que supõe a diversidade.
Talvez nós, Igreja hierárquica, não tenhamos sido capazes de aproveitar a diversidade: a diversidade dos leigos, com os seus conhecimentos e competências específicas; aceitando também os leigos o “jogo” de um sacerdote ou um bispo presidir à caridade (como sempre foi definida a missão da hierarquia).
Há alguns leigos e padres que “clericalizam” a pastoral, centralizando tudo na pessoa do padre ou do bispo. Mas a vontade não é essa. É antes de unir as diversidades de pessoas, de competência e de funções.

AE – O pensamento diferente tem espaço nessa diversidade?
JO – À primeira vista pode parecer que a Igreja “corta as asas” a quem tem um pensamento mais libertino (em termos de ortodoxia).
Pelo que me diz respeito, acho que algumas afirmações, mesmo que exageradas, têm o valor de provocar a reflexão.

AE – No encontro no Centro Cultural de Belém, Bento XVI afirmou a necessidade do diálogo, mesmo com outras verdades…
JO – Aí está! É nesse diálogo, dentro da Igreja, que se aceitam as diversidades. O que constitui um desafio permanente. A sociedade moderna é plural e não basta dizê-lo. Temos de saber conviver com a diferença.
A Igreja aceita e promove o diálogo e a tolerância – mesmo que nem sempre atinja esse objectivo doutrinalmente – entre as religiões. Também na relação com o mundo. Não estamos no tempo de condenações apriorísticas…

AE – Estaremos mesmo no tempo de separar Igreja/Mundo?
JO – Não. Estamos precisamente no tempo em que a Igreja tem de mergulhar no mundo. A Igreja dos primeiros tempos é um paradigma para nós: o cristão é uma pessoa como outra qualquer, mas sendo a alma do mundo.
Nós fechámo-nos demasiado dentro de portas dos templos. Temos de sair das nossas sacristias, cumprindo a missão da Igreja, como nos desafiou o Papa. O que não acontece apenas geograficamente, partindo para territórios distantes, mas coração a coração: no ambiente de trabalho ou qualquer outro contexto onde parece que a Igreja não tem nada a dizer. Por exemplo na política. Não se trata criar um partido católico. Antes que os católicos se assumam e sejam capazes, no jogo político, manifestarem o que é que Cristo poderia oferecer de novo.

AE – Acha possível aí a coerência com princípios cristãos?
JO – Espero! Talvez seja esse o grande desafio da política, a coerência… Porque não, então, católicos na política, com coerência, sacrificando mesmo o carreirismo?! A Igreja tem de preparar os seus quadros para que católicos, sem rótulos, estejam em Ministérios, Assembleias e outros locais onde se constrói a sociedade.

Repensar a Igreja em Portugal rejeita conservadorismos
AE – Que passos foram dados, em 2010, no projecto “Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal”?
JO – Está elaborado o “Instrumento de Trabalho”, preparado por uma equipa após o diálogo com os principais responsáveis pela Pastoral nas Dioceses. Agora, está a ser analisado pelo Episcopado, pelos Conselhos Presbiterais e Pastorais, pelas Congregações Religiosas e Movimentos. De todos esperamos contributos e sugestões.

 AE – Também daqueles que não têm assento nas estruturas oficiais?
JO – Todos os movimentos, de maior ou menor expressão, deveriam aceitar o pedido que a Igreja Católica lhe faz. Também os leigos individualmente considerados: analisem esse instrumento de trabalho e proponham as suas considerações. Também quem não é católico: que dê as suas ideias e suas sugestões.
A sondagem que iremos realizar tem também o objectivo de ir ao encontro das pessoas, mesmo as alheias à Igreja e à fé cristã, para ouvir o que elas nos têm a dizer, as suas aspirações. Queremos desenvolver uma pastoral que responda e não que imponha caminhos percorridos.

AE – A pastoral proposta estará a adiantar respostas para perguntas que ninguém faz?
JO – Isso é que eu gostaria que não acontecesse. Parece-me que é fundamental que a nossa pastoral seja de resposta. Agora, talvez estejamos a repetir soluções feitas há muito tempo e, por isso, a Palavra de Deus não está a ter incidência no coração das pessoas. A nossa linguagem e as nossas propostas estão alheias às preocupações e às aspirações das pessoas.

AE – Acredita que, neste processo de repensar a pastoral da Igreja em Portugal, surjam iniciativas inovadoras e eficazes para o tempo de hoje?
JO – Rezo para que isso aconteça. Mas verifico que há a tentação de pisar o mesmo terreno e não dar um passo em frente. Neste momento, é preciso dar um passo em frente, acreditando que o momento civilizacional é novo. Hoje estamos num mundo novo.
Por vezes, dá impressão que muitos sacerdotes ainda não se convenceram da novidade deste mundo e alguns ainda sonham que a realidade que estamos a viver em termos mundiais passa e voltaremos novamente quase à cristandade. Alguns ainda têm essa nostalgia da cristandade.

AE – Há responsáveis na Igreja Católica com essa nostalgia?
JO – Alguns sacerdotes, de mais idade, alguns grupos ou movimentos… A Igreja é capaz de integrar tudo! Existem essas pessoas, esses pequenos grupos, que pensam que estamos a percorrer um caminho errado…

AE – Refere-se a tendências denominadas “conservadoras”?
JO – Sim, sim. Essa tendência conservadora continua bastante forte em alguns sectores da Igreja, ligados a sacerdotes e a leigos. Encontramos pessoas isoladas e pequenos grupos que ainda pensam que a pastoral da Igreja passará somente por algumas devoções…

AE – O caminho não é por tendências “conservadoras”?
JO – Não acredito. Em Igreja temos uma noção muito clara em termos teológicos e filosóficos do que é o tempo. Alicerçamo-nos no presente, temos uma tradição como critério inspirador da fé e dos comportamentos, mas a Igreja sempre caminhou rumo ao futuro. Se não tivermos a dimensão do amanhã, desperdiçamos o hoje. O que deve comandar a vida da Igreja é a fidelidade ao Evangelho, reconhecendo que ele nos coloca sempre na vanguarda, obrigando-nos a dar um passo em frente. 

AE – Um projecto concreto, por exemplo, é a Missão 2010 na Diocese do Porto. É um ensaio para respostas que a Igreja Católica em Portugal pode levar por diante?
JO – É uma experiência, como já aconteceu em Lisboa. Outras Dioceses optam pela realização de um percurso sinodal, como em Braga e agora em Viseu, por exemplo.
São experiências muito concretas onde se procura discernir o melhor caminho para o hoje da Igreja. Concretamente na Diocese do Porto, foi determinante a convicção de que hoje é necessária uma Igreja possuída pela missão.

AE – De todo o percurso de repensar a pastoral da Igreja em Portugal, resultará um manual prático para as várias estruturas eclesiais ou um guia inspirador?
JO – O grande objectivo é que na Assembleia Plenária da Conferência Episcopal de Novembro de 2011 seja aprovado um Plano Pastoral da Igreja em Portugal, com duas ou três ideias muito concretas que depois cada diocese concretizará de acordo com as suas características específicas. Seria importante integrar neste Plano também as religiosas, os religiosos e os movimentos.
Parece-nos que Fátima, nas multidões que acolhe, constituirá uma oportunidade, uma graça, no assimilar dessa dinâmica de toda a Igreja Católica em Portugal.

Igreja sem fracções internas
AE – D. Jorge Ortiga está no último ano do segundo mandato como Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Como avalia o serviço que prestou?
JO – É difícil fazer uma avaliação.
Em Maio de 2011, Deus concede-me a graça de me libertar desta tarefa.

AE – Porquê? É um peso?
JO – Não. É uma responsabilidade. Evidentemente que foram seis anos um pouco característicos: as ligações com os Governos, concretamente para a regulamentação da Concordata não foram fáceis em alguns aspectos (até porque ainda há aspectos a resolver). Mas, para mim, foi um prazer muito grande servir.
A preocupação foi de estar mais atento, alargando os horizontes. Para mim, um minhoto de gema e que tinha ficado sempre pelo Norte (com uma maneira peculiar de ver a Igreja), servir como Presidente de uma Conferência Episcopal foi um apelo muito grande.

AE – Se tivesse que eleger um aspecto mais positivo qual escolheria?
JO – A unidade que existe entre todos os Bispos. Há quem diga que a nossa Conferência Episcopal é demasiado pacífica, que não se agita com outras. Parece-me que o ambiente entre nós, mesmo diferentes, é de unidade e comunhão.

AE – É real esse espírito colegial?
JO – É, com toda a consciência o digo. O que não quer dizer que não haja opiniões diferentes e que, quando chega a hora de votar tudo, seja por unanimidade. Há muitas ocasiões em que triunfa apenas a maioria, mas depois assume-se o que foi decidido.
Ninguém pode dizer que, na Igreja em Portugal neste momento, há partidos ou fracções.

AE – Não há dioceses de primeira ou de segunda?
JO – Não. Claro que umas têm mais possibilidades do que outras, maiores e com mais sacerdotes…

AE – Nem bispos de primeira ou de segunda…
JO – Não. Somos todos iguais. Existe uma comunhão afectiva e efectiva. A comunhão entre todos, na relação fraterna, com maior simpatia por este ou aquele, mas com um amor a todos. E depois efectiva, com espírito de colaboração.
Isso verifica-se em momentos da vida da Igreja em que é normal a presença dos bispos: a tomada de posse de um bispo ou o funeral. Espontaneamente, há grande participação de todos os bispos.

AE – Na enumeração de aspectos positivos e negativos, o que correu menos bem?
JO – Por exigência pessoal, preocupo-me por não me deter no negativo, antes caminhar e avançar. Se há aspectos que me tenham magoado e não tenham corrido tão bem, no dia seguinte ou pouco tempo depois é esquecido.

AE – Por exemplo: o processo de elaboração do articulado da Concordata foi bem conseguido?
JO – Penso que deveria ter havido mais diálogo entre nós, bispos. Deveria ter havido mais participação da nossa parte na redacção da Concordata. Sobre a regulamentação, as dificuldade foram significativas e há aspectos ainda não regulamentados. O trabalho foi, no entanto, sendo realizado dentro dos objectivos que pretendíamos, no contexto de uma liberdade religiosa que não queremos só para nós mas estendida a todas as confissões religiosas.

AE – Deixa alguma herança para o seu sucessor, algum dossier que quisesse ter concluído?
JO – Seria muito bom que todos os aspectos da Concordata estivessem já tratados…

AE – Gostaria de terminar o mandato com esse assunto fechado?
JO – Fechado não será possível. Porque a atitude de diálogo da Igreja com o Governo tem de existir sempre. Aceitando um regime de separação, na consciência de que a laicidade é uma atitude boa para a Igreja, temos de aceitar sempre o diálogo, por ventura o confronto natural.
Estava previsto que o documento final do projecto “Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal” fosse aprovado em Maio. Era um gosto que esse processo terminasse meu mandato. Mas, sendo realista, passa para o seguinte. E a vida da Conferência não tem um começar e um terminar. Continua.

AE – Neste ano 2010, muitos bispos da Conferência Episcopal renunciaram por limite de idade. Quais as suas expectativas para esse processo novas nomeações episcopais?
JO – Pode ser uma ocasião de mudança e renovação, nomeadamente nas Comissões Episcopais. Aliás, o desenvolvimento de projectos próprios nas Comissões Episcopais, sem esperar pela Conferência no seu conjunto, era um dos projectos em que queria ter avançado.
A Conferência Episcopal Portuguesa, em número de bispos, é reduzida. Quanto mais juventude existir, é de esperar que outras ideias surjam para o caminho que estamos a percorrer.

AE – O processo de nomeação dos bispos é o adequado aos tempos de hoje?
JO – Penso que deveria haver mais diálogo, falando abertamente entre nós sobre este processo. Tudo está no âmbito do confidencial, desenvolvido pela nunciatura. Pensa-se que nem os leigos são ouvidos, o que não é verdade. Para cada caso, há um número de leigos que é ouvido.
Há quem fale que deveria ser a própria diocese a promover um movimento…

AE – Um exercício mais democrático?
JO – Não sei se seria viável… Talvez alargar o diálogo e ouvir mais pessoas sobre as qualidades que gostariam de encontrar no bispo, é capaz de ser oportuno.
A Santa Sé estará também atenta a isto. Os tempos são outros, o processo ainda é o mesmo, mas pode acontecer que se altere qualquer coisa.

Política em Portugal é previsível
AE – Como avalia a acção do Governo?
JO – Não nos compete avaliar a acção do Governo. Também não nos podemos alhear: se somos enviados para servir um povo, temos de nos colocar do lado dele, identificando-nos com os problemas que vive no quotidiano. E, se verificarmos que a população não está a encontrar respostas adequadas, é um dever da nossa missão intervir.

AE – Isso está a acontecer actualmente?
JO – Creio que sim. O que não quer dizer que estejamos a intervir na política. Nós não fazemos política. Apenas procuramos apresentar a Doutrina Social da Igreja. Propomo-la.
Não apenas eu, mas todos os bispos, no momento oportuno, colocamo-nos do lado do povo para o defender seu interesse. E ninguém nos pode condenar por isso, dizendo que estamos a fazer política.
Muita gente gostaria que nos fechássemos dentro das igrejas, numa dimensão intimista. A religião parte do interior. Mas se não tiver uma repercussão no exterior, é vazia.
É necessário que a Igreja, a hierarquia e o laicado, participe na construção da sociedade. E, infelizmente, talvez não tenhamos os leigos capazes para, no meio do mundo, apontar deficiências que o governo tem, as expectativas que não estão a ser cumpridas, as promessas eleitorais que são feitas e que não sei para onde vão…

AE – Que consequências deveria ter o governo por esses incumprimentos?
JO – As consequências acontecem sempre nas eleições.

AE – Neste ano, esteve em debate a continuidade da legislatura. Teria sido melhor a dissolução do Parlamento?
JO – É uma das questões em que não quero entrar… O que deveria ter acontecido é diálogo e reflexão serena e não apenas orientada por questões ideológicas ou partidárias.
Eu acho que, em Portugal, não há política, no sentido genuíno da palavra (que revele interesse pela polis, pela cidade onde se vive). Há demasiados interesses partidários e carreirismo. Há uma submissão exagerada a um líder, às orientações do partido. E deveria haver liberdade e responsabilidade da parte de todos.

AE – Inclui aí também a oposição?
JO – Incluo toda a gente! Há, quase sempre, da parte dos diversos partidos orientação do voto no Parlamento. Há uma linguagem programada (já sabemos o que um e o que o outro vão dizer). São sempre os mesmos a falar… Para quê tanta gente!? Dizem que há as comissões, para fazer os estudos dos diversos dossiers e não se vêm…
Não gosto de falar nisto publicamente. Mas é bom que os cristãos façam desta questão tema para as suas preocupações.

Ruptura é precisa na economia
AE – O modelo social e económico é constantemente posto em causa. Há alternativas definidas?
JO – Há: a que resulta dos contributos da Doutrina Social da Igreja.

AE – Que sucesso terá a Doutrina Social da Igreja nos tempos actuais?
JO – Tem muito. Estou convencido que este modelo social e económico da actualidade está ultrapassado, desapareceu e estamos a colher os resultados.

AE – Mas continua a aplicar-se…
JO – E continuará sempre. Porque está alicerçado no interesse, no mercado que provoca lucro fácil, permitindo que alguns enriqueçam e outros continuem a viver na miséria.

AE – Terá de haver então um momento de ruptura?
JO – Sim: quando os interesses pessoais derem lugar à responsabilidade recíproca. A alternativa está numa consciência nova, assente nos princípios da Doutrina Social da Igreja da solidariedade e do bem comum.
Nesta fraternidade, haverá sempre quem tenha mais e quem tenha menos, mas as desigualdades não serão tão grandes; e não haverá pessoas com duplo e triplo emprego, antes a sensibilidade para reconhecer que o outro tem uma dignidade idêntica à minha e necessita de poder trabalhar e ter direito a uma vida digna.
Por outro lado, há muita gente também que se não trabalhar e puder ter o precisa para viver, não se interessa por isso. A educação para a responsabilidade no trabalho, que a todos enriquece, é fundamental. E faz parte da alternativa que a Igreja tem proposto. Mas a Doutrina Social da Igreja deveria ser mais conhecida.

AE – As respostas, em tempo de crise, tem dado visibilidade às estruturas da Igreja. Têm sido as respostas adequadas?
JO – A visibilidade sempre existiu. Agora fazem mais falta e, por isso, fala-se mais nelas.
A Igreja foi pioneira, nas cidades e nas aldeias, a lançar centros sociais e paroquiais há muitos anos para dar respostas sociais quando não se falava muito da necessidade delas.
Hoje, essas instituições existem e são fundamentais. Mas não basta. A caridade é muito mais do que isso: é feita de atenção, de silêncio, de tempo. Se é importante o dar, é muito mais importante o dar-se. A lógica do dom, da gratuidade, é um princípio da renovação da sociedade.

AE – As respostas da Igreja podem ajudar a que continue a subsidiodependência?
JO – A Igreja não dá subsídios. Mas, na rede que constitui, a Igreja pode denunciar os que se “movimentam” muito bem nas diferentes instituições e de todas recebem.
É importante ter um conhecimento da realidade, através de um Observatório Social, onde a paróquia pode ser um meio importante para dar a conhecer a real situação das famílias.

Causas fracturantes
AE – Neste contexto social, que sinal constitui a aprovação, em 2010, do casamento entre pessoas do mesmo sexo?
JO – São temas fracturantes, que dividem a sociedade. Com tantos problemas a resolver teria sido melhor que o Governo se metesse por outro caminho.

AE – Correspondem, essas iniciativas legislativas, à desconstrução dos valores na sociedade?
JO – São sinal e sintoma da sociedade em que vivemos. Os valores vão desaparecendo e o relativismo impõe-se, tudo tendo o mesmo valor desde que satisfaça o próprio. Temos de arrepiar caminho!

AE – A liberdade de ensino, em Portugal, tem os dias contados?
JO – Queria que não. Parece-me que ela é uma exigência da democracia, que não é apenas a participação do povo na construção de um país pelo voto. A democracia supõe a existência de instâncias diferentes na sua organização. Tudo o que significa monopolizar ou estatizar é antidemocrático, não promove a alternativa.
O ensino particular e cooperativo não só tem o seu direito e deve ser promovido, como deveria ser acolhido. São propostas diferentes que dão aos pais a possibilidade de escolha. Os pais podem não concordar com a educação que está a ser dada num estabelecimento público. Não por ser público, mas pela orientação que tem.

AE – Neste ano 2010, aconteceu o assinalar do Centenário da República. Que oportunidade constituiu?
JO – Tiveram a vantagem de não ser celebrações megalómanas. Tentaram promover a reflexão, embora bastante reduzida, em todas as sedes de distrito. E isso é uma vantagem.
A celebração, no entanto, não ofereceu conclusões concretas…

AE – Em que âmbitos?
JO – A respeito do exercício da democracia, vendo o que supõe e como deveria ser exercida, quais as exigências da “re-pública”, da coisa pública. Este centenário poderia ser uma oportunidade para analisar, por exemplo, o que faz, e como faz, o Parlamento…

AE – Foi sobretudo um assinalar histórico?
JO – Sim. Não incidiu sobre a questão na actualidade.
A democracia participativa não se pode limitar ao dia do voto, expresso muitas vezes sem conhecimento do programa, da ideologia do partido. E o centenário da República poderia ter sido uma ocasião para este debate.

AE – 2010 foi também Ano da erradicação da pobreza. E a pobreza aumentou…
JO – É de lamentar… Iniciativas concretas para a verdadeira erradicação da pobreza, com o compromisso dos Estados, não se vêm. E não me refiro só a situação de Portugal.
Creio que a pobreza aumentou, mesmo com recursos suficientes para dar vida dignidade a todos.

AE – Os casos de abuso sexual de menores por parte de membros do clero são páginas negras na história da Igreja?
JO – Um caso na Igreja já seria demais. Sendo confrontada com essa realidade, em vez de se desencantar do espírito de fidelidade, ofereceu um espaço de purificação interior.
O Santo Padre foi extremamente feliz, quando veio a Portugal, ao reconhecer que o pecado está dentro da Igreja.
Esta é uma realidade e quem não tem pecado que atire a primeira pedra. São situações que envergonham e entristecem a Igreja.
Esperemos que seja uma situação ultrapassada, que os casos de abuso não se repitam e exista maior cuidado na preparação e formação para o sacerdócio.

AE – O Ano Sacerdotal, que terminou a meados de 2010, é uma iniciativa já esquecida?
JO – Não. Acho que foi uma iniciativa não devidamente preparada. Estávamos a concluir o Ano Paulino e aparece esta proposta do Santo Padre, a que aderimos…

AE – Foi convocado também por causa dos casos dos abusos por parte de membros do clero?
JO – Não podemos ligar uma coisa com a outra. É uma coincidência que, para mim, é do Espírito.

Para 2011
AE – Que votos formula para 2011?
JO – Espero que se concretize um modelo de sociedade diferente, alicerçado na fraternidade e na justiça.
Para a Igreja em Portugal, gostaria que o programa de repensar a pastoral da Igreja fosse levado a sério por todos os cristãos e por todos os que nos queiram ajudar a ser fiéis à missão que Deus nos confiou.

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