D. José Ornelas de Carvalho, ordenado padre pelo antigo arcebispo de Évora, realça o «homem de bem, cristão convicto, padre dedicado e pastor acolhedor»

Foto: D. José Ornelas Carvalho (à esquerda) com D. Maurílio de Gouveia, Diocese de Setúbal

Setúbal, 20 mar 2019 (Ecclesia) – O bispo de Setúbal diz que D. Maurílio de Gouveia, falecido esta terça-feira aos 86 anos, pertence a uma geração de responsáveis da Igreja que “deram um novo rosto ao catolicismo em Portugal”.

Numa mensagem enviada hoje à Agência ECCLESIA, D. José Ornelas Carvalho, natural da Madeira como o arcebispo emérito de Évora, equipara este a figuras como D. Manuel Martins, o primeiro bispo sadino, D. Manuel Falcão, antigo bispo de Beja, e D. José Policarpo, que foi cardeal-patriarca de Lisboa.

Homens que, nomeados pelo Papa Paulo VI, após o 25 de abril de 1974, “relançaram pontes e diálogo com o Portugal democrático, apostaram numa Igreja promotora da ação dos leigos e aberta particularmente aos que mais precisam”.

D. José Ornelas Carvalho recorda também a ligação que estabeleceu com D. Maurílio de Gouveia desde a sua juventude.

Uma relação de “amizade” e mesmo “paterno-filial”, que teve como um dos pontos altos a chegada ao “dom do sacerdócio”, numa celebração de ordenação presidida precisamente pelo antigo bispo de Évora.

Na mente do agora bispo de Setúbal está o encontro com D. Maurílio de Gouveia no Verão passado, “quando já se encontrava muito fragilizado pela doença”.

“Acolheu-me com um sorriso alegre, que manifestava um ar cansado, mas retomava fôlego para indicar alguns livros e pastas dizendo: Olha, Zé, estou a preparar-me para a grande viagem! Estou tranquilo e nas mãos de Deus”, recorda D. José Ornelas Carvalho, que voltaria ainda encontrar-se com o seu antigo professor.

Aí, há cerca de um mês, e com “uma voz muito mais sumida”, D. Maurílio de Gouveia repetiu-lhe “a mesma mensagem e, no fim, despediu-se com um: Até ao céu!”.

Foi também nesta ocasião que D. Maurílio de Gouveia entregou ao bispo de Setúbal “um pequeno livrinho, uma espécie de memórias finais”.

É deste livro que D. José Ornelas deixa, “com o sentir de uma dor que se abre a uma grande paz”, um trecho de texto que mostra “o fundamento desta vida fecunda de inteligência, bondade, paixão e fé” que foi D. Maurílio de Gouveia.

“Quando se atinge uma idade avançada, os olhos estão mais postos no Além do que neste mundo passageiro. É a ordem natural das coisas. Como acontece com a água do rio, que incessantemente corre para o mar, assim a nossa vida se vai aproximando cada vez mais do Oceano…. É o tempo da aproximação. O Céu está próximo”, pode ler-se.

D. José Ornelas Carvalho conclui a sua mensagem, publicada na página online da Diocese de Setúbal, com uma dedicatória especial para D. Maurílio de Gouveia.

Foto: Jornal da Madeira

“Caro D. Maurílio, bom Pai e amigo, bem-haja pelo seu percurso de homem de bem, de cristão convicto, de padre dedicado, de pastor acolhedor e providente, de amigo e companheiro de tantos nesta terra. E que o nosso próximo encontro seja: “Até ao céu!”

D. Maurílio de Gouveia, arcebispo emérito de Évora, faleceu na tarde desta terça-feira no Eremitério de Maria Serena, em Gaula (Concelho de Santa Cruz), na Diocese do Funchal, com 86 anos de idade, na sequência de uma doença prolongada.

D. Maurílio Jorge Quintal de Gouveia, filho de Aires Romão Freitas Gouveia e de Matilde Maria Quintal de Gouveia, nasceu a 5 de agosto de 1932 em Santa Luzia, no Funchal; cumpriu a sua etapa vocacional no Seminário Diocesano do Funchal e foi ordenado sacerdote a 4 de junho de 1955.

Aos 22 anos seguiu para Roma, para prosseguir os seus estudos, e formou-se em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana, tendo tirado também uma pós-graduação em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense.

A 26 de novembro de 1973, aos 41 anos, D. Maurílio de Gouveia recebeu a sua nomeação episcopal, como bispo titular de Sabiona e bispo auxiliar de Lisboa, através do Papa Paulo VI; Quatro anos mais tarde, a 21 de maio de 1978, foi nomeado arcebispo titular de Mitilene, e a 17 de outubro de 1981, aos 49 anos de idade, como arcebispo de Évora.

A tomada de posse como arcebispo de Évora aconteceria três meses mais tarde, a 8 de dezembro de 1981, no dia da festa da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, padroeira principal de Portugal e da Arquidiocese de Évora.

Em 2007, por ter atingidos os 75 anos, idade limite para o desempenho da missão episcopal, segundo a lei canónica, D. Maurílio de Gouveia apresentou ao então Papa Bento XVI a sua resignação ao cargo de arcebispo de Évora, sendo sucedido por D. José Alves em 2008.

O funeral de D. Maurílio de Gouveia  realiza-se esta sexta-feira em Évora, com a oração das Laudes pelas 10h00, na Catedral local, seguida de Missa exequial às 15h00 presidida pelo arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho.

O cortejo fúnebre segue depois para a Igreja do Espírito Santo em Évora, onde decorrerá a encomendação e a sepultura dos restos mortais de D. Maurílio de Gouveia, no Panteão dos Arcebispos.

JCP

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