Igreja: Aos 76 anos, o missionário comboniano Manuel Augusto procura a «criatividade e o risco» para abrir processos «inspirado no Papa Francisco»

Sacerdote inspirado pelo Concílio Vaticano II, o padre Manuel Augusto fez missão no Quénia, viajou pela Indonésia, Filipinas, China, Roma, sentindo que «o Evangelho tinha uma resposta positiva a dar aos povos e a Igreja também a devia ter»

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 24 jun 2026 (Ecclesia) – O padre Manuel Augusto, missionário comboniano, atual diretor das Obras Missionárias Pontifícias (OMP) em Portugal, acredita na importância de se redescobrir o sentido missionário das origens e afirma esta originalidade como marca de homens e mulheres leigos.

“Nós estávamos habituados a pensar que a missão da Igreja estava nas mãos das grandes Ordens, o que era verdade até então, mas, a partir dessa altura, (segunda metade de 1800, ndr) surgem protagonistas novos, que pertencem ao clero diocesano, um ou outro bispo, e pertencem ao laicado. A grande novidade da missão, nesta altura, é que são homens e mulheres que se unem para levar o Evangelho”, traduz o sacerdote que durante 10 anos trabalhou no Gabinete de Investigação Histórica dos Missionários Combonianos, em Roma.

Recordando a realização do Concílio Vaticano I, em 1870, que “fechou a Igreja e condenou a modernidade”, os fundadores de ordens missionárias, “chegaram à conclusão de que era inútil a atitude de contraposição”.

“Se os europeus não estavam interessados no Evangelho, tudo bem, nós vamos levar o Evangelho a estes povos (em África, ndr) que estão a ser descobertos. E vamos mostrar que o Evangelho e a fé cristã são um elemento determinante para a transformação destas pessoas, destas sociedades”, assinala o responsável.

Hoje, o padre Manuel Augusto, nomeado pelo Papa Leão XIV como diretor das Obras Missionárias Pontifícias em Portugal, acredita ser chamado a promover “comunhão”, a ajudar as comunidades a redescobrir a palavra “missão”.

“A própria missão das OMP tem que ser revista, porque, entretanto, nós construímos uma narrativa, que todos somos missionários, cada Igreja é missionária, cada comunidade é missionária e há comunidades que desenvolveram parcerias com paróquias, com dioceses. A função das OMP tem que ser revista e tem que se desenvolver mais a linha da formação, para que a narrativa que estamos a construir não se fique só por palavras e que não anule o carisma particular de sair”, destaca.

A investigação no Gabinete de Investigação Histórica dos Missionários Combonianos, decorreu entre 2015 e 2025 – na altura em que o Papa Francisco procurava concretizar uma “Igreja em saída, missionária”, o missionário “era convidado a ir ao passado”.

“Ocupar-me da História ajudou-me a perceber o que aconteceu”, valoriza.

Em abril de 2020, o padre Manuel Augusto é chamado a um encontro com o Papa Francisco, conversa que adianta, “ele pediu que mantivesse sigilosa”, mas da qual revela ter sentido “sintonia” e da qual recorda o olhar de um homem, com 84 anos e com a capacidade de sonhar a Igreja.

“Ele era um sonhador e (sabia) que, em algumas coisas, não ia obter os resultados que esperava. Tinha o sonho mas o sentido do realismo. Agora, o que prevalecia nele não era o cálculo, eu acho que era o sonho – era criar um contexto onde as coisas pudessem abrir-se”, recorda.

“A coisa bonita do Papa Francisco é talvez perceber que ele viu onde estavam as novas oportunidades para a Igreja hoje, e para o Evangelho, e portanto o que ele estava a pedir, e o que ele está a pedir, porque a coisa permanece, é que a Igreja tenha essa capacidade de perceber as novas oportunidades para o Evangelho e de dar respostas. A Igreja em saída, quer dizer, a atitude fundamental com que a Igreja vive, as periferias, todos estes conceitos estão nessa linha”, reconhece.

Identificando as oportunidades, o missionário comboniano lamenta que “o peso da própria instituição e das próprias instituições”, assim como, “das congregações e institutos”, estejam a “impedir atitudes criativas e de risco”.

O padre Manuel Augusto, hoje com 76 anos, deixa-se inspirar com as primeiras missões no Quénia onde, no final dos anos 80, ao descobrir a humanidade das pessoas que o acolhiam, “sem condições do ponto de vista material, extremas, extremas de sobrevivência” mas cuja “grandeza do ânimo, a bondade, a disponibilidade, a generosidade” o consolava.

“Na América Latina, onde os tempos da luta contra as ditaduras, ou em África os movimentos independentistas, por altura do Concílio Vaticano II, o desejo era integrar a dimensão cultural, e perceber como é que o Cristianismo que leva uma novidade pode também assumir os valores das culturas e das religiões que encontra”, explica.

“Com o andar do tempo outras apareceram, a justiça, naturalmente, a ecologia, a defesa da criação, isso já há mais recém, mas naqueles anos eram fundamentalmente estas duas dimensões – a justiça e a liberdade. Líamos Evangelho e procurávamos ler as aspirações dos povos de uma maneira positiva, porque partíamos do princípio que o Evangelho tinha uma resposta positiva a dar e a Igreja também a devia ter”, assinala.

Após a sua ordenação, em 1976, o missionário, antes de ser enviado para fora, começa a trabalhar nas revistas da congregação «Além-Mar» e «Audácia», e a colaborar com o semanário «Expresso», onde escreve “com algum risco”.

“Havia algum risco da minha parte em relação a avançar hipóteses ou a avançar ideias porque eu era jovem, olhava para o futuro. Eu procurava oferecer uma visão a partir da renovação conciliar e uma visão de futuro e procurava o diálogo com a sociedade que emergia, tanto em termos políticos como culturais”, recorda.

O padre Manuel Augusto esteve na primeira missão da congregação na Ásia, tendo-se radicado nas Filipinas, onde trabalhou para a revista «World Mission», celebrou na China onde procurou levar a “comunidades fechadas as novidades do Concílio Vaticano II”, foi superior-geral da congregação dos Missionários Combonianos, e hoje, com 76 anos regressa a Portugal para ser diretor das OMP.

Depois de viver 10 anos em Roma, o missionário sublinha a necessidade de, em Portugal, se “educar a fé, cuidar da transmissão da fé” e acompanhar as pessoas, facto que sente “estar a falhar”.

Procurando o discernimento e a lucidez que o ajudem a perceber quando se deve retirar, o missionário comboniano é, “acompanhando a linha do Papa Francisco” que afirma ter apreciado, um homem apostado em abrir processos.

A conversa com o missionário comboniano Manuel Augusto pode ser acompanhada no programa ECCLESIA, emitido esta noite na Antena 1, depois da meia-noite, e disponibilizada no podcast ‘Alarga a tua tenda’.

LS

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